Nas legislativas e nas europeias, o boletim chega pelo correio, é preenchido em minutos e segue de volta num envelope. Nas presidenciais, essa possibilidade desaparece e o voto passa a exigir presença física numa embaixada ou consulado específico. A diferença administrativa parece pequena no papel, mas na vida concreta traduz-se em quilómetros, horas e euros: 854 quilómetros de estrada entre Charleston e Washington, 1.700 quilómetros de voo entre Tromsø e Oslo, quase 24 horas seguidas de autocarro e comboio entre Rovaniemi e Helsínquia, fins de semana inteiros consumidos numa ida e volta Osaka-Tóquio, centenas de euros para ir de Bilbao a Madrid. É entre o que é possível noutras eleições e o que é exigido nas presidenciais que surgem relatos de frustração, desistência e uma pergunta recorrente: porque é que, quando quase tudo no Estado já pode ser tratado à distância com autenticação digital segura, votar continua, muitas vezes, a exigir uma viagem?
Há portugueses para quem votar nas eleições presidenciais significa apanhar um avião, atravessar um país inteiro, dormir num hotel escolhido à pressa, faltar ao trabalho e regressar a casa com menos algumas centenas de euros na conta. Para outros, significa simplesmente não votar. Não por desinteresse, não por indiferença, não por afastamento de Portugal, mas porque entre a vontade de participar e a urna de voto existe uma distância física e financeira que transforma um direito fundamental num esforço quase extravagante.
Apesar de, oficialmente, os emigrantes terem votado em número recorde na primeira volta das presidenciais de 18 de janeiro, a realidade é menos otimista quando se olha para a dimensão dos números. A abstenção voltou a ficar acima dos 95%, ou seja, dos mais de 1,7 milhões de eleitores recenseados no estrangeiro, apenas pouco mais de 72 mil votaram - o equivalente a 4,09%. O cenário repete-se eleição após eleição. Em 2021, a abstenção foi ainda mais elevada, atingindo os 98,1%. Em 2016, situou-se nos 95,3% e, em 2011, nos 94,5%.
Joana Quilhó tem 34 anos e vive em Charleston, na Carolina do Sul, Estados Unidos da América. Já tinha votado por correspondência em eleições portuguesas, por isso, desta vez, voltou a esperar pelo envelope como de costume. No entanto, os dias passaram e nada chegou à caixa do correio, lembra em conversa com a CNN Portugal. Primeiro estranhou, depois desconfiou. Por fim, foi pesquisar.
Descobriu então que, para eleger o presidente da República, não havia boletim em casa nem hipótese de voto postal: teria de se deslocar a Washington DC, a cerca de 854 quilómetros. Abriu o computador e começou a fazer aquilo que milhares de emigrantes fazem antes de decidir se votam ou não: contas. O voo mais barato rondava os 803 dólares (cerca de 681 euros), ida e volta.
"O meu marido é militar e encontra-se atualmente em missão, e tenho uma filha bebé, o que significa que teria de viajar com ela", explica.
Além de ter de "tirar um dia inteiro ou dois" para a viagem, os dois bilhetes faziam a fatura aproximar-se dos mil dólares. Gastar esse valor apenas para votar parecia-lhe impossível de justificar. "Seria uma loucura", concluiu, e a decisão ficou tomada antes mesmo de chegar o dia da eleição.
A história de Joana não é exceção. Nos Estados Unidos, esta realidade repete-se à escala nacional e reflete-se nos números: na primeira volta das presidenciais, votaram apenas 2% dos eleitores recenseados. Num país com 50 Estados e mais de 76 mil portugueses inscritos para votar, existem apenas sete consulados onde isso é possível. Desta vez, apenas 1.531 emigrantes exerceram o direito de voto.
"Já li comentários como 'quem não paga impostos não deve votar', mas essa generalização é injusta. Mesmo quem está fora continua a preocupar-se com o país e com quem ficou. E votar é um dever cívico", afirma.
Para Joana, o problema não é apenas a distância entre Charleston e Washington, mas a "incoerência" de um sistema que ora permite votar à distância, ora obriga a viajar centenas de quilómetros. Não votou na primeira volta, nem vai votar na segunda.
"Hoje em dia praticamente tudo é eletrónico. Temos o Portal das Finanças, o Portal do Cidadão, a Autenticação.Gov... Temos tantas aplicações e tantas formas de fazer tudo online que não percebo porque é que isto ainda não foi introduzido. Deixar os emigrantes sem votar não é justo", acrescenta.
1.700 quilómetros para chegar à urna
A ideia de estar "a pagar para votar" repete-se no norte da Europa, a mais de sete mil quilómetros de Portugal. Bruno Serra emigrou por vontade de mudar de vida, ganhar novas perspetivas e crescer a nível pessoal e profissional. Vive há três anos em Tromsø, na Noruega, mas a sua mesa de voto nas presidenciais fica em Oslo. Entre as duas cidades estão cerca de 1.700 quilómetros.
"Na prática, a deslocação só é possível de avião", explica, e raramente dá para ir e voltar no mesmo dia, o que obriga a dormir na capital.
Ao simular a viagem, começa a enumerar os gastos: 250 a 300 euros em voos, entre 60 a 90 em alojamento, mais dezenas de euros em transportes e refeições. No total, entre 350 a 400 euros para colocar um boletim numa urna.
Na Noruega, apenas 8,96% dos eleitores recenseados votaram na primeira volta, o que corresponde a 458 votos num universo de 5.110 inscritos.
Bruno reconhece que é "irrealista" ter um consulado em cada cidade e não ignora que emigrar foi escolha sua, mas questiona se o exercício de um "direito básico" deve depender da capacidade financeira de cada um.
"Não é falta de interesse cívico. O esforço financeiro e logístico é que é muito elevado", explica, admitindo que a decisão de votar ou não passa inevitavelmente por esta conta de somar. "Sinto que estou a pagar para votar. Ter de gastar centenas de euros para exercer um direito básico é frustrante e acaba por refletir uma desvalorização do voto dos emigrantes."
Nas legislativas, recorda, votou por correspondência sem dificuldades. "Foi um processo simples, acessível e que funcionou bem". Comparar os dois sistemas torna, para si, a situação ainda mais difícil de aceitar: "Não faz sentido poder votar por correspondência noutros atos eleitorais e não nas presidenciais".
Apesar de viver longe, continua a acompanhar diariamente o que acontece em Portugal e a pensar no futuro do país. Para a segunda volta, a página de Facebook da Embaixada de Portugal na Noruega lançou um apelo à comunidade para voluntários da mesa de voto nos dias 7 e 8 de fevereiro. Bruno enviou um email a mostrar "total disponibilidade", mas recebeu a resposta de que não há qualquer apoio para deslocação ou estadia para quem vive fora de Oslo. "Teremos todo o gosto em contar consigo numa próxima oportunidade", lia-se.
Em relação às soluções, Bruno aponta o que já existe: cartão de cidadão com leitor, Chave Móvel Digital, autenticação oficial do Estado. "Num mundo global e digital, seria perfeitamente possível implementar uma solução segura, mais justa e acessível", insiste, acrescentando que isso reduziria a necessidade de tantas mesas de voto e poderia simplificar a contagem dos boletins.
24 horas de viagem por um voto
Na Lapónia finlandesa, o obstáculo para votar mede-se sobretudo em horas. Enzo Fernandes, de 24 anos, vive há dois em Rovaniemi, mas a sua mesa de voto fica em Helsínquia. No mapa, é apenas um traço vertical que atravessa o país, na prática, trata-se de quase um dia inteiro de viagem.
Sem carro próprio, depende de transportes públicos e de tudo o que isso implica: comboio, autocarro, esperas, transbordos. "A viagem de ida e volta de comboio demora 22 horas, de autocarro pode ultrapassar as 24."
Quando procura alternativas, encontra preços que variam, mas contam sempre a mesma história: o bilhete de autocarro mais barato ronda os 40 euros, o de comboio ultrapassa os 120, o avião pode custar 180. Tem amigos a viver em Helsínquia e isso poupa-lhe uma noite de hotel, mas não resolve o essencial: para votar precisa de faltar ao trabalho pelo menos um dia inteiro.
Esse dia perdido pesa mais do que qualquer bilhete promocional e, no fim das contas, mesmo escolhendo sempre a opção mais barata, calcula um impacto total que pode chegar aos 350 euros.
Já no ano anterior, nas legislativas, votou sem sair de casa. "Recebi o boletim de voto em casa, assinalei e enviei-o pelos correios. Foi extremamente rápido e eficiente".
Rápido, simples e gratuito. Agora, a mesma intenção de participar obriga-o a escolher entre "dormir dois dias seguidos num autocarro ou desembolsar aproximadamente um quarto do salário mínimo nacional" para fazer uma cruz num papel.
Na Finlândia, dos 932 eleitores recenseados, apenas votaram 138.
Questionado sobre se, nestas condições, sente que o Estado valoriza o seu voto, a resposta sai curta e sem rodeios: "nas presidenciais não". O que mais o deixa "confuso e irritado" é a diferença entre eleições: "A meu ver não se justifica a diferença de metodologias, especialmente quando uma é rápida e custa zero, e a outra tempo e dinheiro."
"Por mais que votar seja um dever crucial, para quem está emigrado em zonas mais remotas torna-se muito mais difícil", acrescenta.
O voto que fica pelo caminho
Rita Barros chegou ao país da sakura e do sushi em 2019 como turista e logo se apaixonou pelo Japão. Depois de dois estágios profissionais - o primeiro cancelado devido à pandemia - voltou em 2022 com visto Working Holiday, altura em que conheceu o seu agora marido. Desde então, alternou idas a Portugal e vistos de estudante, até ser aprovada para o visto de casamento em janeiro de 2026. Hoje vive em Osaka, com uma rotina de estudos e trabalho part-time que torna qualquer deslocação longa mais complexa.
Entre Osaka e Tóquio, há cerca de 500 quilómetros que o comboio de alta velocidade - o famoso shinkansen - cumpre em duas horas e meia. É rápido, limpo e pontual, mas não é barato. Cada bilhete ronda os 78 euros, e alternativas como voo ou autocarro não tornam a viagem mais fácil ou económica.
Rita poderia teoricamente ir e voltar no mesmo dia, mas o seu estado de saúde não permite duas viagens longas consecutivas. O voto transforma-se, assim, numa estadia obrigatória em Tóquio. Um hotel barato acrescenta 50 ou 60 euros à conta, refeições simples mais algumas dezenas, e no fim a deslocação aproxima-se, "se tiver sorte" dos 220 euros, além de consumir um fim de semana inteiro. "É precisamente ao fim de semana que o salário do meu trabalho part-time rende mais", explica.
Desde os 18 anos que Rita vota sempre. Por isso, sente que não o conseguir fazer desta vez quebra um hábito a que dá muito valor. "Se o voto fosse digital eu votaria sempre. É um direito meu."
No Japão, votaram 10,85% dos eleitores recenseados, o que corresponde a 37 votos em 341 inscritos.
"Para Rita, ter de atravessar o país só para colocar uma cruz no papel não faz sentido num sistema que já tem autenticações oficiais e códigos de identificação. "Eu percebo que seja uma eleição importante, mas existem vários países que utilizam o voto eletrónico. Porque é que Portugal não implementa isso?"
O caso mais consolidado é o da Estónia, onde cidadãos residentes no estrangeiro podem votar online em eleições nacionais desde 2005, através de um sistema de identificação digital. Também a França autoriza o voto eletrónico para franceses no estrangeiro em algumas eleições, como as legislativas nos círculos da diáspora. A Austrália segue um modelo mais restrito, permitindo o voto eletrónico a emigrantes apenas em situações específicas, como dificuldades de acesso às urnas ou voto antecipado.
Um consulado sem urnas
Mais a sul, em Bilbao, a história é menos sobre um dia extenuante e mais sobre anos de pequenas desistências acumuladas. Mafalda Gouveia da Costa vive ali há 26 anos. Quando chegou, o consulado da cidade espanhola funcionava exatamente como todos os outros, onde os emigrantes ouvidos pela CNN Portugal têm de ir votar, mas depois de uma reestruturação do governo de Pedro Passos Coelho, foi despromovido a consulado honorário. Hoje, trata passaportes, registos e certidões, serve várias regiões do norte de Espanha, mas não tem mesa de voto para presidenciais.
A mesa atribuída a Mafalda fica em Madrid, a cerca de 400 quilómetros dali. Ir e voltar no mesmo dia implica quatro a cinco horas para cada lado, consoante o transporte, e uma despesa que pode oscilar entre 100 e 300 euros.
Ao princípio ainda fez contas, ainda ponderou fins de semana sacrificados, ainda pensou em combinar a viagem com outras tarefas, mas, com o passar dos anos, a exceção tornou-se regra e a regra tornou-se ausência. "Já não voto nas presidenciais há vários anos", conta em conversa com a CNN Portugal.
Em Espanha, apenas 6,37% dos eleitores recenseados votaram na primeira volta: são 3.347 votos em 52.548 inscritos.
Mafalda continua, porém, a votar sempre nas legislativas e nas europeias por correspondência. Essa diferença mostra que o problema não é desinteresse, mas uma limitação concreta do sistema. "Fala-se disto sempre que chegam as presidenciais, mas depois nunca muda nada", lamenta.
Porque é que os emigrantes não podem votar à distância nas presidenciais?
A resposta curta é simples: porque a lei não permite. A eleição do Presidente da República obedece a um regime próprio, diferente de todas as outras eleições em Portugal. Está consagrada na Lei Eleitoral do Presidente da República, um diploma de 1976, aprovado no período imediatamente a seguir ao 25 de Abril, quando a prioridade era garantir eleições seguras, controláveis e livres de qualquer suspeita.
Esse diploma determina que o voto presidencial é exercido presencialmente. A regra aplica-se a todos os eleitores e, no caso dos portugueses residentes no estrangeiro, traduz-se na obrigação concreta de votar fisicamente nas embaixadas e consulados portugueses. Não há voto por correspondência, nem voto eletrónico. Nunca houve.
Ao contrário do que acontece nas legislativas ou nas eleições europeias, esta não é uma escolha administrativa nem uma opção técnica da Comissão Nacional de Eleições. É uma imposição legal. Sem alteração da lei, a CNE não pode autorizar qualquer modalidade de voto à distância.
A origem desta exigência acontece por se desejar que a eleição do Chefe de Estado - figura máxima da soberania nacional - seja marcado por um ato solene, pessoal e presencial, em que a identidade do eleitor é confirmada no momento e o voto depositado diretamente na urna, sem intermediários.
Há também argumentos práticos que ajudam a explicar a resistência à mudança. Nas legislativas, onde o voto postal existe, os círculos da emigração registam tradicionalmente taxas elevadas de votos nulos, muitas vezes por erros formais, como envelopes trocados, documentos em falta ou instruções mal cumpridas.
No caso do voto eletrónico, o debate centra-se sobretudo na segurança e na necessidade de garantir que o voto é secreto, inviolável e verificável. Ainda assim, em outubro de 2025, deputados do PSD, PS, Chega e CDS aprovaram, em comissão parlamentar, a realização de um teste de voto eletrónico para emigrantes, na sequência de um pedido do Conselho das Comunidades Portuguesas. A iniciativa não altera o regime das presidenciais, mas sinaliza uma abertura política para repensar a forma como o Estado garante o direito de voto aos cidadãos que vivem fora do país.