Num momento em que os partidos afinam discursos, slogans e promessas para captar o eleitorado nas eleições legislativas de maio, é imperativo reconhecer uma realidade pela sua gravidade e transversalidade: a fragilidade financeira que afeta de forma crescente os agregados familiares portugueses.
Atualmente, as famílias enfrentam uma pressão constante e avassaladora. Um número crescente de portugueses vê-se obrigado a fazer escolhas impossíveis: entre pagar a renda ou o cabaz alimentar, entre saldar as dívidas com o banco ou garantir um tratamento de saúde.
O que anteriormente constituía uma exceção, tornou-se regra: recorrer a poupanças esgotadas ou contrair dívidas para fazer face a despesas correntes. Esta situação não decorre de uma gestão negligente, mas sim de um sistema que se tornou insustentável.
A escalada dos preços, sobretudo nos bens essenciais, somada à estagnação dos rendimentos e à subida das taxas de juro, tem vindo a degradar progressivamente o quotidiano económico das famílias.
Mesmo em períodos de recuperação tímida, esta é frequentemente neutralizada pela inflação ou pelo encarecimento do crédito. Para muitos, viver acima das suas possibilidades deixou de ser um capricho, tornando-se uma inevitabilidade silenciosa imposta por um modelo económico que deixou de proteger os mais desfavorecidos.
O impacto desta erosão prolongada é visível na queda da confiança dos consumidores. A perceção da economia, tanto na vertente coletiva como individual, passou a ser dominada pelo ceticismo. Quando a confiança desaparece, não é apenas a economia que sofre, mas também o contrato social começa a ceder.
Mais grave ainda é a forma como esta crise se distribui. A recuperação, quando ocorre, é desigual. Concentra-se nas faixas de rendimento mais elevadas, enquanto a base da sociedade enfrenta um ciclo de empobrecimento que deixou de ser conjuntural para se instalar como uma nova normalidade.
A economia pode crescer em termos agregados, contudo, esse crescimento é cada vez menos sentido pela maioria. Quando a prosperidade é percecionada como seletiva, instala-se o ressentimento, o afastamento da política e o colapso da confiança nas instituições.
É legítimo questionar: por que razão a realidade concreta das famílias não ocupa o centro da agenda política? A reforma do sistema eleitoral, a transparência nas nomeações, a transição verde e o posicionamento europeu são, de facto, temas relevantes. No entanto, nenhum destes assuntos responde, com a urgência necessária, à pergunta que se ouve diariamente: como se vive quando o trabalho já não é suficiente?
A confiança no futuro — e com ela, a estabilidade da democracia — começa pela segurança económica. Só quando as famílias tiverem margem para respirar, planear, poupar e investir, será possível restabelecer uma relação saudável com a política. Em caso contrário, o desencanto é fomentado, a radicalização é incentivada e os alicerces do sistema democrático são enfraquecidos.
Não bastam paliativos.
É necessário um plano económico claro, com ambição e coragem, para responder de forma estrutural às questões colocadas. É imperativo valorizar os salários e aliviar a carga fiscal sobre os trabalhadores. É igualmente vital aliviar a carga fiscal sobre as empresas, em especial no IRC, para que estas tenham condições de pagar melhores salários e garantir emprego. O cenário atual, caracterizado por aumentos sucessivos do salário mínimo sem a devida redução dos custos fiscais das empresas, gera uma pressão significativa sobre os resultados dos negócios.
Este é um desafio de grandes proporções, especialmente porque as pequenas e médias empresas (PME) representam mais de 90% do tecido empresarial português. Estas empresas são responsáveis pela criação da maioria dos postos de trabalho e, por conseguinte, necessitam de apoio efetivo para não serem afetadas negativamente pelo aumento dos custos com pessoal. É imperativo que sejam implementados mecanismos que equilibrem este esforço, seja através de incentivos fiscais ou de políticas de apoio claras, a fim de evitar um aumento drástico do desemprego.
O aumento dos salários, inevitável nos próximos anos, requer uma resposta substancial: políticas fiscais e económicas capazes de sustentar esse acréscimo de forma sustentável, garantindo a dignidade dos trabalhadores e a competitividade das empresas.
Portugal encontra-se perante um momento decisivo.
O tema que deveria unir partidos e cidadãos é, precisamente, o da garantia de que quem trabalha possa viver com estabilidade, segurança e esperança. Nenhuma recuperação será verdadeira se deixar para trás a maioria, e é imperativo que se promovam empresas saudáveis, de modo a criar empregos e a inverter esta realidade que oprime as famílias.