opinião
Investigador universitário doutorado. Estuda a crise da democracia liberal, com foco nas guerras culturais, polarização e impactos nos direitos fundamentais

As presidenciais e o skate sem rampa

10 fev, 12:01

Estas eleições presidenciais podem ser lidas mais com base em derrotas do que na vitória de António José Seguro, sem tirar uma vírgula ao mérito do candidato independente.

Comecemos pelo derrotado menos evidente: o Partido Socialista (PS). Fica para memória futura que a máquina do PS só apareceu nestas eleições quando se começou a tornar claro que António José Seguro poderia passar à segunda volta e, com isso, vencer as eleições presidenciais. Não foi um salto de confiança política, não foi uma adesão ao espírito independente do candidato, ao seu centrismo político, à sua personalidade contida e moderada; foi um mero cálculo estratégico de um partido que, não tendo um candidato escolhido internamente, se viu forçado a chegar-se para a fotografia de família, reconhecendo que era pior não aparecer do que estar no retrato ao lado do primo de que não se gosta. 

Uma avaliação racional revela, contudo, que tal circunstância é uma vantagem ou, ao menos, um incentivo para o partido de Mário Soares abrir as janelas e deixar entrar o ar da mudança. Como revelam os estudos sobre (des)confiança democrática, quanto mais um partido é percebido como hierárquico, de castas e oligárquico, mais rapidamente se degrada a confiança entre eleitores e eleitos. Foi precisamente nesse lodo que o PS se deixou cair – uma máquina oleada de carreiras na função pública e uma fábrica de políticos num quadro de endogamia partidária. Foi esse PS que saiu derrotado.

É, todavia, André Ventura, o grande derrotado da noite. Não obstante a retórica sobre liderança da direita portuguesa, a verdade é que o líder do Chega não cresceu mais do que 300 mil votos face às eleições legislativas de 2025, o que significa que segurou o seu eleitorado e conseguiu algum voto que não queria um rosto da esquerda e/ou da área socialista, e algumas gramas eleitorais vindas dos que estavam ansiosos por sair do armário político em direção à designada por “direita radical populista”. 

A grande lição destas eleições é que apostar toda uma gramática política no ressentimento é como andar de skate sem saber se, no fim da pista, há rampa: arranca depressa, mas, sem frustração económica e social suficiente (ainda que fabricada), a rampa é apenas o fim da estrada. 
 

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