opinião
Diretor de contas da consultora de comunicação AMP

Já falta pouco

13 mai 2025, 15:30

As eleições legislativas de dia 18 não são apenas um ato democrático — são, antes de mais, uma coreografia mediática. Numa sociedade onde o som vale mais do que o sentido, os discursos, as imagens e os gestos medidos convertem-se em armas no verdadeiro teatro da política. O que está em jogo é menos o conteúdo e mais a encenação: quem lidera, quem emociona, quem domina o ecrã dos indecisos.

À medida que o pano cai sobre a campanha, torna-se claro que o palco principal pertence a dois protagonistas: a AD e o PS. A Aliança Democrática ensaia uma representação de estabilidade. Fala com voz firme, projeta autoridade, e atira-se com prazer a símbolos de caos — como a greve da CP — para se posicionar como o bastião da ordem. Não é um acaso. A análise das sondagens mostra um eleitorado exausto de turbulência, ansioso por previsibilidade. A AD percebeu isso antes dos outros e moldou a sua campanha como um manual de instruções para tempos incertos. E, convenhamos, o eleitorado português não anda à procura de emoção — quer descanso.

Já Pedro Nuno Santos surge como o protagonista da emoção perdida. Tenta reconquistar um capital simbólico que se esfumou na transição de militante aguerrido para líder institucional. As motos, as arruadas e os abraços à classe trabalhadora procuram humanizar uma figura que parecia ter sido sugada pela máquina partidária. O PS apresenta-se como o último reduto contra a erosão do Estado Social, e isso agrada à esquerda tradicional. Mas ainda se pergunta: será suficiente para reverter a maré?

Enquanto os gigantes travam a batalha pelo centro, os pequenos partidos executam as suas danças paralelas. A Iniciativa Liberal fez de um ato de vandalismo performativo — tinta verde em Rui Rocha — uma oportunidade de ouro. Num raro momento de eficácia narrativa, o partido não só capitalizou o incidente como o enquadrou na sua estética de resistência racional. Já Rui Rocha demonstrou frieza e estratégia — qualidade rara num contexto de excesso emocional.

No extremo oposto, o Chega persiste na encenação do excluído. Ventura, sempre no papel do mártir do sistema, repete o guião de indignação perpétua. O discurso radical não mudou, e talvez nem precise: a sua base é fiel e grita alto. Mas as pontes continuam inexistentes. Ventura pode ter voz, mas não tem sala.

Entre os satélites da esquerda, o Livre e o BE oferecem discursos segmentados, mas com dinâmicas diferentes. Rui Tavares tenta apresentar-se como o arquiteto de uma "nova geringonça responsável", mas a proposta soa a ensaio académico: bem escrito, bem lido, mas sem energia nova. Mariana Mortágua, por sua vez, domina o conteúdo, mas falha na forma. A sua “aula” sobre gigantes tecnológicos impressiona intelectualmente, mas a linguagem — tanto verbal como não verbal — trai-a. Basta reviver o debate conjunto para perceber o olhar de desdém dirigido a Rui Tavares. Mortágua não sorri a adversários: repele-os. E a política, como se sabe, não perdoa desdém mal disfarçado.

Inês Sousa Real, em contraste, jogou com subtileza. Escolheu o pragmatismo, leu o momento e fez do PAN algo mais do que uma nota de rodapé. Pode não emocionar, mas posiciona-se como fiel da balança — e, por vezes, isso vale mais do que um bom discurso.

Num contexto saturado de representações e lugares-comuns, a eficácia da comunicação não se manifesta tanto no impacto mediático imediato, mas sim na consolidação da opinião pública. A Aliança Democrática, através da sua mensagem de força e estabilidade, tem vindo a ocupar uma posição central no cenário político, transmitindo segurança a um eleitorado cansado de instabilidade institucional. As sondagens confirmam esta vantagem estatística, com valores entre 27% e 34,4%, mas alertam para o facto de que a vitória poderá não ser suficiente para garantir uma maioria estável. Luís Montenegro lidera, efetivamente, porém a vitória, no teatro da política real, só se consuma com acordos.

Em contrapartida, o Partido Socialista procura dissimular a sua travessia no deserto através de um esforço narrativo mais emocional. Pedro Nuno Santos exibe uma combatividade, ideologia e proximidade evidentes, procurando cativar os indecisos através da memória afetiva da esquerda. E, ainda que se verifiquem ligeiras subidas — entre 23% e 28% nas intenções de voto —, não parece possível alterar o quadro de fundo.

A síntese a que chegamos é a seguinte: neste ciclo eleitoral, triunfa quem souber transfigurar proposta em símbolo, dúvida em desejo. A comunicação foi apenas um dos elementos constituintes da estratégia, sendo igualmente necessário governar no imaginário. A política transformou-se num palco, onde cada palavra, cada imagem e cada hesitação são submetidas a um escrutínio rigoroso. As estratégias que demonstraram uma maior capacidade de articular consistência, emoção e plasticidade discursiva foram as que se destacaram. As sondagens não deixam margem para dúvidas: a comunicação por si só não é suficiente, sendo imprescindível que seja seguida de uma ação concreta. No desfecho deste drama democrático, a capacidade de conceber um novo enredo para o futuro será determinante para a construção de uma imagem para o país.

Decisão 25

Mais Decisão 25

Mais Lidas