O comentador da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal) revelou no Global, o seu espaço de comentário no Jornal Nacional, em quem vai votar nas presidenciais de 8 de fevereiro. "Para aqueles que dizem que isto é uma eleição entre a direita e a esquerda, isso é um grande exagero"
Andreia Vale: Um tema sobre o qual ainda não falou neste Global - vamos falar hoje: segunda volta das presidenciais.
Paulo Portas: Não falei aqui nem em lado nenhum.
Andreia Vale: Exatamente, mas vou puxar a brasa à nossa sardinha, como é óbvio. Vou perguntar-lhe, obviamente, se quer fazer aqui o seu endosso ou o seu sentido de voto.
Paulo Portas: Eu não tenho nenhuma função para poder endossar. Posso é dizer o que é que eu farei - que é uma coisa completamente diferente.
Andreia Vale: Para si, a escolha é fácil?
Paulo Portas: Vamos lá ver. É, é fácil. Eu votarei no candidato moderado, como votaria em qualquer moderado que não foi aprovado na primeira volta, se tivesse passado. Ou seja, eu sei muito bem, desde o início, em quem nunca votaria para Presidente da República e é por aí que eu quero começar. Nós estamos a eleger o chefe de Estado, não estamos a eleger nem deputados nem governos. Qual é a missão essencial do chefe de Estado? É unir o país, é representar o melhor da nossa comunidade e unir a nação.
Ora, não me parece de todo que o outro candidato, aquele senhor que grita muito, fosse para a Presidência da República unir o que quer que fosse porque ele só sabe dividir, pôr uns contra os outros, dividir a nação em tribos, em raças, em etnias, em confissões religiosas. E isso é o contrário da função presidencial.
Segundo ponto: quais são as duas competências específicas que tem o Presidente da República que eu considero aqui preocupantes - além da apreciação da legislação, etc.? O Presidente da República é relevante na política externa portuguesa, como sabe. Representa-nos lá fora.
Eu não quero política externa de fação. Por exemplo, com os países de expressão portuguesa, sejam da América Latina, sejam de África. Eu não quero os comportamentos que eu vi na Assembleia da República quando somos visitados por chefes de Estado ou quando vamos visitar chefes de Estado. Não pode ser.
É preciso que as pessoas percebam: a política externa não é de partido, é da nação. E tem que ver com os interesses constantes de Portugal. Ora, os Estados relacionam-se com os Estados. Através de quê? Das instituições. Portanto, eu não me posso pôr a discutir as instituições dos outros países - como não aceito que discutam as minhas.
A outra função do Presidente da República é ser comandante supremo das Forças Armadas. Aqui há uns anos, eu fiquei muito surpreendido quando vi este partido extremado que agora existe defender que os polícias - não os militares, os polícias - podiam ter filiação partidária. Isso não é polícia, é milícia. E eu não quero milícias dentro das polícias.
Também não quero um comandante supremo das Forças Armadas que se ponha a interferir nas escolhas para chefes militares ou a fazer política dentro das Forças Armadas no sentido partidário. As Forças Armadas são da nação. Não são de nenhuma fação.
E, depois, há uma coisa básica: eu, com o dr. António José Seguro, terei certamente divergências doutrinárias. Mas com o outro candidato, o tal que grita muito, as divergências são de outra natureza. Têm que ver com o humanismo, que pode ser cristão ou laico, com a doutrina social ou até com a catequese.
Eu não olho para o ser humano como esse líder extremista olha. Eu não quero o meu país dividido pelas cores, pelas confissões religiosas ou pelas nacionalidades. Não quero tribos contra tribos. Se quiser, de uma maneira mais simples, nós já temos Trump à frente dos Estados Unidos e, portanto, do Ocidente. Escusamos de ter uma imitação de Trump em Portugal.
Andreia Vale: Podemos vê-lo a subscrever a carta aberta para endossar o apoio a António José Seguro?
Paulo Portas: Eu não sou de manifestos nem de cartas. Só digo qual é o meu voto, como seria, repito, para qualquer outro candidato moderado.
Mas tenho uma coisa que posso dizer aqui: António José Seguro foi uma pessoa decente, um político decente, num momento muito difícil para Portugal, que foi o da intervenção da troika, quando nós fomos à falência.
Eu acho que, sem a ajuda dele, nós não teríamos conseguido fazer o acordo social com a UGT na concertação social, nem a reforma laboral que criou imensos empregos. E também a baixa do IRC.
Ele foi desalojado de líder do Partido Socialista pelo dr. António Costa. Eu não acho isso um título de fraqueza; acho isso até um título de nobreza. Ele era de um PS moderado.
E, portanto, para aqueles que dizem - para terminar - que isto é uma eleição entre a direita e a esquerda, isso é um grande exagero. É uma eleição entre um político que, à esquerda, é talvez o mais próximo do centro, e um político que está à direita da direita e que se junta ao extremismo que está na moda lá fora. E, portanto, eu não tenho nenhuma dúvida sobre qual é a escolha.