Neonazis e Fidel Castro entraram no debate entre o candidato que não se percebe o que "pensa sobre coisa nenhuma" e um senhor que "parece que já não é comunista"

2 dez, 22:15

António Filipe e Henrique Gouveia e Melo entraram para uma disputa de duas partes em que cada um tentou cavalgar um tema em que se sentia mais à vontade

A hérnia encarcerada do Presidente da República deu para juntar os candidatos à sua sucessão António Filipe e Henrique Gouveia e Melo num desejo de rápidas recuperações, mas durou pouco o entendimento.

Sabendo ter no seu forte um tema que pode causar desconforto a qualquer adversário comunista, Henrique Gouveia e Melo pegou forte na questão militar, nomeadamente na guerra da Ucrânia.

Feita a introdução de que “a guerra é sempre má e a paz é sempre boa”, António Filipe admitiu: “Espero que cheguem a agora a acordo, seja lá como for, mas tem de ser entre eles”, referindo-se a Rússia e a Ucrânia, enquanto recusava dar uma visão clara sobre qual o melhor plano de paz para colocar um fim ao conflito.

Henrique Gouveia e Melo também não se referiu especificamente aos planos de paz que vão sendo conhecidos ou como é que a guerra deve acabar, preferindo por passar diretamente ao ataque, mostrando estar em terreno onde entendia ter superioridade sobre o adversário - não pela experiência militar, mas pela noção de que a posição comunista é menos consensual.

“São negociações importantes. De forma cândida, António Filipe diz que não tem nada a ver com isso. É preciso ter uma posição. António Filipe chegou a dizer que Zelensky era apoiado por neonazis. Acho que se enganou em quem invadiu quem”, afirmou Henrique Gouveia e Melo, numa frase que o fact check da CNN Portugal validou.

Depois disso, surgiu a pergunta: “Continua a acreditar que Zelensky é apoiado por fascistas e neonazis e que o grande democrata é Putin? Portanto, agora temos de capitular perante o senhor Putin?”

Irritado, António Filipe distanciou-se do presidente da Rússia, até mais do que Gouveia e Melo, pelo menos na sua perspetiva. “Não está mais longe de Putin do que eu. Se alguém está nos antípodas sou eu, não é o senhor”, atirou, para depois jogar a cartada da NATO.

“Não fui eu que disse que os jovens portugueses deviam morrer onde a NATO mandasse”, disse, defendendo as palavras sobre o apoio de neonazis a Volodymyr Zelensky, que é um “facto”.

Sempre numa tentativa de se mostrar mais à vontade no tema, Gouveia e Melo decidiu tomar uma posição, para dizer que “a paz com capitulação não é uma paz”, deixando a entender que o plano inicial, que os Estados Unidos defendiam, não será o ideal.

“Não vai haver nenhuma guerra nuclear, nem nenhuma guerra até ao último ucraniano. Não devemos ser uma quinta coluna dos interesses fascistas da Rússia atual. Isso é diplomacia da força”, reforçou, numa altura de escalada na troca de argumentos, com Gouveia e Melo a acusar António Filipe de “defender o património de Fidel Castro”.

Honrado em ter acompanhado Marcelo Rebelo de Sousa a Cuba, António Filipe viu no adversário uma “ânsia para atacar por via do anticomunismo”, pedindo a Gouveia e Melo que tivesse uma postura de Estado.

Reclamando uma “voz própria” para o Presidente da República, António Filipe sublinhou que não aceita a ideia de que “temos de ir morrer onde nos mandarem”, numa bicada à NATO, que Gouveia e Melo sublinhou ser uma aliança defensiva e não ofensiva.

Como que dividido em duas partes, esta foi a primeira, com Gouveia e Melo a sentir-se mais à vontade, o que até explicou que António Filipe tivesse pedido outros assuntos em cima da mesa.

Um deles a reforma laboral, claro, cuja introdução provocou uma greve geral marcada para o próximo dia 11 de dezembro. Neste momento o comunista acha que não se percebe o que Gouveia e Melo “pensa sobre coisa nenhuma”, já que se limita a dizer “umas banalidades”.

“A minha posição [sobre o pacote laboral] tem sido claramente expressa, de Gouveia e Melo temos umas generalidades sobre este tema ou outro qualquer. Por muitas tentativas continuamos a não perceber. Procura explorar o facto de os eleitores do PS não se identificarem muito com Seguro e os de PSD com Marques Mendes”, referiu.

Do lado de lá, Gouveia e Melo voltou a trazer a carta do comunismo, alertando que o modelo económico defendido pelo adversário “falhou em todo o lado”.

“O seu modelo económico é o da estatização. Falhou em todo lado. Parece que o senhor já não é comunista. A minha posição é totalmente clara. A do senhor é que é ideológica”, frisou, sempre defendendo que a sua posição está na social-democracia.

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