Debate rasgadinho entre o almirante e o social-democrata transpôs-se para uma mesa em que se juntaram apoiantes dos cinco principais candidatos, mas em que só dois aspirantes a ser Presidente da República conseguiram dominar a discussão
Quis o destino que à mesa da CNN Portugal se juntassem quatro militantes ou ex-militantes do PSD numa mesa em que cinco pessoas tentavam defender o seu candidato para as eleições Presidenciais.
A ironia foi trazida por Isaltino Morais, outrora rosto forte dos sociais-democratas - e que até foi apoiado pelo partido nas autárquicas que o reelegeram em Oeiras -, no que serviu de bandeja para um ataque ao colega do lado, Duarte Marques.
Um, Isaltino Morais, a favor de Henrique Gouveia e Melo, o outro, Duarte Marques, por Luís Marques Mendes.
Talvez por ter sido o último debate e um dos mais intensos ou até pela combatividade própria dos dois representantes daquelas candidaturas, o debate promovido pela CNN Portugal, que juntou apoiantes das cinco principais candidaturas, centrou-se quase totalmente naqueles dois candidatos, ambos com hipóteses reais de pensarem na segunda volta e na eleição.
E os apoiantes destes dois candidatos conseguiram, sobretudo pelo levantar da voz entre si, marcar o debate, que foi quase sempre discutido entre a evolução de Gouveia e Melo e a necessidade ou não de Marques Mendes dar mais explicações sobre os seus negócios.
Para Isaltino Morais os debates não foram mais do que uma “luta de galgos” em que a verdadeira avaliação deve ser feita à atitude dos candidatos. O apoiante de Gouveia e Melo viu o almirante a crescer, até porque vinha com a “desvantagem” de “não ter experiência política”.
“O almirante vem de fora do sistema. Os debates com Marques Mendes e André Ventura foram marcantes [para Gouveia e Melo]. Com Marques Mendes apareceu um almirante sem medo, tranquilo, que encurralou Marques Mendes”, atirou o presidente da Câmara Municipal de Oeiras, que foi um dos primeiros a vocalizar o apoio ao antigo líder da Armada.
“O debate serviu para mostrar as duas caras que Marques Mendes tem”, acrescentou, falando numa dicotomia entre a necessidade de apregoar a ética e a opacidade que garante que vai sendo mostrada pelo candidato apoiado pelo PSD.
Para tentar deixar logo de lado as críticas vindas da sua direita em termos de mesa, Duarte Marques fez uma espécie de entrada a pés juntos, para utilizar uma gíria futebolística.
“O Isaltino Morais tem um passado. Marques Mendes afastou-o de candidato e eu, no seu lugar, faria o mesmo”, começou por dizer, recordando quando o então líder do PSD decidiu não apoiar a candidatura à Câmara Municipal de Oeiras, num caso ocorrido há 20 anos.
Para Duarte Marques a opinião de Isaltino Morais não é mais do que “irrelevante”, já que passa apenas por tentar transmitir “ódio” contra um homem que foi seu amigo durante 25 anos. Isaltino Morais viria a refutar essa ideia, defendendo que não tem ódio de ninguém.
Mas as críticas a Isaltino Morais foram apenas um trampolim para o ataque a quem interessa nesta questão, o candidato Gouveia e Melo, que apareceu agressivo no debate ocorrido esta segunda-feira.
Talvez com ironia, mas sem o parecer, Duarte Marques afirmou que acordou “preocupado” depois de ver o debate entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, mas rapidamente lhe passou.
“Não foi um debate agradável para Marques Mendes”, admitiu o seu apoiante, que saiu à rua e acabou por ficar descansado com o que as pessoas lhe disseram.
E isto numa lógica que vai de André Ventura a José Sócrates. O primeiro porque foi dele que Duarte Marques se lembrou ao ver a estratégia de Gouveia e Melo nos debates - “a máscara caiu-lhe, uma pessoa não pode defender-se; o segundo porque sentiu que as pessoas podiam estar a “ver um José Sócrates que não conheciam”.
No meio disto houve ainda tempo para também ver no almirante um quê de Joana Amaral Dias, que esta terça-feira ficou a saber que, afinal, não vai ser candidata a estas eleições. “Não sei se será [o Gouveia e Melo] mais autêntico, mas é o que resulta de mais trabalho da velha política. Fazia-me lembrar a Joana Amaral Dias, a agarrar em coisas da mesa e a lançar”, atirou, para depois dizer que o homem apoiado por Isaltino Morais “não tem sentido de Estado”.
Ataque por ataque, foi então que Isaltino Morais lançou uma alfinetada, já depois de decretar a morte da ética de Marques Mendes, que “vai ser perseguido” para esclarecer tudo até dia 18 de janeiro.
“Estamos aqui quatro PSD ou ex-PSD, três estão contra Marques Mendes. É curioso, andei nas ruas de Oeiras e todos os que me encontravam diziam que ‘agora o almirante mostrou aquilo que vale’”, retorquiu Isaltino Morais.
Perante tamanho bate-boca, os outros apoiantes acabaram por não conseguir fazer valer a sua dama, ainda que tentassem, quase que espelhando até as estratégias de quem apoiam.
Veja-se o caso de Rui Gomes da Silva, apoiante de André Ventura, que optou por desvalorizar as candidaturas de António José Seguro e João Cotrim de Figueiredo, sugerindo que a corrida é mesmo a três.
E para um dos tais presentes que já foram PSD - até foi ministro no governo de Pedro Santana Lopes -, André Ventura é o candidato da diferença que sai de uma “campanha esclarecedora”.
“Acusavam André Ventura de ser muito entusiasta… estamos a ver que é combativo por ideias, os outros é em função de ataques pessoais”, afirmou, sugerindo que haverá sempre uma surpresa sobre um candidato que não vai à segunda volta, e que essa surpresa será André Ventura, Gouveia e Melo ou Marques Mendes.
Os outros, reiterou, representam “surpresas impossíveis” de acontecerem a 18 de janeiro.
Talvez por estar à distância - o apoiante de António José Seguro participou a partir dos estúdios do Porto -, talvez por lealdade à estratégia do candidato que apoia, Álvaro Beleza preferiu não entrar em conflito, marcando isso mesmo como tónico.
“António José Seguro está à distância, não teve de atacar ninguém para afirmar as suas convicções e valores”, defendeu, vendo no antigo secretário-geral do PS o único com capacidade para garantir o equilíbrio num sistema político “muito desequilibrado”.
Para o socialista, essa procura pelo equilíbrio será mesmo a chave no dia das eleições: “Estou convencido de que virão ao de cima as qualidades necessárias para um Presidente da República e que ganhará aquele que der mais equilíbrio, que é a palavra-chave”.
Já José Miguel Júdice, também ele um histórico do PSD, defendeu que é mandatário da candidatura de Cotrim de Figueiredo porque vê nele alguém capaz de ir buscar grande parte do eleitorado social-democrata.
O advogado até assumiu que apoia este Governo e que se revê no PSD, mas entende que Marques Mendes não vai ampliar a força do partido, mas antes diminuí-la.
Apesar de reconhecer que “não há tragédia para o Governo se Marques Mendes for eleito”, José Miguel Júdice vê em Cotrim de Figueiredo a “alternativa ao risco de Marques Mendes não passar à segunda volta”.
No fim do dia, percebe-se que a luta entre Marques Mendes e Gouveia e Melo aqueceu mesmo durante e depois do debate. Agora é tempo de Natal e de festejar um novo ano, mas a novela deve retomar em breve, quando todos entrarem na fase decisiva da campanha.
