O que se segue para o senhor que se segue?
A taxa de participação nas eleições da Hungria foi histórica e fatal para o regime de Orbán. Dezasseis anos depois, a “democracia iliberal” que governou o país caiu com estrondo e abriu caminho para uma nova página que milhões de húngaros, sobretudo jovens, querem escrever. O que se segue para o senhor que se segue?
Péter Magyar disse à Associated Press que estas eleições seriam “um referendo ao rumo do país no mapa geopolítico global: entre as autocracias a leste e as democracias europeias”. Os eleitores escolheram a segunda opção. A presidente da Comissão Europeia não esperou sequer meia hora após os resultados para trazer de novo a Hungria a jogo. Escreveu nas redes sociais que “O coração da Europa bate mais forte na Hungria esta noite. A Hungria escolheu a Europa. A Europa escolheu sempre a Hungria”.
Hungary has chosen Europe.
— Ursula von der Leyen (@vonderleyen) April 12, 2026
Europe has always chosen Hungary.
A country reclaims its European path.
The Union grows stronger.
Magyarország Európát választotta.
Európa mindig Magyarországot választotta.
Egy ország visszatér az európai útjára.
Az Unió erősebbé válik.
Na campanha, as estratégias dos principais candidatos foram antagónicas: se Magyár cavalgou (e capitalizou) o desgaste de dezasseis anos de governo através do discurso de combate ao sistema, corrupção e estado de direito, Viktor Orbán fez do “vá para fora cá dentro” o seu cavalo de batalha e escolheu Bruxelas, Kiev e migrações como os seus cavalos de batalha. Mas é no meio disto tudo que está a grande preocupação dos eleitores: aumento do custo de vida, preços da energia e crise na habitação. No ranking do Eurostat a Hungria está em primeiro lugar nos países onde o preço das casas mais cresceu em dez anos, quase 300%.
Em Bruxelas há quem celebre, há quem suspire de alívio, há quem faça apostas e há quem tenha o algodão a postos para o teste ao próximo primeiro-ministro, prometendo não “passar pano”. Há um empréstimo de 90 mil milhões de euros a Kiev para desbloquear, um novo pacote de sanções à Rússia (o vigésimo) para adotar e milhões de euros em fundos europeus para desbloquear.
Este último ponto é frequentemente esquecido, mas nunca é demais recordar que a Hungria já enfrenta consequências de Bruxelas desde que em 2018, o Parlamento Europeu acionou a arma mais forte: o temido artigo 7º do Tratado de Funcionamento da União Europeia. É o último recurso para “salvaguardar os valores fundadores da União Europeia”, mas mesmo depois de sete audições no Conselho de Assuntos Gerais, ainda não há desfecho final, para além do dinheiro parado na capital europeia que vai desde a coesão aos planos para a defesa. A Hungria é neste momento o único dos 19 países que submeteram planos de defesa que não viu ainda a luz verde. Quanto ao procedimento aberto com o artigo 7º, por violações ao estado de direito, liberdade de imprensa e proteção de minorias, o país beneficiou do medo dos restantes estados-membros de se abrir um precedente que possa ter efeito ricochete, e dos laços de amizade que impediriam uma votação favorável (e por unanimidade, excluindo a Hungria) no Conselho. É que a Hungria de Orbán tem e vai continuar a ter amigos no Conselho.
Quando Magyar chegar aos corredores do edifício Europa para o seu primeiro conselho europeu vai receber certamente um caderno de encargos, e nele virá certamente a questão energética. A Hungria mantém a dependência da Rússia, conquistou (pelo cansaço) tratamento especial no Repower EU (o plano para eliminar totalmente o gás russo na UE até 2027) e está a impedir a adoção do vigésimo pacote de sanções e o empréstimo à Ucrânia por causa da interrupção do fornecimento de petróleo russo através do oleoduto de Druzhba, que a Rússia destruiu num ataque à Ucrânia. Mesmo depois de a UE ter oferecido ajuda para a Ucrânia conseguir reparar o pipeline, Orbán manteve o veto e fez com que Costa e Von der Leyen tivessem chegado a Kiev de mãos a abanar no dia em que a guerra fez quatro anos: sem empréstimo e sem sanções. Qual será a resposta de Magyar no campo da energia? É que a paciência europeia parece por estes dias ter a duração de um fósforo.
Ainda não sabemos quando e como será a estreia, mas Magyar vai encontrar um Conselho Europeu prevenido, abalado pelas recentes notícias que davam conta de fugas de informação de reuniões europeias diretamente para a Rússia. Apesar da manifestação pública poder ter sido contida, o ambiente gelou e a preocupação é grande. Conquistar a confiança da mesa será a chave. Com esta eleição ganha também o Partido Popular Europeu que senta mais um à mesa (o Tisza, partido de Magyar faz parte desta família política europeia) e mantém o domínio numérico nas cimeiras europeias.
Quanto a Orbán, deverá despedir-se em breve e receber o tradicional presente de fim de festa. Antes, os chefes de estado e de governo cessantes recebiam pequenos troféus, agora recebem fotografias de família assinadas pelo Presidente do Conselho Europeu. A questão é perceber se o primeiro-ministro cessante terá espaço (ou vontade) para enquadrar esta fotografia em algum lugar, sabendo que na parede há retratos com Putin ou com Donald Trump. Também eles perderam neste domingo, dia treze.