Estão perdidas as eleições presidenciais para André Ventura, mas o presidente do Chega não sai delas "derrotado em si mesmo". Agora é tempo de voltar ao seu "palco principal", podendo fazer pairar no ar o fantasma de novas eleições antecipadas
André Ventura perdeu a segunda volta das eleições presidenciais e isso é factual, mas há um número a pairar no Chega. Os 33,18%, aliados à eleição em que conseguiu mais votos desde que fundou o partido, deixam o homem que diz ser o novo líder da direita na expectativa de poder tentar uma nova rutura do sistema.
“Nestas eleições, pelo menos 300 mil pessoas terão votado pela primeira vez em André Ventura”, adianta Bruno Ferreira Costa, lembrando que este aumento coincide com a trajetória ascendente do Chega, desde que foi criado a 9 de abril de 2019.
E era esse um dos objetivos do presidente do Chega, vinca o politólogo. “Este resultado era o patamar que André Ventura tinha em mente para estas eleições. O primeiro objetivo era a segunda volta. O segundo objetivo era ter um valor histórico de votação em si ou no partido, e isso foi conseguido”, esclarece.
Foi precisamente naquele ano, 2019, que André Ventura se estreou na Assembleia da República, como deputado único do partido, eleito com 1,29% dos votos dos portugueses. A percentagem aumentou para 7,18% nas Legislativas seguintes, em 2022, e a tendência manteve-se nos dois atos eleitorais seguintes. Em 2025, o Chega conseguiu 60 mandatos com 22,76%, o equivalente a 1.437.881 de votos.
Era esse o melhor resultado de sempre de André Ventura até se candidatar a Presidente da República este ano e chegar à segunda volta, já que na primeira até teve menos votos que nessas legislativas de 2025. Mesmo que desqualificado da corrida a Belém, o antigo candidato e presidente do Chega conseguiu neste último domingo 1.729.371 votos (33,18%), um número que contrasta sem margem para dúvidas com o primeiro resultado do candidato em eleições presidenciais, em 2021, quando conseguiu 496.773 votos (11,90%).
O líder do Chega só não atinge, segundo o especialista, o terceiro objetivo: alcançar um número de votos similar ao da Aliança Democrática (AD) em março de 2025, ainda que tenha tido mais percentagem. Mas o resultado atual, diz, “dá margem para André Ventura adotar uma postura mais exigente com o Governo” e eventualmente ir mais longe, pressionando um “cenário de eleições antecipadas”.
“Não me parece viável que, perante estes números, André Ventura decida esperar até 2029 para ir novamente a jogo, tendo em conta que o seu resultado lhe permite colocar em cima da mesa um cenário de eleições antecipadas, talvez já na negociação do Orçamento de Estado para 2027, portanto a partir de setembro ou outubro”, sublinha Bruno Ferreira Costa.
Com maioria relativa no Parlamento, a Aliança Democrática (AD) está dependente de PS ou de Chega para fazer passar as suas leis, incluindo o Orçamento do Estado.
Mas se André Ventura olhar mesmo para a possibilidade de eleições antecipadas, isso não será “de rompante”, até porque, como destaca o especialista em ciência política, o presidente eleito não pode dissolver a Assembleia da República nos primeiros meses, empurrando essa hipótese para o final do período do verão, mas já pode fazê-lo a partir de outubro, quando a proposta de Orçamento do Estado for discutida.
Até lá, o objetivo de Ventura será “desgastar” o Governo, somando as dificuldades de resposta do Executivo de Luís Montenegro em situações de crise, afirma Bruno Ferreira Costa. “Vai somar a questão da saúde, a questão do pacote laboral, a questão das escolas no início de setembro, os eventuais atrasos que podem haver no apoio às vítimas da tempestade, na recuperação de todas as zonas afetadas. São vários os períodos em que pode haver esse desgaste”, reforça.
Quem será o "pai" da crise política?
O também politólogo João Pacheco reconhece que provocar eleições antecipadas pode ser uma “tentação” para André Ventura, mas alerta para uma ideia complexa que pode tornar-se “penalizadora” para o próprio partido.
“Por maior que seja a tentação de abrir uma crise política, para ter uma oportunidade de ir a eleições e de ter mais votos que os partidos que suportam o Governo, a grande dificuldade é não passar a ideia de que são responsáveis pela crise política, de que são o seu pai”, explica, acrescentando que isso “só os penalizaria”.
É por isso que, antes de qualquer tentativa de agitar o status quo político, o líder do Chega fará uma leitura dos episódios que marcam a legislatura deste Governo, para “não ser responsabilizado pelo eleitorado como o grande causador da instabilidade”.
“Veja-se a inaptidão da ministra da Administração Interna para gerir crises, veja-se a questão da Saúde. André Ventura vai ler todos estes sinais e, se sentir que há uma margem de manobra para vencer eleições, eu não duvido de que ele acabará por tentar provocar a queda do Governo”, sublinha Bruno Ferreira Costa.
Sem instabilidade política, económica e social a probabilidade de André Ventura tentar derrubar o Executivo diminui, e o presidente do Chega deverá “resguardar-se”, decidindo não pôr em risco o capital político que detém depois desta segunda volta das Presidenciais.
“[André Ventura] tem neste momento o segundo maior grupo parlamentar, tem poder autárquico com três autarquias e tem a mais-valia de ter sido o candidato a ir à segunda volta com 1.720 milhão de votos nesta segunda volta. Portanto, ele também não quererá desperdiçar este capital político, se verificar que pode correr o risco de perder esta linha de crescimento”, junta Bruno Ferreira Costa.
Ventura perdeu mas "não é um derrotado em si mesmo”
O candidato apoiado pelo Chega perdeu o lugar em Belém para António José Seguro, mas “não é nesta derrota um derrotado em si mesmo”, afirma o politólogo João Pacheco, explicando que a sua candidatura era nada mais nada menos que “um passo no seu caminho para as próximas Legislativas”.
“Ele não era apenas um candidato presidencial e despiu na noite eleitoral esse fato para voltar a vestir um fato que na verdade não despiu por inteiro, o de líder da oposição”.
Depois de se ter autoproclamado também “líder da direita” em Portugal, ambos os especialistas concordam que o título não tem legitimidade, pelo menos não enquanto “[Ventura] não conseguir agregar os mais de três milhões de votos somados da AD, da IL e do Chega”, diz o politólogo Bruno Ferreira Costa.
João Pacheco relembra que “há um espaço muito grande da direita que ele não ocupa” - uma “direita imensa, moderada, que votou para contornar uma direita radical, de protesto”.
Ainda assim, com um resultado recorde em eleições, os números dão agora “força” ao líder do Chega, que “vai mais empoderado para o seu palco principal: o palco parlamentar”.
De resto, o presidente do partido de extrema-direita tentará “transpor os eleitores das Presidenciais para umas próximas Legislativas”, salienta Bruno Ferreira Costa, frisando que André Ventura disputará uma eleição na ordem dos 28% ou 30%, se conseguir fixar o eleitorado em causa. Nesse caso, “poderá ser possível vencer umas eleições num contexto atual com essa percentagem”.