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Jornalista

Os indecisos vão decidir a 1.ª volta das Presidenciais?

5 jan, 17:42

Na maioria das sondagens sobre as eleições Presidenciais conhecidas nos últimos meses há um dado que é especialmente importante e muitas vezes descurado nas análises políticas. Não se trata do folclore associado às perguntas/respostas sobre com que políticos gostaríamos de almoçar ou quem preferíamos se tivéssemos de lhes comprar um carro em segunda mão. E também não é se há candidatos que agradam ou conquistam certas elites partidárias ou ideológicas. Ou se alguém parece vir a beneficiar mais do voto útil, algo que foi trazido para a ribalta mediática no primeiro dia da campanha eleitoral.

Claro que tudo isto é importante, mas o que verdadeiramente pode contar nas próximas Presidenciais é, mais uma vez, a fatia gigante de eleitores – há sondagens com mais de 30% – que não sabe ou não diz em quem irá votar. O grande enigma é este grupo heterogéneo de indecisos e daqueles que escondem as preferências nos questionários telefónicos com amostras normalmente reduzidas de menos de mil pessoas. Em alguns casos, diga-se em abono da verdade, amostras já de si desequilibradas em termos de sexo, grupo etário e local onde residem e votam.

Se se juntar a isto, os abstencionistas não crónicos, as margens de erro das sondagens que chegam aos 7% e um alegado equilíbrio de preferências dos votantes por quatro ou cinco candidatos, facilmente se percebe que o resultado eleitoral da primeira volta destas Presidenciais é simplesmente imprevisível. O investigador Marco Lisi publicou em 2010 um dos primeiros estudos em Portugal sobre o comportamento dos indecisos em eleições. Tal como já se fazia há décadas em outros países, a ideia foi tentar perceber um pouco mais a volatilidade eleitoral, entender os seus mecanismos e tempos, pois há muito se sabe que um em cada quatro eleitores decide em quem votar no mês anterior às eleições.

E também que há fatias muito relevantes de eleitorado - podem chegar aos 15% - que decidem a escolha no próprio dia do voto. Por isso, é normal que este tipo de eleitores seja mais influenciado por elementos conjunturais que dependem das características das campanhas e dos episódios de curto prazo transportados pela forte cobertura dos media tradicionais (sobretudo a televisão) e cada vez mais pelas redes sociais. Depois dos debates que parecem ter deixado tudo mais ou menos na mesma, a campanha está aí e veremos se é decisiva para chegar aos indecisos numa eleição que tem contado com níveis de abstenção bastante elevados.

Em plena campanha eleitoral os erros podem ser fatais, porque o candidato é em exclusivo o princípio e o fim de tudo. Todos os olhos ficam ainda mais centrados nele, não há agentes secundários de recuo (como nas legislativas) a quem se pode culpar pelas eventuais falhas. E também não são necessários cientistas políticos para sabermos que a decisão de voto não é necessariamente ideológica ou de ligação militante a um partido. Há quem insista em dizer-nos que tem contado sempre como se cativam os votos do centrão, mas na primeira volta destas Presidenciais isto pode contar bem menos do que habitualmente.

O que se sabe há muito em política, e sobretudo em eleições, é que cada vez mais se vota no A, no B ou no C por causa de algo importante (e pode ser apenas um pormenor) num momento social muito específico, que se mistura não se sabe muito bem com uma ideia agregadora de liderança e carisma (construído ou inato), ou seja, com aquilo que é (ou parece ser) o candidato em comparação com os seus concorrentes. Votar neste ou naquele resulta sempre de uma complexa soma ou subtração de pequenos fios, quase invisíveis, que fazem uma teia que mistura racionalidade e emoção. Não raras vezes, o que desequilibra pode ser até um ato de protesto, e isso não poder ser nunca ignorado, porque a revolta pode unir mais do que as batidas promessas ou os desígnios apregoados como nacionais.

As eleições parecem ser um jogo simples, mas são tudo menos isso porque as escolhas e o resultado assentam em nuances muitas vezes imprevisíveis. O que dizer das penúltimas legislativas que deram de forma totalmente inesperada a maioria absoluta ao PS? E do desbaratar governativo que se seguiu à vista de todos e conduziu a novos atores políticos, e especialmente a um que os comentadores insistiam há anos que não tinha chama nem carisma? Mas que depois venceu duas eleições.

Em democracia, o melhor de tudo é mesmo esta (im)previsibilidade, é saber que o voto conta para manter ou mudar, correr com uns, trazer outros novos ou simplesmente recuperar alguém que já vimos em outros filmes. Desengane-se quem acha que só se vota em soluções só porque vêm de partidos ou fora deles. Votar é mudar, retomar ou permanecer, é muitas vezes não distinguir entre o irrealista e o realista, pois nas escolhas eleitorais (e na vida) há sempre um dia em que se opta por saltar sem paraquedas. A imponderabilidade é aquilo que mexe com o status quo, sobretudo se a vontade se tornar cada vez mais coletiva. Temos visto isso em recentes eleições por esse mundo fora e também em Portugal. E quem acreditaria neste cenário há uns anos? Daqui a duas semanas, termina a primeira parte deste jogo.

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