Não foi uma vez, foram duas: Seguro fez minientrevistas a Ventura em dois momentos distintos do debate e num deles conseguiu mesmo pôr Ventura a anunciar uma ideia nova - ideia essa que Seguro considera que é uma prova de que Ventura não está preparado para ser PR. Por outro lado: quando o tema foi imigração/emigração e emprego, Seguro mencionou os jovens e Ventura ripostou com esses mesmos jovens para colar Seguro. Tudo isto e o demais ficam na história da democracia portuguesa: pela segunda vez, o país viu um frente a frente entre dois candidatos numa segunda volta presidencial
É um dos momentos do debate, aconteceu ainda na metade inicial: Ventura traz o tema das subvenções, evoca Armando Vara para evocar também o PS, perante isso António José Seguro reage evocando-se - e invocando-se também - a si próprio: "Quando saí do Parlamento há 11 anos para a minha vida privada, podia ter pedido uma subvenção. Por contas por baixo, teria recebido 300 mil euros de subvenção. Sabe quanto recebi? Zero." E disse mais: "Fui à minha vida, fui investir no meu pequeno concelho, que é um dos território mais pobres do país; fui dar aulas, fui à minha vida. Enquanto tiver cérebro e mãos para trabalhar, continuarei a fazê-lo" - Seguro apresentou-se desta maneira como exemplo de desprendimento em relação a privilégios do sistema, conclusão: o tema das subvenções ficou logo por ali, Ventura deixou-o o cair - procurou outra via perante o desarme retórico alheio.
"Não nos faça de parvos", diz entretanto o líder do Chega, acusando Seguro de querer mudar o sistema "sem tocar na Constituição". Seguro garante que cumprirá a Constituição "tal como está" e defendeu que a instabilidade política é um fenómeno recente, desde 2019 - e sublinha que o problema não está na Constituição, que "os problemas do país não se resolvem" mexendo na lei fundamental mas que se resolvem se o Parlamento concretizar soluções já possíveis. Ventura insiste, acusa Seguro de querer "fazer de conta" que é possível mudar "o sistema" sem tocar na Constituição e voltou a apontar a necessidade de rever regras para acabar com o que diz serem privilégios no topo do Estado e para garantir que é possível despartidarizar nomeações. E é precisamente sobre nomeações que o debate parte para um dos seus momentos-chave.
A propósito da maneira como é nomeado o procurador-geral da República (PGR), Ventura afirma que é contra o modelo atual, Seguro sublinha que pensa precisamente o oposto, é a favor. Depois Seguro começa a fazer de jornalista, dirige perguntas a André Ventura, o líder do Chega comete o que a comentadora da CNN Helena Matos considera "um erro quase de principiante" - Ventura começa a responder ao que Seguro pergunta, deixa que Seguro tome conta do debate.
- Qual é a sua solução alternativa? - pergunta Seguro.
- A minha solução alternativa é mudarmos a Constituição para garantir que estas entidades terão mais capacidade de decisão por si próprias - responde Ventura.
- Mas mudar em que sentido?
- Deixarem de ser influenciadas pelo Parlamento e por partidos - diz Ventura.
- Não, mas diga qual é a norma concreta - insiste Seguro
- Mas precisa que eu lhe diga as normas todas?
- Quero, quero - reage Seguro.
- Nomeações para o Tribunal Constitucional... - afirma Ventura.
- Não, vamos ao procurador - insiste Seguro perante as tentativas de Ventura para mudar de tema. - Eu quero perguntar-lhe qual é a solução alternativa - Seguro não deixa o tema cair.
- Nunca devia ser - e já temos um exemplo na nossa história - o que acontece quando um primeiro-ministro indica um procurador. Tivemos o caso, que conhece bem, do José Sócrates, que indicou um procurador para o proteger.
- Qual é a solução alternativa? - volta a perguntar Seguro.
- A solução alternativa é a capacidade de a justiça ter mais autodeterminação - responde Ventura.
- Qual é a alternativa para a nomeação do PGR? - Seguro não desiste.
- Podia ser, por exemplo, dentro da corporação do Ministério Público... ser escolhido por eles.
- Ah, uma corporação?! - pergunta e exclama (e vice-versa) Seguro.
- Eu preferia isso do que serem os políticos a decidir - conclui Ventura.
- Isso revela a sua impreparação para exercer o cargo.
Fim de entrevista. Seguro conseguiu uma cacha jornalística.
Quando o assunto foi a imigração, o candidato apoiado pelo Chega afirma que Portugal "precisa de mão de obra estrangeira porque não paga bem aos seus". "Nós dizemos muitas vezes 'ah, precisamos de imigrantes para trabalharem na agricultura, na hotelaria, no turismo', sim - porque pagamos miseravelmente aos nossos. Devíamos era ter uma economia competitiva para conseguir pagar aos nossos, para não precisarmos de estar a receber enchentes de pessoas vindas de países com culturas completamente diferentes". Um dos moderadores intervém: "Mas [esses imigrantes] vêm ganhar ainda menos [do que ganhavam os portugueses]. Ainda vêm ganhar menos". Ventura reage: mantém o argumento de que o problema é estrutural e acusa os sucessivos governos - em particular os do PS - de terem deixado o país sem capacidade de controlo eficaz da imigração -e lembra a extinção do SEF. "A exigência de mão de obra não pode significar substituição civilizacional".
A dado momento, Seguro diz que há "pleno emprego", que "há mais imigrantes do que desempregados", que o "problema é o emprego jovem". Ventura aproveita a deixa: "Sabe porque é que há pleno emprego? Porque, por causa do seu partido, os jovens tiveram de emigrar". Seguro reage com um "por amor de Deus", o diretor-executivo da CNN Portugal Pedro Santos Guerreiro explicou entretanto, na análise ao debate, que a frase "há pleno emprego porque os jovens tiveram de emigrar" é "certa, é verdadeira, é correta e, além do mais, é um tiro em Seguro" e visa "o eleitorado que está mais indeciso, que é o eleitorado jovem" - "foi o melhor momento de Ventura no debate", concluiu Pedro Santos Guerreiro.
Sobre os apoios públicos de antigos políticos como Cavaco Silva ou Paulo Portas, André Ventura disse tratar-se de uma "captura do sistema", argumentando que não são tanto um voto a favor de Seguro mas sobretudo um voto "contra" o líder do Chega. "Isto não é sobre António José Seguro, é sobre cancelarem-me a mim". Seguro reage: "Venho para unir, as ideologias ficam à porta de Belém". E acrescenta: "Não represento ninguém, nenhum partido, a não ser a mim próprio. André Ventura é que é líder partidário, está na eleição errada".