A primeira autarquia na história do Chega tem uma medida exata: 78,8 km². Mas Ventura deu a São Vicente uma dimensão nacional
André Ventura não está na sede quando, pelas oito da noite, saem as primeiras projeções.
Nunca está. Desde que saiu do PSD e fundou o seu partido, cumpre o mesmo ritual: àquela hora, missa na Igreja de São Nicolau, em Lisboa. Só depois, já perto das nove — quarto de hora para cá, quarto de hora para lá; com Ventura os horários são estimativas em campanha —, aparece no hotel-quartel, o Marriott, em Lisboa. Faz a primeira declaração. Diz que é cedo, que é preciso esperar pela noite. Não embandeira, mas canta vitória. Ou reduz o ganho dos outros e canta vitória à mesma.
Hoje não fugiu ao guião, fala de terceiros (como de João Ferreira em Lisboa, que "nem pensar" ficará à frente de Bruno Mascarenhas) para falar de vitória. Mas “terceiros” descreve bem as projeções do Chega nas duas autarquias em que mais apostou: Faro e Sintra.
Foi aí que pôs os nomes mais conhecidos depois do líder: Pedro Pinto, no Algarve, e Rita Matias, na Grande Lisboa. Ficaram longe dos socialistas e dos sociais-democratas. Cresce o Chega face a 2021, é verdade. Mas em 2021 estava abaixo de 10% nas duas — e em Faro, quase abaixo de 5%. Crescer é normal para quem lidera a oposição no Assembleia da República. Mas crescer o que cresceu (a fazer fé nas projeções, Matias andará pelos 19% e Pedro Pinto pelos 14) é pouco, talvez seja, para quem pretendia sair triunfal de Sintra e de Faro e para quem já apresentou até um governo-sombra e quer fazer de Ventura primeiro-ministro.
À chegada ao Marriott, o líder disse: “O Chega torna-se hoje um partido de vitórias autárquicas.” Era cedo para dizê-lo. Não havia ainda qualquer câmara confirmada. Mas insistiu: “Falei agora com o presidente regional da Madeira, que me confirmou a vitória na Câmara Municipal de São Vicente.” Foi “inesperado”, disse. “Um partido com seis anos hoje vence câmaras e vai liderar câmaras.” E prometeu mais: vitórias nos distritos de Setúbal e Santarém “ao longo da noite”. Uma "grande implantação" e uma "nova responsabilidade", prometeu também Ventura. Mas, dito e redito, um nome sobressaiu: São Vicente.
A noite tratou do resto. Antes das 22 horas, o Ministério da Administração Interna confirmou: o Chega conquista São Vicente — a primeira câmara da história do Chega —, com maioria absoluta, com três mandatos em cinco. José Carlos Gonçalves será presidente. Votação final: 49,23%. É sempre histórico quando é a primeira vez. Ainda mais quando há quatro anos o partido nem concorreu. Ganha peso. Ganha narrativa. Mas terá o peso que Ventura quer dar na narrativa? Vejamos o município de São Vicente, com os números que tantas vezes são bandeira do Chega: a “subsidiodependência”, a criminalidade. Mas não só isso.
São Vicente é pequeno e encaixado entre mar e montanha: 78,8 quilómetros quadrados. Vivia aqui gente contada: 5.123 residentes a 31 de dezembro de 2024 (eram 4.972 em 2023). É um concelho em que 27,6% das pessoas têm 65 anos ou mais e o índice de dependência total fica nos 60,3. No lado social, a “subsidiodependência” — expressão de Ventura — não tem disparado: em 2022 havia 94 beneficiários de Rendimento Social de Inserção, perto de 1,9% da população. No mesmo ano, 104 pessoas recebiam subsídio de desemprego.
No trabalho, manda o setor dos serviços: a fotografia dos Censos 2021 mostra a maioria da população empregada no terciário, com construção e alojamento-restauração a puxar no secundário — e uma fatia muito pequena na agricultura. Os rendimentos do trabalho ficam abaixo da média regional: em 2023, o ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem rondou os mil euros (1.043,69 para ser mais concreto e preciso).
Na segurança, o registo é baixo e estável: em 2022 somaram-se 116 crimes — cerca de 24 por mil habitantes —, o último ano com leitura municipal completa e comparável. Por tipos, o concelho tem ocorrências dispersas nas categorias usuais: violência doméstica, furtos (em residência, em edifício comercial ou industrial, em veículo) e roubos na via pública — mas sem concentrações anómalas que o distingam do padrão regional.
Retrato simples: pouca gente e muitos idosos. Economia de serviços, salários contidos. Proteção social presente mas longe de números extremos. E criminalidade baixa. É neste município que o Chega conquista a primeira câmara da sua história.