Camiões especiais, máscaras duplas, autotestes a militantes e comícios sem festa. A campanha que começou no pico da pandemia

18 jan, 07:00
Rui Rio em campanha em Lisboa (Lusa/ Tiago Petinga)

O PSD arranjou autocarro para fazer conversas ao ar livre, o PS faz testes a quem não tem terceira dose à entrada dos comícios e o Livre e o Volt aproveitam as máscaras para fazer campanha. Já no Chega ou no CDS há muitos abraços, beijinhos e convívios à mesa. Segundo a DGS nenhum partido tinha de pedir parecer sobre as ações de campanha, mesmo com 40 mil casos por dia

Quando Rui Rio chegar esta terça-feira ao Fundão terá à sua espera o camião especial que foi adaptado para a sua campanha eleitoral para tentar ultrapassar os entraves causados pela pandemia. É junto a este veículo com um atrelado de 16,4 metros que a comitiva do líder do PSD monta uma sala ao ar livre, com um toldo transparente, a cobrir dezenas de cadeiras pretas, para todos os que querem ouvir o social-democrata falar, na tarde desta terça-feira, sobre Ensino Superior e Ciência. “O camião é daqueles dos programas de televisão que foi adaptado e com a cobertura dá para evitar espaços fechados”, conta à CNN Portugal um dos elementos envolvidos na organização da campanha, explicando que a ideia foi inspirada nos camiões que costumam existir nos programas de entretenimento que andam pelo país.

É também por causa da pandemia que o PS mudou as rotinas na campanha, em especial nos comícios. Esta terça-feira, António Costa estará na Madeira e, às 18:30, no comício que fará no Fórum Machico, só podem entrar pessoas com a terceira dose da vacina ou então têm de fazer um autoteste à entrada, disponibilizado pelo partido. Foi assim no comício dos Açores, onde quem não tinha comprovativo da vacina era desviado para um local onde se fazem os rastreios à covid-19. Dentro de espaços usados para comícios para mais de 1.000 pessoas, cumprem-se regras rígidas de distanciamento entre cadeiras e a lotação dos espaços tem de ficar a 50%.

Regras que a Direção-geral de Saúde (DGS) manda aplicar a todos os eventos políticos, culturais ou outros com um determinado número de pessoas. De resto, as autoridades de saúde não definiram qualquer plano específico para esta campanha eleitoral, feita numa altura em que o país enfrenta entre 30 a 40 mil casos diários, confirmou à CNN Portugal fonte oficial do organismo.  

“Para a realização de iniciativas partidárias não são necessários pedidos de parecer”, esclareceu fonte oficial da DGS – o que significa que nenhum evento ou ação dos partidos durante esta campanha tem de ser alvo de autorização ou estipulação de regras especiais. “Há um conjunto de orientações e normas em vigor que devem ser cumpridas, nomeadamente uso de máscara, arejamento dos espaços, desinfeção das mãos e distanciamento físico, devendo ainda ser evitadas aglomerações de pessoas”, acrescenta a mesma fonte.

Ventura soprou as velas e abraçou militantes 

No terreno, a aplicação de todas estas regras difere de partido para partido e até de político para político. Uns evitam abraços e beijinhos e não tiram a máscara; outros parecem não abdicar dos toques, da conversa cara a cara sem proteção e da partilha de afetos.

Quando André Ventura esteve na Batalha, junto ao Mosteiro, e foi cercado por uma multidão, ele sem máscara, não poupou nos abraços aos apoiantes, com os quais tirou fotografias. O líder do Chega, que esteve infetado com covid em agosto, fez anos nesse domingo, primeiro dia de campanha, e quando ali apagou as duas velas, uma com um 3 e outra com um 9, colocadas em cima do bolo de anos, não hesitou em soprar distribuindo depois várias fatias pelos presentes.  

 

Também ao som do hino do CDS Francisco dos Santos, sem máscara, no café do Museu de Arte Sacra, em Évora, não escondeu ontem a importância que dá à proximidade com as pessoas.  “Esta campanha não deve ser drasticamente limitada ao ponto de impedir que sirva para aquilo que é a sua finalidade que é poder contactar com os eleitores, esclarecer as nossas propostas, darmos a conhecer e trocar alguns afetos”, defendeu à CNN Portugal.  

Para o líder dos centristas, tem de haver “um equilíbrio entre a saúde e a política que tem de fazer com bom senso”. Garantindo que o partido está a procurar organizar “os eventos em segurança para que exista o sentimento de que estamos protegidos do vírus”, Francisco Rodrigues dos Santos promete que durante as próximas duas semanas vai “cumprir as recomendações da autoridade de saúde, em relação a uso da máscara” e tentar manter distanciamento de segurança”.

Mas nem sempre parece fácil. Esta segunda-feira, quando foi a Portalegre visitar a esquadra de PSP, e falar de segurança, apareceu sem máscara e não resistiu a dar abraços quando se cruzou com uns jovens estudantes.

Duas máscaras para maior proteção

Enquanto isso, outros políticos fazem campanha com duas máscaras de proteção. É o caso do líder do Livre, Rui Tavares, que por cima de uma FP2 branca coloca uma máscara verde, onde tem escrito o nome do partido. Uma opção que não passou despercebida a quem com ele se cruzou. “Porque é que tem as duas máscaras?”, perguntou-lhe logo no primeiro dia de campanha um vendedor na Feira do Relógio, em Lisboa, onde o líder partidário estava em campanha eleitoral. Rui Tavares explicou que o fazia para se proteger e ao mesmo tempo mostrar o símbolo do partido.  “O bicho não pega”, insistiu o comerciante, que, por seu lado, não usava máscara.

Não tardou a ser chamado à atenção pelos agentes da polícia que iam fiscalizando o cumprimento das regras dentro daquela feira. Enquanto caminhava, o líder do Livre distribuía panfletos, mas tentava manter alguma distância. Sempre que falava com alguém perguntava o nome, uma forma de tentar quebrar a falta de proximidade imposta pela pandemia. Ali, Rui Tavares deu muitos toques de punhos, e em alguns casos umas palmadas nos ombros; mas nada de abraços.

Também no Volt, há quem aproveite a máscara para divulgar o nome do partido. Nas ações de rua, Mykhaylo Shemliy, o candidato por Tomar, usou uma máscara roxa onde se podia ler a palavra Volt. “São máscaras do partido que temos para vender”, explicou à CNN Portugal. Foram compradas, cerca de 100, para o primeiro congresso do partido e agora são usadas como material de divulgação. Devido ao elevado número de casos de covid que há neste momento no país, os elementos do Volt decidiram apostar tudo em ações ao ar livre, percorrendo as ruas das localidades, onde passeiam com bandeiras do partido, de Portugal e da União Europeia, como sucedeu na segunda-feira em Santarém e Tomar.

O risco de surtos e isolamentos

Na estrada, muitos partidos optam por fazer testes regularmente para evitar um surto que prejudique o resto da campanha, onde há 20% de indecisos que podem mudar tudo.  Na comitiva de Catarina Martins, fazem-se testes constantemente. Até agora, segundo fontes do BE explicaram à CNN Portugal, ainda não apareceu nenhum positivo. Caso apareça, todos terão de ser alvo de testes de antigénio ou PCR e quem estiver positivo tem de ficar em isolamento por sete dias. Esta terça-feira, Catarina Martins vai ao Bairro da Jamaica falar com a associação de moradores e, como sempre, colocará a sua máscara.

A estratégia passa por apostar em ações na rua. Encontros à porta fechada são de evitar, se possível.  E, mesmo na rua, as famosas arruadas estão a ter acertos. No PCP, por exemplo, vão dar lugar ao que os comunistas chamam de desfile, uma espécie de pequenas arruadas. Serão duas, mas as ações de rua estão guardadas para a segunda semana de campanha eleitoral.  

O arranque das ações dos comunistas, depois de se saber que Jerónimo de Sousa não pode participar, foi feito por João Ferreira no comício em Setúbal. Comícios que a pandemia também obrigou a mudar. O evento inaugural dos comunistas, tal como os de muitos outros partidos, não teve, ao contrário do que é costume, militantes em pé, encostados uns aos outros a segurar enormes bandeiras, mas sim apoiantes sentados, de máscara, no caso do PCP no auditório da Junta de Freguesia de S. Sebastião. Cenário semelhante teve António Costa no seu primeiro comício nos Açores, onde a sala cheia de outros anos parecia vazia perante duas cadeiras sempre separadas por uma outra vazia.  

 

Medo de ser infetado

É por causa da pandemia que muitos partidos não fazem almoços nem jantares na campanha, como o PS, PSD, PCP e BE. Já o Chega, o CDS e a Iniciativa Liberal, pelo menos, juntaram apoiantes à mesa nos últimos dias. O partido de Cotrim Figueiredo alugou um espaço, chamado Vinil, em frente à antiga FIL, em Lisboa onde se fazem muitas festas privadas, para um convívio da sua comissão de honra. Estavam presentes cerca de 30 pessoas num almoço que incluía frango com caril, lombo assado ou salmão. Já André Ventura contabilizou, orgulhoso, mais de 200 pessoas num jantar que o Chega organizou no domingo. “São pedidos certificados digitais à porta”, adiantou um elemento da organização.

Apesar de serem ao ar livre, muitas iniciativas são mesmo assim difíceis de controlar. Ontem, quando Rui Rio fez uma ação de campanha na zona de Alvalade, em Lisboa, o mal-estar instalou-se entre algumas pessoas que se encontravam num estabelecimento comercial onde o líder do PSD entrou seguido da sua comitiva.  “Com isto vou ter de ir a uma farmácia fazer o teste porque posso ter ficado infetada”, comentou uma senhora idosa, que se encontrava na esplanada do café Helsínquia, na Avenida da Igreja. E outra, ao lado, concordava: “Eu sei lá se nenhum deles tinha a Ómicron”, a variante muito contagiosa que todos os dias está a infectar milhares de portugueses 

Rui Rio, que ontem nesta sua ação de rua teve a companhia do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, disse-lhes “bom dia” e ainda lhes entregou um lápis do PSD e um folheto do partido. Ele, tal como todos os seus adversários, também não quer ser apanhado pela Ómicron. Aí como admite o líder do CDS, Francisco dos Santos, à CNN Portugal só haverá uma solução: “Se for infetado tenho de cumprir as regras em vigor e transitar a campanha para as ferramentas digitais. O que espero que não aconteça”.

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