Todos contra Ventura? Sim, mas só na segunda volta

Graça Picão , repórter CNN/TVI da campanha presidencial de André Ventura
9 jan, 10:21
André Ventura em Samora Correia

Muitos minutos antes de André Ventura chegar já os seguranças percorrem as ruas por onde irá passar. Sabem com exatidão quantos metros vai percorrer, os locais onde têm de ter maiores cuidados, onde há mais espaço para abrir “a bolha” e permitir interação com as pessoas, onde o ambiente pode ser hostil e até em que cafés poderá entrar. Nada é deixado ao acaso. As arruadas, apenas duas por dia - uma de manhã que permite marcar o dia e outra ao fim da tarde que dá espaço para responder aos adversários antes dos telejornais - são pensadas para isso mesmo, para a coreografia de campanha e para marcar o dia noticioso.

Mas a campanha de André Ventura parece estar em lume brando, o candidato embalado pelas sondagens não tem feito grande esforço para alargar a base eleitoral.

É verdade que namora o eleitorado da AD, sobretudo os passistas que não estão com Marques Mendes. Já disse mesmo que se sentiria muito honrado se tivesse Pedro Passos Coelho ao seu lado. Também não “larga” Sá Carneiro e até citou Freitas do Amaral para dizer que, tal como ele, quer unir a direita democrática.

Mas as mensagens são as mesmas do Chega, muitas vezes até fora dos poderes presidenciais. Parece menos aguerrido e até na linguagem mais contido. Não houve até agora nenhum grande comício para mostrar a força do candidato. A “guerra” de André Ventura é mobilizar o eleitorado do Chega que acredita estar já maioritariamente fidelizado. Basta olhar para o mapa da campanha: começa em Albufeira, onde elegeu um dos dois presidentes de Câmara do Chega; Silves, onde o Chega ganhou em todas as freguesias nas legislativas de 2025; Sines, Vendas Novas, Samora Correia, Sobral de Monte Agraço e são muitos mais os pontos onde a caravana de Ventura passa, com um denominador comum: ali o Chega tem força e Ventura quer mobilizar. Não se cansa de dizer “têm de me dar força”, ”é preciso votar”, “não podem ficar em casa dia 18”, ”temos de vencer e com uma margem confortável”, “é diferente passar com 22 ou com 27%”.

Mais do que as sondagens que lhe têm sido favoráveis, o que anima André Ventura é saber que se o “seu eleitorado” se mobilizar a passagem à segunda volta está praticamente garantida. E ele acredita nessa passagem. Essa é a certeza que marca a estratégia da campanha: Ventura ataca os adversários mas apenas q.b.. Já percebeu que pode concentrar-se na sua mensagem e na sua gente, pois os adversários atacam-se entre si. Não cavalgou os ajustes diretos do almirante nem a “facilitação de negócios” de Marques Mendes, prefere apenas dizer que ele não será uma marioneta do Governo. Pela primeira vez em eleições nacionais, os candidatos não estão todos a “bater” em Ventura. Essa é uma novidade desta campanha.

Ou seja, Ventura não está no centro do jogo, é como se já estivesse numa etapa mais à frente, como se corresse numa pista onde ainda não está definido quem correrá ao seu lado.

Mas a corrida é para a primeira volta. Na segunda volta, como o próprio diz “a conversa é outra”. Em quase todas as sondagens André Ventura tem o maior nível de rejeição, e se passar à segunda volta, dizem as sondagens, seja qual for o oponente, o oponente vence.

Se, para já, mobilizar é a palavra de ordem, numa segunda volta a estratégia de vitimização vai ganhar peso. “Eles têm o sistema, eu tenho o povo”, escreve André Ventura numa publicação nas redes sociais. Mas se chegar à segunda volta, aí sim, volta ao centro do jogo, já que todos os adversários se vão mobilizar para não o deixarem chegar a Belém.

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