Nunca falha, mesmo nunca: Santarém voltou a acertar no resultado das Presidenciais

18 jan, 20:27
Campanha para as presidenciais (LUSA)

Mais uma vez, e como sempre em democracia, os escalabitanos voltaram a acertar em cheio no vencedor. Para já ainda só falamos da primeira volta, mas certamente Seguro e Ventura não vão dispensar uma ida a Santarém na campanha que recomeçará brevemente

Desde as primeiras eleições presidenciais realizadas em Portugal após o 25 de Abril de 1974, em cada escrutínio houve um número de candidatos diferente, vários vencedores e diferentes níveis de abstenção. Mas há um dado que foi comum a todas as eleições: a votação no distrito de Santarém foi sempre a que mais se aproximou dos resultados globais. Uma tendência que se registou nos 10 atos que elegeram um novo Presidente da República, e também na primeira volta de 1986. 

Os dados foram compilados pelo Pordata permitindo ao portal estatístico da Fundação Francisco Manuel dos Santos chegar à conclusão de que Santarém foi “sempre um espelho da votação global, com um padrão de voto sistematicamente semelhante ao resultado nacional”. Segundo a mesma entidade, “o padrão de votos do distrito de Santarém esteve sempre próximo da votação nacional” com o “desvio de votos, em percentagem, de qualquer candidato,” a ser sempre “inferior a cinco pontos percentuais”. Esta tendência, ainda segundo o Pordata, também aconteceu com os distritos do Porto e de Castelo Branco, mas apenas em oito dos atos eleitorais.

2026: Seguro vence com mais de 30%

Com 100% dos votos contados, António José Seguro venceu no distrito de Santarém com 31.20% dos votos. Em segundo lugar ficou André Ventura, com 23.13% e em terceiro Cotrim de Figueiredo com 17.51% dos votos. A fechar o quintento da frente ficarão Gouveia e Melo (13.13%) e Marques Mendes (9.62%).

1976: Eanes vence com mais de 60%

GettyImages

O primeiro ato eleitoral realizou-se em 1976, com Ramalho Eanes a vencer com 61,5% dos votos. Em segundo lugar, mas a longa distância, ficou Otelo Saraiva de Carvalho, com 16,5%. A diferença também foi substancial em Santarém, ainda assim, não foi tão expressiva: 58,7% para Eanes e 20,1% para Otelo.

Naquela que foi a primeira eleição presidencial no pós-25 de Abril, apresentaram-se a votos mais dois candidatos: Pinheiro de Azevedo e Octávio Pato, tendo obtido, respetivamente, 14,4% e 7,6% dos votos. Em Santarém a votação foi de 13,1% para Pinheiro de Azevedo e de 8,1% para Octávio Pato.

Numa eleição ainda muito marcada pelo período pós-revolução e pelo 25 de Novembro de 1975, dos quatro candidatos, três apresentavam-se como independentes. Só Octávio Pato era ‘o’ candidato do PCP. Pinheiro de Azevedo não tinha apoios partidários declarados, Eanes era apoiado pelo PS, PSD, CDS e PCTP/MRPP e Otelo tinha o apoio da UDP, MES, FSP e PRP

1980: Eanes volta a vencer, mas com resultado menos expressivo

Em 1980 o número de candidatos aumentou. Para além de Ramalho Eanes, apresentaram-se a votos Aires Rodrigues (POUS), Galvão de Melo (independente), Pires Veloso (independente) Otelo Saraiva de Carvalho (FUP, UDP e MES), e Soares Carneiro.

O maior número de candidatos levou a uma maior dispersão de votos. Ainda assim, Eanes, agora apoiado por PS, PCP e PCTP/MRPP, venceu à primeira volta com 56,5% dos votos, perdendo apoio face à eleição anterior. Este é, aliás, até hoje, o único caso em que um presidente foi reeleito com menos votos do que os obtidos no escrutínio anterior. Em segundo lugar ficou Soares Carneiro que apesar de ter o apoio da Aliança Democrática (PSD, CDS e PPM) não foi além dos 40,2% dos votos.

Em Santarém, mais uma vez, a votação ficou muito próxima dos valores nacionais, embora os eleitores do distrito tenham dado maior apoio que o total nacional ao candidato vencedor: Eanes obteve 61,4% e Soares Carneiro 35,3%.

1986: Freitas quase vence à primeira, mas foi Soares que acabou por ganhar

(Guilherme Venâncio/Lusa)

As eleições de 1986 foram, até ao momento, as únicas que obrigaram à realização de uma segunda volta.

No ponto de partida havia cinco candidatos: Freitas do Amaral (apoiado pelo PSD, pelo CDS e pelo PDC), Mário Soares, (apoiado pelo PS), Francisco Salgado Zenha, (apoiado pelo PRD e o MDP/CDE), Maria de Lurdes Pintasilgo (independente, mas que tinha o apoio da UDP) e Ângelo Veloso, (apoiado pelo PCP). Ainda antes da ida a votos na primeira volta, o candidato do PCP retirou-se da corrida e o PCP apoiou Salgado Zenha.

Não foi por muito que Freitas do Amaral não venceu à primeira volta, obteve 46,3% dos votos, contra apenas 25,4% de Mário Soares. Santarém, mais uma vez confirmou a regra, e ficou próximo dos resultados nacionais, ainda assim, os dois candidatos que passariam à segunda volta obtiveram resultados mais fracos: Freitas obteve 43,1% dos votos, Soares ficou com 22,6%.

Os dois candidatos passaram à segunda volta e Soares conseguiu o apoio de todos os derrotados na primeira volta. Salgado Zena e Maria de Lurdes Pintasilgo apoiaram Soares e, mesmo o PCP, acabaria por dar o apoio ao candidato socialista. O resultado alterou-se por completo: Soares obteve 51,3% dos votos e Freitas 48,7%. No distrito de Santarém, Soares obteve 54,3% e Freitas 45,7%.

A nível nacional, a diferença de votos foi de apenas 150.622 votos.

1991: Soares consegue a maior votação de sempre

Depois da vitória em cima da linha da meta em 1986, Mário Soares recandidatou-se em 1991, novamente com o apoio do PS, mas desta vez também do PSD. Contra Soares apresentaram-se Basílio Horta, apoiado pelo CDS e pelo PPM, Carlos Carvalhas, apoiado pelo PCP, e Carlos Marques, apoiado pela UDP.

A vitória de Soares foi esmagadora: obteve 70,4% dos votos, o resultado mais alto de sempre. Em segundo ficou o candidato apoiado pelo CDS, mas apenas com 14,1%. Em Santarém a vitória de Mário Soares não foi tão expressiva, obteve 69% e o segundo lugar ficou entregue a Carlos Carvalhas com 15%. Ainda assim, a diferença entre o resultado nacional de cada candidato e o obtido no distrito de Santarém ficou abaixo dos cinco pontos.

1996: Sampaio derrota Cavaco à primeira

AP Photo/Armando França

Em 1996 a eleição colocou frente-a-frente Cavaco Silva, apoiado pelo PSD e pelo CDS, contra Jorge Sampaio, apoiado pelo PS. Houve ainda dois outros candidatos, Jerónimo de Sousa, apoiado pelo PCP e pelos Verdes, e Alberto Matos, apoiado pela UDP. Ambos acabariam, no entanto, por desistir a favor de Sampaio a que se juntou ainda o apoio do PCTP/MRPP.

O resultado deu a Jorge Sampaio 53,8% dos votos e a Cavaco Silva 46,2%. Em santarém a diferença foi um pouco maior: Sampaio, 57,5%; Cavaco, 42,5%.

2001: Jorge Sampaio reeleito, mas longe dos números de Soares

Jorge Sampaio foi novamente candidato em 2001, venceu novamente à primeira volta, subiu face ao resultado anterior, mas ficou longe dos números conseguidos por Mário Soares quando foi reeleito. O candidato voltou a ser apoiado pelo PS, mas enfrentou mais concorrência. À direita o candidato foi Joaquim Ferreira do Amaral, apoiado pelo PSD e pelo CDS, à esquerda teve de enfrentar Garcia Pereira (PCTP/MRPP); Fernando Rosas (Bloco de Esquerda [BE]) e António Abreu (CDU [PCP e PEV]).

Sampaio acabaria por vencer com 55,8% dos votos contra 34,5% de Ferreira do Amaral. Em Santarém, a regra cumpriu-se mais uma vez: Jorge Sampaio atingiu 56,8% dos votos e Ferreira do Amaral ficou-se pelos 32,8%.

2006: Cavaco consegue chegar a Belém à segunda tentativa…

Para Cavaco Silva, à segunda foi de vez. Depois de ter sido derrotado por Jorge Sampaio em 1996, Cavaco Silva, com o apoio do PSD e do CDS, foi eleito à primeira volta em 2006. Para o resultado terá contribuído o número de candidatos à esquerda: cinco. Mário Soares voltou a candidatar-se com o apoio do PS, mas o socialista Manuel Alegre também foi candidato como independente. E depois ainda havia Jerónimo de Sousa, apoiado pela CDU, Francisco Loução, pelo BE, e Garcia Pereira pelo PCTP/MRPP.

O resultado da eleição deu a vitória a Cavaco Silva por uma margem curta: 50,6% dos votos. Manuel Alegre foi segundo, com 20,7% e Mário Soares apenas obteve 14,3%. Em Santarém Cavaco obteve 47,8%, Alegre conseguiu 23,5% e Soares 13%.

(AP)

2011: … e é reeleito para segundo mandato

Depois da primeira vitória contra Manuel Alegre e Mário Soares em 2006, Cavaco Silva, mais uma vez com o apoio do PSD, do CDS e também do MEP, recandidata-se e vence a eleição de 2011. Pela frente voltou a ter Manuel Alegre, desta vez com o apoio do PS, do Bloco de Esquerda e do PCTP/MRPP, e mais quatro candidatos: os independentes Defensor de Moura e Fernando Nobre, José Manuel Coelho do PND e Francisco Lopes da CDU.

A vitória de Cavaco foi conseguida com um resultado melhor que o obtido na eleição anterior, mas ainda assim ficou-se pelos 52,9%. O segundo voltou a ser Manuel Alegre, desta vez com 19,8% dos votos. Em Santarém os resultados deram 51,9% a Cavaco e 19,4% a Manuel Alegre.

2016: Marcelo chega a Belém

Depois de Cavaco foi a vez de Marcelo Rebelo de Sousa, apoiado pelo PSD, pelo CDS e pelo PPM, chegar a Presidente da República logo à primeira volta. Na disputa pelo lugar, para além de Marcelo houve mais nove candidatos, naquela que era, à data, a eleição mais concorrida.

Só independentes eram sete:  Sampaio da Nóvoa (que viria a ter o apoio do PCTP/MRPP e do Livre), Vitorino Silva, Paulo Morais, Henrique Neto, Jorge Sequeira, e Cândido Ferreira. Depois havia ainda a sétima independente, a militante socialista Maria de Belém, no entanto, o PS deu liberdade de voto, não apoiando ninguém.

Para além destes sete independentes e de Marcelo Rebelo de Sousa foram ainda a votos Marisa Matias, apoiada pelo Bloco, e Edgar Silva, apoiado pelo PCP.

No meio de dez candidaturas, Marcelo Ganhou à primeira volta com 52% dos votos e, em segundo, ficou Sampaio da Nóvoa com 22,9%. Em Santarém a história repetiu-se: Marcelo ficou com 51,1% e Sampaio da Nóvoa com 23,6%.

(Mário Cruz/Lusa)

2021: E Marcelo volta a ganhar

Confirmando a história que o Presidente da República em exercício que se recandidata ganha, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a vencer em 2021. Mais uma vez não faltaram candidatos e mais uma vez o PS deu liberdade de voto aos seus militantes apesar de uma sua militante, Ana Gomes, ter avançado com uma candidatura. A militante socialista não tece o apoio formal do PS, mas teve do PAN e do Livre.

Depois havia ainda mais cinco candidatos: André Ventura, com apoio do Chega, João Ferreira, com apoio da CDU, Marisa Matias, apoiada pelo BE, Tiago Mayan Gonçalves, apoiado pela Iniciativa liberal, e Vitorino Silva, apoiado pelo RIR.

Contas feitas, Marcelo Rebelo de Sousa obteve 60,8% dos votos, o melhor resultado depois dos 70,4% obtidos por Mário Soares na sua reeleição, e Ana Gomes obteve 12,9%. Em Santarém, Marcelo levou 60,7% dos votos e Ana Gomes 9,8%. Neste distrito, o segundo classificado seria, no entanto, André Ventura com 15,8% dos votos face aos 11,9% obtidos a nível nacional.

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