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Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

Presidenciais: o que dizem 110 milhões de euros de apostas online nestas eleições?

16 jan, 16:46
Mosaico André Ventura, António José Seguro, Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes

Uma coisa é dar opiniões e fazer comentários. Outra coisa é apostar dinheiro em potenciais vencedores. Veja e compare uma coisa e a outra

Quando Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.) começa a reclamar a falta de um contrato grande na liga de futebol americano, coloca em causa a capacidade do agente Jerry Maguire (Tom Cruise) e passa a duvidar das promessas eternas de que um dia iria vingar na NFL. A cena termina com a fala mítica que ficou para a história: SHOW ME THE MONEY!

Miguel Sousa Tavares já deu a sua opinião aqui. Na televisão, ouvimos comentadores a atirar cenários possíveis para a linha da frente, muitas vezes circundados de teorias mirabolantes para justificar as previsões. Cotrim de Figueiredo vai beneficiar do que aconteceu, ou vai ser prejudicado. António José Seguro vai colher os votos perdidos da esquerda, ou não. Luís Marques Mendes está demasiado baixo para recuperar, ou não. Gouveia e Melo tem votos escondidos que podem não estar a entrar nas sondagens, ou talvez esses votos nem sejam dele. André Ventura tem o eleitorado mais fiel, ou talvez não seja assim tão certo.

Atirar resultados para o ar não é difícil, sobretudo quando ninguém cobra por eles porque após as eleições a memória vai-se. O que muita gente não sabe é que há quem não se limite a dar palpites. Há quem coloque fichas na mesa - skin in the game - das suas convicções nestas Presidenciais. Há efetivamente quem não só acompanhe o que se passa, como invista seriamente - ou aposte, talvez seja a palavra mais correta - naquele que provavelmente será o maior cesto de apostas alguma vez feito sobre um evento português.

O que é a Polymarket

Criada por Shayne Coplan durante a quarentena da Covid‑19, a ideia base da Polymarket era simples e radical: combater a desinformação convertendo opiniões em dinheiro real. Na prática, a plataforma funciona como uma bolsa de valores preditiva, onde as "odds" (probabilidades) flutuam em tempo real de acordo com a lei da oferta e da procura: quanto mais pessoas compram ações num resultado, mais o preço sobe, refletindo a confiança do mercado. Reduzir isto a uma frase é quase injusto, mas é o que consigo explicar de forma curta.

Chamar-lhe uma casa de apostas é redutor. Chamar-lhe investimento é desafiante. Na prática, a Polymarket permite apostar - fiquemos com “apostar” por falta de melhor palavra - em eventos reais que vão desde previsões meteorológicas até eleições.

Como dizem os americanos: “Put your money where your mouth is”.

Ou, em bom português: põe o dinheiro onde tens a boca.

Num mundo onde tantos canais despejam opiniões diariamente, pergunto-me quantos comentadores estariam dispostos a colocar dinheiro nas suas próprias previsões. A filosofia da Polymarket transforma isso numa métrica financeira da convicção. Seria até interessante imaginar os media a atribuir uma linha de créditos aos seus comentadores: quem falhasse previsões perdia créditos, quem acertasse ganhava. Um modelo de transparência absoluta sobre a qualidade dos previsores para que a audiência saiba quem é quem nas opiniões preditivas. A Polymarket faz isso mesmo - e talvez nem saiba que as eleições portuguesas estão lá dentro, com possibilidades de apostas para todos os gostos.

Escolha do candidato vencedor das duas voltas, escolha do vencedor da primeira volta, escolha do segundo classificado na primeira volta. Há mais, mas fico-me por aqui.

Sondagens vs. Polymarket

No momento em que saiu a última tracking poll da CNN, a Polymarket apresentava como mais provável vencedor da primeira volta Seguro com 52%, seguido de Ventura com 39% e Cotrim com 5,5%. Para o segundo lugar, Ventura surgia com 39%, Seguro com 36% e Cotrim com 15,5%. 

Comparando com a tracking poll da CNN que dá 24,2% para Seguro, 22,9% para Ventura e 21,1% para Cotrim - percebemos que as apostas estão bem alinhadas com a ordem das sondagens. Seguro em primeiro, Ventura em segundo, diz-nos a tracking poll da CNN e a Polymarket.

Onde surgem diferenças não é na posição, mas na convicção. Cotrim aparece completamente arredado da luta para o segundo lugar quando olhamos para quem aposta dinheiro - 15% de chances , ao contrário do que mostram os inquiridos das sondagens que colocam Cotrim a "apenas" 2% da segunda posição. 

O mais interessante surge na poll de apostas para a escolha do Presidente da República (após ambas as voltas). Na Polymarket, não parece haver dúvidas:

- Seguro: 75%
- Cotrim: 13%
- Marques Mendes: 7%
- Ventura: 5%

Quem aposta está convicto de que Ventura terá uma boa votação na primeira volta, mas também está convicto de que não tem qualquer hipótese de ser Presidente da República, e é aqui que se vê a diferença entre opinião sem custo e opinião com dinheiro em jogo. Um eleitor, numa sondagem, dificilmente dirá que votaria Ventura na primeira volta mas que não votaria na segunda, mas se tiver de colocar dinheiro na mesa, coloca-o no que acredita que vai acontecer — não no que gostaria que acontecesse. Ou seja, ninguém parece querer apostar dinheiro sério no resultado Ventura será presidente.

110 milhões de euros — e a somar

Poder-se ia até dizer que é uma brincadeira de miúdos, mas talvez seja bem mais do que isso. As eleições portuguesas já movimentaram quase 110 milhões de euros em apostas exclusivamente no mercado nacional. Será que podemos confiar nestes resultados da Polymarket? O pior é que os números são surpreendentes sobretudo para o tipo de eventos em que se aposta: 95,4% de precisão nas previsões feitas quatro horas antes do evento, 88,8% de precisão uma semana antes.

No caso das nossas presidenciais é caso para nos perguntarmos se acreditamos mais nas sondagens feitas a 2.000 pessoas ou se acreditamos mais nos 110 milhões que alguém já deixou no tabuleiro.

É verdade que, se olharmos para previsões feitas há um mês — quando Marques Mendes surgia destacado — é quase certo que a Polymarket falhará essas projeções iniciais. Mas, mesmo assim, tem sido uma referência muito viável para analisar tendências e probabilidades.

As sondagens recolhem opiniões, a Polymarket recolhe convicções. E entre palavras e dinheiro, só um deles não mente. 

E você, punha dinheiro na sua opinião?

Disclaimer: a Polymarket está sujeita a regras e limitações impostas por entidades reguladoras internacionais, e a participação pode não ser permitida em todos os países. Cada utilizador deve verificar as condições legais aplicáveis na sua região. Este artigo não visa incentivar apostas, mas analisar a diferença entre sondagens, opinião e mercados preditivos

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