O "maquiavélico" Emmanuel Macron vs. A "versão descafeinada" de Marine Le Pen: round 1

10 abr, 09:00
Emmanuel Macron e Marine Le Pen

Os franceses escolhem este domingo o próximo presidente. Se há quem aponte para elevados níveis de abstenção, também há quem acredite que o voto útil e os votos dos jovens podem ser decisivos. As sondagens apontam para duas direções: a reeleição de Emmanuel Macron ou a eleição de Marine Le Pen. Mas o que distingue realmente estes dois candidatos?

Realizam-se este domingo as eleições presidenciais e, segundo as sondagens, esta corrida não termina à primeira volta. Dos 12 candidatos ao cargo de Presidente de França, Marine Le Pen e Emmanuel Macron devem ser os dois que seguem para a segunda volta daqui a duas semanas, a 24 de abril. 

Se um dos candidatos conseguir mais de 50% dos votos na primeira volta, é eleito presidente e toma posse a 13 de maio, mas se nenhum conseguir alcançar esse número, os dois mais votados seguem à segunda volta. Nas últimas presidenciais, em 2017, o candidato do partido Em Marcha ganhou à segunda volta com 66,10% dos votos, enquanto a candidata da extrema-direita conquistou 33,90%. 

Nestas eleições existem alguns pormenores que podem passar despercebidos. À primeira vista, parecem muito idênticas às de há cinco anos, mas a verdade é que a extrema-direita está a crescer e o Partido Socialista francês está cada vez mais fragilizado. De acordo com Henrique Burnay, especialista em assuntos europeus, o facto de ter surgido um candidato mais à direita que Le Pen -  Éric Zemmour, do partido Reconquista - tem feito com que Le Pen esta se torne "mais tolerável" e "mais light".

Em contrapartida, os franceses parecem estar cansados de Macron, mas como a alternativa mais próxima é a direita radical, o atual Presidente pode vir a beneficiar do voto útil. Há também quem fale em níveis de abstenção históricos.

O que distingue Emmanuel Macron de Marine Le Pen? 

José Rebelo, professor de ciências políticas no ISCTE e enviado especial e correspondente do jornal Le Monde em Portugal entre 1975 e 1991, respondeu a esta pergunta a três níveis: a filiação política; a base social de apoio; a personalidade.

Comecemos pelo início, a veia política. Marine Le Pen esteve sempre, direta ou indiretamente, ligada à extrema-direita. "Representa a extrema-direita nacionalista organizada partidariamente por Jean-Louis Tixier-Vignancour quando este se apresentou às eleições presidenciais francesas de 1965." Mais tarde, em 1972, o sucessor de Tixier-Vignancour "foi Jean-Marie le Pen, que nove anos mais tarde abandonou a corrida presidência em favor da sua filha, Marine Le Pen". 

Já Emmanuel Macron foi militante do Partido Socialista Francês entre 2006 e 2009. Em 2014, e até 2016, "foi, na qualidade de independente, Ministro da Economia de um Governo do PS", tendo depois abandonado o governo "para se candidatar às presidenciais como líder do partido En Marche, que criou para o efeito". 

Os dois líderes políticos também diferem nas bases de apoio. Le Pen prefere os "sectores mais populares, com níveis de formação escolar mais baixos que se julgam abandonados pelo sistema, que receiam a concorrência dos imigrantes no mercado de trabalho, que descreem da democracia e dos políticos frequentemente associados à corrupção". 

Macron mantém os mesmos apoios de há cinco anos. "Agrupou em torno de si os sectores mais moderados do PS, assim como o centro-direita, que antes, engrossava as fileiras do Partido Republicano. Foi essa a base social de apoio que em 2017 lhe permitiu ganhar as presidenciais com 66% dos sufrágios expressos."

Na ótica de José Rebelo, o atual Presidente de França "prometeu dar corpo a uma nova política económica de cariz liberal sem pôr em causa preocupações de natureza social" e, por isso mesmo, foi ganhando "particular apoio junto das classes média e alta, profissões liberais, funcionários públicos". 

As personalidades também são opostas mas nem por isso se atraem. A candidata do agora Reagrupamento Nacional é, na opinião do especialista, "arrebatada, impulsiva e vibrante nos comícios". Costuma utilizar um "discurso fácil e direto através do recurso a uma linguagem que se confunde com a dos seus apoiantes". 

Já o candidato do Em Marcha "é mais calmo, mais frio, menos adepto das concentrações de massa" e "investe num discurso mais elaborado, mais técnico". Enquanto antigo banqueiro do grupo Rotchild, Macron "procura apresentar-se como o único capaz de dar novo rumo, de prosperidade e progresso à sociedade francesa". 

Helena Ferro Gouveia, analista de assuntos internacionais, refere que o Presidente francês é conhecido por uma "vida feita de decisões que causaram perplexidade entre quem o rodeava, tanto a nível pessoal como profissional". Por isso, "o mínimo que se pode dizer é que é audaz".

"Macron é apresentado pelos biógrafos como um homem com poucos amigos, maquiavélico, obstinado e com uma autoconfiança inabalável nas suas capacidades". Ainda assim, tem uma "personalidade carismática e um perfil intelectual".

Quais são as fragilidades de um e de outro?

Le Pen tentou afastar a ligação que o seu partido tem com a Rússia, mas falhou em pelo menos um aspeto: fazer esquecer que foi financiado por capitais russos. Esta é uma das suas fragilidades, mas há outras.

"Marine Le Pen continua, para largos sectores da população francesa, ligada à extrema-direita apesar dos esforços que desenvolveu para branquear a sua imagem: contrariou publicamente as declarações do seu pai para quem os campos de concentração nazis nunca tinham existido; mudou o nome do partido de Frente Nacional para Reagrupamento Nacional; alargou o seu campo de recrutamento e militância; moderou a linguagem", lista José Rebelo. 

Na mesma linha que Henrique Burnay, também o professor do ISCTE defende que Le Pen beneficiou com o aparecimento de um candidato ainda mais à direita - Éric Zemmour, o homem que disse que França precisava de um Putin.

"É Zemmour que se encarrega do discurso mais violento contra os imigrantes, contra o terrorismo árabe, permitindo assim a Marine Le Pen, concentrar-se em questões que estão atualmente à cabeça das preocupações da maioria dos franceses, tais como a descida do poder de compra, o ambiente, a saúde e a segurança social". 

Um dos problemas de Macron foram as promessas que fez ao longo dos últimos cinco anos e não cumpriu, nomeadamente nos desígnios do progresso e da justiça social. "Pelo contrário: aboliu o imposto de solidariedade sobre as fortunas (ISF); promoveu uma reforma do código do trabalho num sentido claramente favorável à classe empresarial; anunciou, no caso de ser eleito, a intenção de passar de 62 para 65 anos a idade da reforma e a obrigação de os beneficiários do Rendimento Social de Inserção trabalharem pelo menos 15 horas por semana", explica José Rebelo.

Se "o Presidente dos ricos", como foi apelidado, for reeleito, como apontam as sondagens, o especialista encara isso como "a vontade de uma maioria do eleitorado de evitar extremismos". 

Que temas geraram mais divisão entre o eleitorado e que podem ter sido decisivos? 

Os dois temas que concentraram as atenções de toda a campanha eleitoral foram a pandemia e a Ucrânia. "A pandemia e a invasão preencheram a maior parte dos tempos radiofónicos e televisivos, a maior parte dos espaços dos jornais e revistas", explica José Rebelo. Para Helena Ferro Gouveia existiram ainda outros dois temas polémicos: a imigração e a segurança interna. 

No entanto, como nesta campanha não existiram muitos debates eleitorais - nem comícios nem distribuição de panfletos ou colagem de cartazes -, há quem preveja uma abstenção elevada. 

"Teme-se que a abstenção atinja níveis record em eleições presidenciais, tradicionalmente aquelas que suscitam maior mobilização em França", e por isso, defende José Rebelo, a vitória de um ou outro candidato "explicar-se-á mais por convicções e hábitos do que por adesão a determinado programa político".

A partir do momento em que Olaf Scholz sucedeu a Angela Merkel, Emmanuel Macron tem assumido um maior destaque dentro da Europa. "Não há dúvida de que Macron procurou suceder a Merkel como líder de uma Europa mais forte e mais unida. Esse papel, na vanguarda da defesa dos valores europeus, permitiria à França, segundo Macron, recuperar o seu prestígio à escala internacional e recolocar-se no centro das decisões", aponta José Rebelo. No entanto, ressalva que "Merkel deixou a chancelaria há menos de um ano" - "não deixou tempo a Macron para provar a exequibilidade do seu projeto". 

A guerra tem beneficiado Le Pen ou Macron?

Henrique Burnay classifica como "surpreendente" a forma como Le Pen "conseguiu sacudir a perceção real da ligação à Rússia e a Putin". E, paradoxalmente, a candidata tem saído mais beneficiada. 

De acordo com José Rebelo, numa primeira fase da guerra "as intervenções de Macron deram nas vistas, como se ele fosse o dirigente europeu de mais fácil acesso a Putin e que mais facilmente poderia convencer este a recuar nas suas intenções relativamente à Ucrânia". Mas essa perceção foi caindo por terra com o sucessivos telefonemas entre os dois líderes e sem resultados que fossem positivos ou visíveis. "Pouco a pouco, Macron foi aparecendo, aos olhos de grande parte da opinião pública, como alguém afinal sem poder no contexto internacional, que não conta para nada."

Marina Le Pen, à direita, e Jean-Luc Mélenchon, à esquerda, conseguiram com os seus discursos de elogio à coragem do povo ucraniano reforçar "o sentimento de soberanismo". 

Helena Ferro Gouveia defende que a guerra "veio confirmar a clivagem entre os franceses que acreditam no seu destino europeu e os que acreditam numa França nacionalista".

Como é que poderia ser a França com um e com outro?

Apesar de Marine Le Pen se apresentar nestas eleições numa "versão descafeinada", expressão utilizada por Henrique Burnay, caso fosse eleita presidente de França, "estaríamos perante um problema enorme" porque significaria que o "segundo principal país da União Europeia, em termos de peso, de economia, a única potência nuclear, seria governado por uma mulher que vem da extrema-direita". "As suas proximidades são com Moscovo, não são com Washington. São o oposto de tudo aquilo que é o Ocidente porque os seus amigos são Salvini e Orbán, não são os dirigente moderados do centro da Europa. Por isso, eu diria que se tivéssemos uma eleição de Le Pen seria tão transformador e preocupante quanto a guerra na Ucrânia. Não com a mesma violência, como é evidente, mas em termos de transformação da Europa." 

José Rebelo também acredita que a diferença "mais significativa estaria na posição da França relativamente à Europa" porque Macron é um "europeísta convicto" e Le Pen é "hipercética quanto à existência de uma Europa unida". 

Os primeiros votantes, essa incógnita

Na opinião de Henrique Burnay, o círculo eleitoral francês "é uma espécie de aflição seguida de alívio". Isto porque os franceses têm sempre a sensação de que a extrema-direita está à porta do Palácio do Eliseu, pronta para entrar, mas depois isso não acontece. "De ciclo em ciclo, a extrema-direita cresce. E, desta vez, se somarmos esses dois candidatos, Le Pen e Zemmour, provavelmente têm um resultado bastante impressionante e incomodativo. Mas depois, como há uma segunda volta, isto resolve-se e tende a achar-se que o problema está ultrapassado, pelo menos provisoriamente. Mas a verdade é que se vai agravando". 

Perante as sondagens que têm saído - e que dão um mau resultado aos republicanos -, o especialista levanta uma questão: para onde está a ir a direita francesa? Estará a fugir para a extrema-direita? Está a começar a fazer parte do eleitorado de Macron? Estará a extrema-direita a ir buscar votos à esquerda? São muitas as hipóteses.

José Rebelo antecipa "uma vitória difícil de Macron": se vencer é porque "beneficiou do voto útil de todos os que receiam que França caia nos braços da direita radical". Por isso mesmo, recorda "o voto útil que em 2002 deu a vitória ao conservador Jacqes Chirac contra o extremista Jean-Marie Le Pen". 

Além disso, relembra o antigo correspondente do Le Monde, "não se sabe qual o voto dos 856.000 franceses, na maioria jovens, que votam pela primeira vez". Um fator que pode ser decisivo. 

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