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As eleições de hoje, os eleitores de ontem, a política de amanhã - uma antevisão das intercalares americanas

8 nov, 22:29
Bandeira americana

Independentemente do resultado que sair das eleições intercalares americanas desta madrugada, a vida de Joe Biden será diferente no dia de amanhã. Se o mais provável acontecer ‒ a tomada do Capitólio pelos republicanos, desta vez pelas urnas ‒, Donald Trump estará a um curto passo da recandidatura e Biden submerso no lume brando das presidências minoritárias. Por cada ato executivo que assinar a partir daí, fugindo ao escrutínio dos contrapesos, desgastará as chances de ganhar um segundo mandato em 2024. Se o menos expectável suceder ‒ e os democratas agarrarem, pelo menos, o Senado ‒, os negacionistas eleitorais enfrentarão o cómico cenário de reconhecerem os seus próprios resultados no congresso, mas não os da câmara alta. Se um milagre se materializar ‒ e o partido de Joe Biden segurar as curtas maiorias que detém entre congressistas e senadores ‒, o país arderá com metade do sistema político a questionar a sua validade.

Nenhuma das hipóteses é exatamente um bálsamo.

Old habits die hard

Se a vitória republicana se confirmar, devemos olhar para a realidade dos Estados Unidos da América como uma antecâmara do que ocorrerá nas demais sociedades livres.

O fator político conquistou uma prevalência na ordem de prioridades dos nossos decisores, mas essa dinâmica não contagiou os seus eleitorados. Dito de forma mais simples: Biden politizou toda a sua mensagem em torno da defesa da democracia, da santidade dos resultados eleitorais, dos valores americanos no mundo, da ajuda à Ucrânia contra o urso russo, da luta pelos direitos reprodutivos, mas os votantes norte-americanos privilegiaram o fator económico nas intenções de voto averiguadas até esta terça-feira.

Os líderes, por todo o mundo, estão mais políticos. Mas num cenário de inflação elevada, perda de poder de compra e aumento do custa de vida, é a economia quem assina mais cruzes nos boletins de voto. A política subiu na hierarquia decisional de quem manda, mas a economia não desceu do topo de preocupações de quem vota.

Old habits die hard. Se quem governa começa a adaptar-se ao fim da conjuntura de juros baixos e estabilidade internacional do pós-Guerra Fria, os eleitorados irão às urnas antes de se acostumarem ao novo paradigma.

É isso que se passa nestas intercalares: são as eleições de hoje, com os eleitores de ontem e a política de amanhã.

É essa encruzilhada que os democratas ‒ e Biden em concreto ‒ enfrentam. E é essa encruzilhada que reencontraremos na Europa mais cedo do que tarde. As bandeiras dos incumbentes são tão incontornáveis quanto as dificuldades dos eleitores ‒ mas não coincidem.

O terrível paradoxo que assombra a república constitucional mais antiga do planeta é simples: em democracia, a democracia não chega.

Biden sabe-o e tentou compensá-lo com o programa de alívio da dívida para estudantes, mas não deve ser suficiente. Mesmo a sua ambiciosa agenda legislativa, com a aprovação do maior pacote dedicado a alterações climáticas desde que se fala delas, não terá efeitos no dia-a-dia dos americanos no curto-prazo. A transição energética para a clean-tech industry ganhou incentivos importantes, mas indiferentes à ida às urnas de hoje.

É a outra terrível sina da administração Biden: sucesso legislativo, mesmo em democracia, não significa necessariamente sucesso político.

Para os americanos, donos de uma cultura de descentralização de poder bicentenária, escolher o partido que está na oposição à Casa Branca nas intercalares é senso comum. Olhando para trás, é esse instinto democrático que justifica que todos os presidentes menos W. Bush tenham sofrido derrotas nas primeiras midterms desde a Segunda Guerra. E talvez seja esse o terceiro ‒ e mais perigoso ‒ paradoxo destas eleições.

A tradição eleitoral americana ‒ distribuir as instituições pelos dois grandes partidos ‒ arrisca entregar o futuro da sua democracia a um partido que já não acredita nela.

Old habits die hard.

But they die, too.  

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