Brasil, um país "quase bélico" onde as famílias e amigos se deixam de falar por causa das eleições

29 ago, 07:00

A política domina as conversas nas ruas, nas padarias, nas lanchonetes, nas reuniões de família. O Brasil, que elege em outubro o novo presidente, é agora o país de Lula ou de Bolsonaro e quem é por um é inimigo do outro. O retrato de um país de opostos, traçado por três jornalistas e analistas políticos que o conhecem como poucos

João Almeida Moreira vive no Brasil desde janeiro de 2011. O jornalista português de 49 anos é, por defeito profissional, um observador e conhece o país e o povo brasileiro como a palma da mão. Reconhece agora um Brasil político “extremamente polarizado”, num ambiente “quase bélico”, com famílias divididas e amigos separados.

“É um país que, principalmente desde o impeachment da Dilma se tornou extremamente polarizado. Mas ao ponto de famílias e amigos deixarem de se falar. Não concordo quando se fala em extremos, porque estamos a falar de gente que defende um candidato de extrema-direita e um candidato de centro-esquerda. Falar aqui de extremos pode ser perigoso do ponto de vista político. Historiando um pouco o Brasil recente, ele é polarizado desde os anos 90. Só que era polarizado entre o PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira] de Fernando Henrique Cardoso e que apoiou Itamar Franco e Michel Temer e o PT [Partido dos Trabalhadores] de Lula da Silva, Dilma Rousseff e Fernando Hadad. Com a queda da Dilma, em 2016, o país tornou-se quase bélico. Tornou-se quase uma guerra aqui”, retrata João Almeida Moreira.

A visão do jornalista português é secundada pela brasileira Liane Varsano, jornalista e mentora de comunicação. Em conversa telefónica com a CNN Portugal, Liane faz um retrato de um país onde reinam os opostos. Um país de polos opostos, onde os tons de cinza quase não têm visibilidade. Um país onde tudo é interpretado e parece passar uma mensagem. “Chegou no momento em que se eu tenho uma bandeira do brasil na minha janela, é porque sou Bolsonaro. Se eu visto de verde e amarelo, sou Bolsonaro. E tenho um vestido vermelho, sou PT”, explica.

Campanha “violenta”

João conta que a política domina a conversa nas ruas, nas filas das padarias, nas lanchonetes. “Ainda no outro dia fui à padaria, que é de um português, daqueles que ainda mantêm o sotaque. Comecei a falar do Sporting e ele respondeu ‘pois, pois… e o Lula hem? Vai votar Bolsonaro, não vai?’. A conversa rapidamente se encaminhou para a política”, recorda.

“Em Portugal, discute-se Futebol, fala-se do Porto, do Benfica e do Sporting, fala-se dos árbitros. Aqui, discute-se política”, compara.

O período pré-campanha eleitoral e a própria campanha para as eleições de 02 de outubro vieram revelar posições muito extremadas, onde ganham visibilidade episódios de violência: “um cara estava a festejar o aniversário, tinha cartazes do Lula e foi morto por um bolsonarista. Num comício do Lula, em Minas Gerais, um drone invadiu um comício e largou fezes e urina por cima dos participantes. O autor foi preso. Era um bolsonarista. Mas há episódios violentos do outro lado também. Não é exclusividade dos bolsonaristas.”

E antevê-se que a violência escale à medida que campanha for avançando. João Almeida Moreira recorda que, ainda há poucos dias, esteve numa conferência de imprensa do candidato do PT só para jornalistas estrangeiros a cobrir as eleições no Brasil, em que Lula da Silva se apresentou com um colete à prova de bala.

“Brasil sempre foi um país muito violento, mas nesta altura tem a violência muito canalizada para a política. À medida que a campanha for avançando, espera-se que a violência comece a escalar. Acredito que não contra os candidatos, mas entre apoiantes dos candidatos, a violência deve aumentar”, diz o jornalista português.

Uma tradição de polos opostos… ou talvez não

De acordo com a análise da jornalista e especialista em comunicação Liane Varsano, esta visão de um país dividido pela política não é de agora e tem raízes numa tradição com a idade da jovem democracia brasileira. Pelo menos desde 1985 que Liane se lembra de “uma política muito polarizada” no país que a viu nascer: “Ou a pessoa era de um lado ou era do outro.”

“O PT sempre esteve no segundo turno, umas vezes vencido e outras vencedor, mas sempre foi oponente. Sempre teve uma briga entre o PT e algum outro candidato. Em tempos, foi com o PSDB e, na última eleição, criou-se os anti-petistas. Sempre que se discorda de algo, ou se é PT ou se é Bolsonaro. E nem sempre o assunto tem a ver com política”, acrescenta Liane Varsano.

Pablo Giuliano, jornalista argentino correspondente no Brasil há vários anos, não lê a política brasileira assim. Pelo menos não agora. Mas ainda se surpreende com a “naturalização da desigualdade, da violência extrema” e discorda dessa visão de polos opostos na política brasileira. “Não tenho a visão de um europeu como vocês. Não vejo a polarização da política. Bolsonaro conseguiu incluir a Direita moderada dentro da agenda dele. Conseguiu naturalizar a agenda de ódio de preconceitos, que pobre odeie seu salário e que ache que vender alguma coisa na rua seja o correto. (…) A grande inteligência dele foi partilhar muitas ideias para atingir muitos públicos”, analisa.

“O PT não é um extremo. Eu considero-o do sistema. Mas mantém ainda muita das agendas para libertar o povo da miséria e da pobreza. Mais do que o PT do Lula, vejo um partido que está a apostar no emprego, no apoio aos mais necessitados. Essa versão que vamos ter do Lula, não é radical, porque tem uma série de heranças históricas”, justifica Pablo Giuliano.

O Deus nosso de cada voto

O Brasil vai eleger muito mais do que um novo presidente no dia 02 de outubro. Há mais de três dezenas de partidos registados no Tribunal Superior Eleitoral. De acordo com a mesma fonte, há quase 156,5 milhões de eleitores aptos a votar. Vão ser eleitos também novos deputados federais, novos deputados estaduais, novos senadores e governadores de estado. Mas é no Palácio do Planalto e no seu novo ocupante que se concentram as atenções. A cadeira deve ser ocupada por Luís Inácio Lula da Silva ou por Jair Messias Bolsonaro. São os candidatos mais bem colocados nas sondagens, com Lula em vantagem, a apresentar percentagens de intenção de voto superiores a 40%.

Uma eleição onde a emoção terá mais peso do que a razão e onde a religião está a assumir um papel importante. “Bolsonaro fez uma grande aliança com todas as igrejas evangélicas, que são parte da base do seu Governo. Ele tem criado uma espécie de teocracia evangélica. A mulher tem uma grande relevância nessa campanha, falando que Brasil é um país escolhido por Deus e que Bolsonaro é um enviado por Deus. É um messianismo nunca visto”, relata Pablo Giuliano.

O jornalista argentino fala de uma fatia de eleitorado “que é levado não a pensar tanto em assuntos como emprego, mas em culto, em rezar”.

Neste campo, Lula da Silva tem um caminho a palmilhar. A campanha do ‘petista’ dedica agora atenção a esta faixa do eleitorado e tenta a sorte junto de pequenos segmentos que podem ter alguma influência no todo, como explica à CNN Portugal Pablo Giuliano: “O Lula está a tentar conquistar as mulheres evangélicas mais pobres, através da inclusão na agenda de temas como a violência doméstica ou outros temas que digam diretamente respeito a essas mulheres oprimidas.”

Um país à beira da guerra civil?

O português João Moreira olha para o país que o acolheu há 11 anos com algumas reservas. E olha para Bolsonaro como um presidente com uma certa responsabilidade no clima crispado que o Basil vive. “Bolsonaro não tem sido um presidente diferente do que foi como candidato ou do que foi toda a vida como deputado. Ele tem radicalizado. Tem pressionado a democracia e, com isso, criado um ambiente muito mais bélico”, justifica.

“Muitos analistas têm considerado que há o risco de haver uma guerra civil no Brasil. Parece muito dramático, mas não é tanto assim. Enquanto português, achei no início que era uma visão muito dramática, mas agora não me posso esquecer que estou num país sul-americano e que a democracia brasileira é ainda muito mais jovem que a portuguesa. Se nos Estados Unidos, uma democracia tão consolidada, aconteceu o que aconteceu com a invasão do Capitólio, imagina só o que pode acontecer aqui!”, diz João Almeida Moreira.

Que Brasil vai sair destas eleições?

João e Liane não vêm outro cenário pós-eleitoral no Brasil que não seja o regresso de Lula da Silva ao Palácio do Planalto.

“Bolsonaro, parece que vive noutro mundo. Ele só tem esses seguidores. Acho que ele não consegue crescer. Ele tem um discurso muito preso, não tem horizontes. Não tem uma inovação no discurso dele. Quem ficou nessa visão permanece com ele, mas quem evoluiu, mudou”, analisa Liane Varsano.

A jornalista vê nessa militância uma vantagem para Bolsonaro, que se apoia no anti-petismo e, sobretudo, no anti-lulismo. Liane adianta ainda que as feridas deixadas por essa divisão política “vai demorar muito a curar”. “O Lula, ganhando as eleições, ainda vamos ter um bolsonarismo muito forte. E tem os filhos de Bolsonaro, que são todos senadores e políticos. Ele ainda terá a sua voz”, considera.

João Moreira, por seu lado, antevê alguma “turbulência” e muito “tumulto”, em caso de vitória de Bolsonaro: “Se Lula ganhar, poderá haver manifestações gigantescas, mas não tumulto, turbulência, porque os apoiantes de Lula não têm armas na mão.”

“O bolsonarismo é difícil de avaliar. Têm sido quatro anos quase de uma espécie de reality show, parece que estão a brincar ao Governo. Se Bolsonaro se reeleger, duvido que complete o próximo mandato sem ser ‘impichado’”, remata o jornalista português.

 

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