A derrota "clara" de Ventura deixa-o numa posição "bastante favorável" porque tem pela frente "duas figuras relativamente fracas"

9 fev, 22:30
O candidato à Presidência da República, André Ventura, durante uma sessão de esclarecimento com apoiantes em Aveiro, 2 de fevereiro de 2026. TIAGO PETINGA/LUSA

André Ventura perdeu a corrida a Belém, mas não saiu do centro do tabuleiro político. Agora é hora de o líder do Chega tentar transformar a derrota num ativo, reforçando o palco parlamentar e preparando o partido para uma segunda fase de aproximação ao poder

André Ventura saiu derrotado da segunda volta das presidenciais deste domingo, mas a noite eleitoral de 8 de fevereiro de 2026 não fecha o ciclo político do Chega, até porque o presidente do partido e candidato derrotado decidiu olhar logo para frente, antecipando que este resultado o colocava no caminho para governar.

A questão, a partir daqui, deixa de ser "o que correu mal" e passa a ser "como é que Ventura transforma uma derrota presidencial numa estratégia de poder", partindo dos 33,18% alcançados, quando ainda faltam apurar 20 freguesias e alguns consulados. Uma percentagem acima da obtida pela Aliança Democrática (AD) nas últimas legislativas, mas conseguida com cerca de 300 mil votos a menos.

"Perdeu, mas está numa situação bastante favorável"

O historiador e especialista em movimentos de extrema-direita Riccardo Marchi reconhece a evidência - “André Ventura claramente perdeu” - mas considera também esta derrota uma janela de oportunidade. O líder do Chega, argumenta o especialista, encontra-se agora numa posição “bastante favorável”, sendo que tem pela frente “duas figuras relativamente fracas”, no Governo e em Belém.

Sobre o Executivo, Riccardo Marchi sustenta que Luís Montenegro lidera um Governo minoritário, o que “dificilmente” permitirá “alguma política de peso estrutural significativa” sem procurar entendimentos “no Partido Socialista e até no Chega”. Sobre o Presidente eleito, afirma que António José Seguro foi escolhido “pela negativa”, com uma massa eleitoral a votar nele “para não votar em Ventura”, mais do que “para votar no próprio António José Seguro”.

Em suma, Ventura ganha margem para continuar “na construção de uma alternativa de direita de governo”, mas o historiador traça uma linha vermelha para o futuro: “Não pode fazê-lo como fez até agora”. O líder do Chega tem um “eleitorado consolidado” que Riccardo Marchi descreve como “o voto radical, de protesto e populista”, mas precisa de segurar uma fatia adicional: “Aqueles 400 mil, 500 mil eleitores de centro-direita” que aceitaram votar nele na segunda volta".

De acordo com a sondagem à boca das urnas feita por Pitagórica/ICS/Iscte/GfK para a TVI e CNN Portugal, dos cerca de dois milhões de votantes em João Cotrim de Figueiredo, Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes, perto de 400 mil decidiram transferir o seu voto para André Ventura.

E aqui está o nó estratégico: Riccardo Marchi considera que Ventura não precisa de moderar a sua agenda em temas como a imigração ou corrupção, mas sim “a forma como se comunicam essas bandeiras”. “São aceites até por uma parte de eleitores de centro-direita descontentes, mas que não aceitam um determinado tipo de comunicação muito bombástica, pouco consistente, com poucos dados empíricos, pouca racionalidade”, esclarece.

"Ventura potencia o melhor, mesmo quando lhe acontece o pior"

O politólogo João Pacheco discorda deste ponto de partida mais otimista para o candidato presidencial derrotado. “Em primeiro lugar, uma derrota nunca é favorável seja para quem for”, sublinha. Por outro lado, também não desconsidera aquilo que “consegue fazer a partir do resultado”.

O especialista descreve André Ventura como “um bom construtor de narrativas”, com “bastante habilidade e capacidade política, desde logo retórica”, capaz de “alimentar o seu eleitorado” e “potenciar o melhor, mesmo quando lhe acontece o pior”. E dá um exemplo: ao ser “o único candidato à direita” a chegar à segunda volta, o líder do Chega tentou colar ao resultado uma mensagem de supremacia política, declarando que “lidera a direita em Portugal”. João Pacheco rejeita essa conclusão: “Com rigor, não se pode dizer isso a partir de uma eleição presidencial que é uma eleição individual”.

Ainda assim, o politólogo identifica a utilidade concreta do ciclo presidencial para o Chega, que é reforçar o papel de Ventura no lugar onde realmente exerce poder institucional diário: “O palco onde ele vai continuar a atuar é no Parlamento”. E acrescenta que Ventura “usa essa candidatura presidencial para consolidar e consubstanciar um caminho” que sabe que continuará a percorrer. No seu entendimento, a derrota “não o destrói, não o diminui”, porque o deputado “já despiu esse fato” de candidato e regressa ao Parlamento com “capital político, votos, dinâmica, apoios, uma narrativa que continua”.

Eleitorado "emprestado" não se converteu e pode não se converter

Se Riccardo Marchi vê uma oportunidade de André Ventura reter parte do centro-direita, João Pacheco é mais cético quanto ao potencial de expansão para além do núcleo duro. Diz que a “grande limitação” de Ventura é não ter conseguido “capitalizar a direita que não é radical”, uma vez que, numa segunda volta polarizada, “quem conseguiu ocupar esse espaço foi António José Seguro”.

O politólogo destaca ainda que neste “um contra um” são "lógicas diferentes” e “não se pode aqui extrapolar” conclusões diretas para legislativas. Ventura continua a ocupar “um espaço que é só seu”,  “nas suas ideias, na sua forma, na sua liderança, no seu traço, na sua personalidade”, e João Pacheco não acredita que tenha havido uma transferência em massa, por exemplo, da Iniciativa Liberal.

Mesmo assim, reconhece a ambição de Ventura de chegar ao Governo e descreve o sistema como terreno fértil para cenários inesperados: “Pode ser primeiro-ministro sem ganhar eleições”, recordando que a política portuguesa já viveu soluções de maioria parlamentar sem vitória direta do futuro primeiro-ministro. 

Ventura está a um ano de vencer?

A ideia repetida por alguns apoiantes do Chega, de que André Ventura chega rapidamente ao poder porque o Governo cairá, encontra resistência na análise de Riccardo Marchi. Quando confrontado com essa expetativa, o politólogo diz que lhe “parece difícil”, por três razões: Seguro promete ser “garante da estabilidade governativa”, o PSD e PS não teriam vantagem em eleições que poderiam funcionar como “prenda” para o Chega, e o próprio Ventura pode não ter interesse imediato num novo combate eleitoral estando “bastante desgastado” e a precisar de preparar o partido para uma “segunda fase de aproximação ao governo”.

João Pacheco, por sua vez, lembra históricos de partidos que se apropriaram de vitórias presidenciais como se fossem partidárias, e a seguir sofreram colapsos, como foi o caso do CDS de Francisco Rodrigues dos Santos. Insiste também que o resultado presidencial não deve ser usado para decretar que o Governo ficou “mais fragilizado” ou “com menos legitimidade”.

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