Seguro vs. Ventura. Os apoios e os silêncios de quem ficou pelo caminho podem ditar resultado da segunda volta

19 jan, 08:00
António José Seguro e André Ventura (Rui Valido)

Marques Mendes e o PSD, ao não apontarem o centro político como o caminho para a segunda volta das presidenciais, poderão ter transformado a distribuição de votos num verdadeiro enigma. Para os politólogos, e para os partidos à esquerda que levantaram o tabu do endosso, é isto que está em causa: a prioridade é derrubar Ventura, não o “validar” como um potencial primeiro-ministro, cargo que é a sua grande ambição

Nunca é uma decisão fácil assumir o apoio a um antigo rival numa eleição presidencial, começam por explicar os politólogos ouvidos pela CNN Portugal. Em 1986, lembra Paula do Espírito Santo, na única vez que Portugal tinha tido esse cenário antes deste histórico domingo, houve “apoios reticentes, sem grande convicção”.

Agora, há um desafio adicional: assumir o apoio a André Ventura é reconhecer um candidato que se move fora das normas, um “antissistema”, “antidemocrático”, que “desvaloriza a atual Constituição”, dizem Paula do Espírito Santo, Bruno Ferreira Costa e João Pacheco.

Este último analista acrescenta: apoiar Ventura “abre a porta à sua validação enquanto primeiro-ministro”. Ou seja, se serve para Presidente da República, também serviria para primeiro-ministro, “o cargo desejado por Ventura”. E daí que, na opinião deste académico, seria mais expectável que os apoios dos candidatos que ficaram pelo caminho e dos partidos que os apoiavam se reorientassem para Seguro.

Não fosse esta pergunta: pode a direita orientar-se para o centro-esquerda de Seguro, deixando órfão um espaço político que Ventura quer “agregar”, mesmo estando no extremo dessa mesma direita?

O jogo de apoios – e, sobretudo, de silêncios – deste domingo deixa claro o nível de reticências antevisto pelos politólogos.

"'Ninguém é dono de ninguém'. A frase é de Gouveia e Melo e resume a não declaração de vários derrotados. A verdade é que um apoio deve ser decidido a frio, com calma e não em reações emocionais. Seguro parte favorito para a segunda volta, mas Ventura já ganhou o que queria: causou embaraços ao PSD e ganha espaço na direita", reage Rui Calafate, comentador da CNN Portugal, especialista em comunicação política.

Marques Mendes e o PSD: divisões internas

A começar por Luís Marques Mendes. “Não vou fazer o endosso dos votos que me foram hoje confiados. Tenho a minha opinião pessoal, mas enquanto candidato, que é a única posição que tenho aqui hoje, não sou dono dos votos que em mim foram depositados”, afirmou o candidato apoiado pelo PSD, a quem os politólogos vincam a ligação a um “perfil mais ao centro, moderado” cultivado também por Seguro.

“A referência à opinião pessoal, uma referência a Seguro, foi tão excessivamente subtil que não chega a ser percebida. Sobretudo quando Luís Montenegro vem a seguir e deixar tudo em aberto. Montenegro deixou a direita moderada em desânimo. Quer fragilizar mais o PS do que o Chega”, reage o politólogo João Pacheco.

"Não emitiremos nenhuma indicação, nem é suposto fazê-lo", afirmou o primeiro-ministro quando questionado sobre eventuais apoios na segunda volta.

E daí que, daqui em frente, se possam vincar ruturas no próprio PSD, apontam os analistas. Haverá militantes que, considerando que está em causa uma batalha entre a moderação e os extremismos em Belém, poderão alinhar por Seguro. Foi o que fez, por exemplo, Miguel Poiares Maduro, considerando que o candidato apoiado pelo PS seria “mais importante” e melhor para o PSD do que André Ventura. Ou Santana Lopes, que já tinha admitido que o cargo faria “bem entregue” a Seguro.

Marques Mendes tem uma "opinião pessoal", que reencaminha para Seguro, mas não assumiu posição (Miguel A. Lopes/Lusa)

Gouveia e Melo: a dúvida desfeita a seu tempo

Gouveia e Melo não desfez o tabu. Por agora. “Este é um momento ainda muito precoce para manifestar qualquer opinião a esse respeito”, “vou reservar isso para outro momento mais tarde”, “não disse que não ia tomar posição, só disse que era prematuro para tomar posição”, foi repetindo no discurso onde assumiu a derrota.

Contudo, os politólogos antecipam que o apoio venha a recair sobre Seguro. O almirante, diz Bruno Ferreira Costa, pode usar o argumento de que Seguro “embora apoiado por um partido, esteve 10 anos fora das lides partidárias”, alimentando a própria narrativa de que Belém precisa de alguém que ultrapasse todos os partidos. Há a urgência de “despartidarizar a Presidência da República”, vincou o candidato no seu discurso.

Além disso, junta o politólogo, “não quer ficar associado a um Ventura derrotado”. Recorde-se que Ventura procurou aproximações com o almirante, antes de assumir a própria candidatura, que não deram frutos. Haverá por isso, insistem os politólogos, “diferenças difíceis de ultrapassar”.

Posição de Gouveia e Melo poderá ser decisiva (José Sena Goulão/Lusa)

Cotrim e a “péssima escolha” que há para fazer

Quem também não desfez o tabu foi Cotrim de Figueiredo. Na campanha, vincava a importância de não votar num socialista para Belém. João Pacheco lembra que, num cenário de apoio a Seguro, o liberal poderia ser “acusado por Ventura e pelo Chega de fazer a direita cair em Belém”. Contudo, segundo os politólogos, apoiar Ventura poderia contribuir para “eliminar as diferenças” em relação ao Chega que os liberais tanto têm procurado cultivar.

Cotrim descreveu-a como “uma péssima escolha” que se coloca ao país. E colocou a mira em Luís Montenegro “pelo erro estratégico”. “Apesar das evidências, do apelo que lhe fiz, não pôs o interesse do país à frente do interesse do seu próprio partido”, atirou. E concluiu: “Montenegro não esteve à altura do legado de Sá Carneiro”.

Sem apoios a ninguém, de uma forma deliberada, Cotrim passa o jogo para os eleitores: votaram livremente na primeira volta, “deverão fazê-lo livremente na segunda volta”.

Os politólogos ouvidos pela CNN Portugal antecipavam que os liberais, para vincar diferenças face ao "extremismo" de Ventura, pudessem sair em defesa de Seguro. Há quem vá seguir esse caminho, a começar pelo mandatário nacional de Cotrim, José Manuel Júdice.

João Cotrim de Figueiredo atirou culpas a Montenegro (António Pedro Santos/Lusa)

A esquerda junta, contra Ventura

Para os politólogos, claro era o apoio dos partidos à esquerda do PS a António José Seguro. Paula do Espírito Santo acredita que “os partidos podem ganhar com essa recomendação” do voto em Seguro.

Foi o que se foi verificando ao longo da noite deste domingo. Primeiro, com Jorge Pinto e o Livre: “Irei votar em António José Seguro na segunda volta, votar e apelar a que o meu partido faça a mesma coisa, porque ao que tudo indica teremos duas escolhas pela frente: alguém que se revê na Constituição e alguém que se opõe e a quer alterar drasticamente,” anunciou.

Depois Catarina Martins e o Bloco de Esquerda: “Já felicitei António José Seguro pelo seu resultado e disse-lhe que contará com o meu voto na segunda volta contra André Ventura”.

Por fim, António Filipe e a liderança do PCP: “O apelo ao voto no candidato António José Seguro não significa um apoio ao candidato António José Seguro e àquilo que ele defendeu enquanto candidato e o que tem defendido ao longo da sua atividade política, mas significa a vontade imperiosa de derrotar o candidato André Ventura e é isso que estará, fundamentalmente, em causa nestas eleições”, resumiu.

“Esta é uma opção que exige de forma clara e evidente o voto contra a candidatura de André Ventura e que conduz o voto em António José Seguro”, corroborou o secretário-geral Paulo Raimundo.

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