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Ventura e os mais 403 mil votos… e isto ainda não acabou

9 fev, 11:57

Se o Chega é André Ventura e se André Ventura é o Chega - algo que até os mais críticos dizem há anos -, então Ventura e o Chega conseguiram simplesmente isto a 8 de fevereiro de 2026: cerca de um em cada três votos de quem votou na 2.ª volta das presidenciais; quase 403 mil votos a mais da 1.ª para a 2.ª volta (ainda há concelhos, freguesias e consulados sem votação); quase 292 mil votos a mais em relação às legislativas de 2025; mais cerca de 1,2 milhões de votos do que nas Presidenciais de 2021; mais quase 560 mil votos do que nas legislativas de 2024; mais 1,3 milhões de votos em relação às legislativas de 2022; mais quase 1,7 milhões de votantes quando comparado com as legislativas de 2019, o ano da fundação do Chega.

Sem dogmas, se isto não é um percurso de enorme sucesso eleitoral (e de forte impacto político e social em Portugal), não sei o que será. Outro dado que convém ter em conta é que o Chega e a liderança de Ventura sujeitaram-se a oito diferentes eleições democráticas (autárquicas, legislativas e presidenciais, sem considerar as das regiões autónomas) e vão apenas para o 7.º ano no palco político. Ora, nesse período, o PS já vai no 3.º líder, tal como sucede com o BE e a IL, sendo que o PSD e o PCP estão na segunda dose das suas lideranças políticas.

Claro que estas leituras (tal como todas) têm sempre muitos ses, aqueles que dizem que não se podem comparar Presidenciais com Legislativas, que tem de se ter em conta o que são votos unipessoais (mais ainda numa 2.ª volta de Presidenciais e sem concorrência que não seja apenas a dois candidatos), que não se devem misturar votos absolutos e percentagens, que as inscrições nos cadernos eleitorais e a abstenção são importantes, que as votações diretas, em círculos eleitorais e através de escolhas locais, são para tratar em contas autónomas. Mas, reitero, todos estes ses não podem esconder aquilo que alguns já vislumbravam há anos: a trajetória de subida eleitoral do Chega (e sobretudo de André Ventura) sempre foi evidente, sendo que acabou por se tornar exponencial por simplesmente corresponder a uma sintonia cada vez maior com faixas alargadas de portugueses que votam ou que passaram a votar.

Não é preciso ter grande memória para se recordar o que era dito e escrito há poucos anos por muitos comentadores, especialistas e jornalistas. Falo apenas da questão da votação e não daquilo que se dizia (e ainda hoje se diz) de que o partido e o seu líder representavam um conjunto de perigos para a democracia liberal. Garantiam que o Chega e Ventura tinham um teto baixo eleitoral, que o líder e o partido chegavam e chegariam apenas a grupos laterais de alegados fascistas e populistas, trauliteiros do deita-abaixo e descontentes de ocasião. Que a implementação através de votos locais dificilmente sucederia devido à falta de quadros e da qualidade dos mesmos.

Neste último caso, o partido conseguiu nas autárquicas do ano passado quase 654 mil votos e 137 candidatos eleitos e ainda houve comentadores cegos que viram isso como um fracasso. Em 2021, o partido tinha tido apenas cerca de 208 mil votos e 19 eleitos, metade do que conseguira o PCP em número de votos e a longa distância dos eleitos comunistas que foram 148.

Ainda nos primeiros tempos de avaliação deste fenómeno político e social, mesmo os que hoje passaram a referir com desfaçatez o contrário no espaço público, o discurso era de que as propostas do partido eram absurdas ou simplistas (emigração, segurança, corrupção, etc) e que não se devia dar palco mediático a um epifenómeno que se esgotaria. Ainda me lembro dos muitos comentadores, políticos e até jornalistas que criticaram abundantemente quando uma revista escolheu fazer a manchete com a figura de André Ventura porque este conseguiu quase meio milhão de votos nas Presidenciais de 2021. Isto quando simplesmente se reconhecia, jornalisticamente e factualmente, a importância do fenómeno político que acabara de suceder. A acusação mais leve foi de que se estavam a promover fascistas e de que o candidato até tinha ficado em 3.º lugar atrás Marcelo Rebelo de Sousa e de Ana Gomes.

André Ventura (e o Chega, porque o partido esteve sempre presente no discurso de um candidato que nunca se apresentou acima do partido e chegou a anunciar que não seria Presidente de todos os portugueses) teve mais votos na 2.ª volta das Presidenciais do que qualquer um dos segundos classificados em Presidenciais neste século XXI. Teve mais votos que Ferreira do Amaral (o candidato social-democrata) quando foi derrotado em 2001 pelo socialista Jorge Sampaio, mais votos que Manuel Alegre e Mário Soares em 2006 (ficou a cerca de 180 mil votos da soma da votação destes dois históricos socialistas), mais votos que Alegre nas eleições de 2011 e mais do que, esse sim, o epifenómeno social chamado Sampaio da Nóvoa (2016), algo que alguma esquerda saudosista tentou recuperar sem sucesso para o presente.

Politicamente, a expressiva vitória de António José Seguro nas Presidenciais não é sequer um sinal de fracasso de Ventura e do Chega. Porque Ventura e o Chega, mesmo que digam o contrário em público, não estavam nestas eleições para ganharem. Nunca estiveram. Estiveram, isso sim, muito apostados em passar à 2.ª volta. E o jogo sempre foi usar um tabuleiro de damas para jogar xadrez. Assim, voltou a perceber-se que o teto eleitoral de Ventura ainda não está à vista e que o jogo tem novos episódios, a curto ou a médio prazo. Claro que na candidatura ainda se pensou que a votação global podia chegar aos 1,9 milhões de votos, mas isso acaba por ser um pormenor.

“Acho que a mensagem dos portugueses foi clara. Lideramos a direita em Portugal e vamos em breve governar este país”, disse André Ventura aos apoiantes na noite eleitoral. Independente deste tipo de declarações de propaganda, o maior desafio no futuro para Ventura é perceber até onde vai a resistência daqueles que se juntam na rejeição, e até mesmo no desprezo, ao Chega. Porque foi isso que explicou a votação massiva nestas Presidenciais e num candidato que não agradava a praticamente nenhum partido político ou sequer às elites políticas, económicas e sociais. E até o vulgar cidadão também vota por medo, que o diga o antigo líder do PSD Rui Rio.

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