O Presidente eleito, que se tornou o chefe de Estado que teve o maior número de votos de sempre numa eleição presidencial, quer que o dinheiro chegue já. Foram para as vítimas da tempestade as primeiras palavras de António José Seguro - que promete "tratar todos os partidos por igual"
António José Seguro está a caminho de Belém como o presidente com mais votos de sempre na história da democracia portuguesa. Suplantou Soares e agora, com o filho e neto do histórico socialista na plateia, diz ter um desígnio de ser "um presidente exigente" que já deixa aviso ao Governo e a Luís Montenegro: "Jamais serei um contrapoder, mas comigo não ficará tudo na mesma".
Após a catadupa de eleições dos últimos anos, Seguro entende que os próximos três anos sem ir às urnas são uma oportunidade: "Não há desculpas". "O futuro constrói-se com lucidez", refere ao mesmo tempo que garante que é tempo de esquecer a "narrativa da decadência", porque "o medo paralisa e é a esperança que constrói".
Portugal é "maior do que qualquer crise" e tem "todas as condições para ser melhor", mas continua a perecer face às intempéries e aos incêndios. Seguro começou o discurso de vitória com uma "primeira palavra de pesar pelas 15 vidas perdidas devido à catástrofe que nos atingiu". "Uma palavra de condolências às suas famílias, de solidariedade total com quem ficou sem casa ou sem empresa e para quem ainda não consegue fazer uma vida normal", referiu.
"Não vos esquecerei e não vos abandonarei", repetiu Seguro, prometendo que vai visitar "as zonas afetadas para garantir que esses apoios estão a chegar".
António José Seguro enalteceu a "heroica solidariedade dos portugueses", mas vincou que "a solidariedade dos portugueses não pode nunca substituir a responsabilidade do Estado". "Os 2,5 mil milhões de euros prometidos para a reconstrução têm de chegar ao terreno agora", alertou, aproveitando para garantir que não aceitará "burocracias que atrasem a chegada dos apoios a pessoas que já perderam tanto ou mesmo tudo".
Depois indiciou o caminho para ajudar: "A resposta à dor não é o grito, é o trabalho e há muito a fazer". Seguro reitera que os portugueses "precisam de um país preparado, não de um país surpreendido", porque já é mais que tempo de "sermos melhores na organização do que no improviso".
Quanto à vitória clara nesta segunda volta das presidenciais, António José Seguro diz que "os vencedores desta noite são os portugueses e a democracia", porque "o processo e o resultado evidenciam uma forte adesão aos valores democráticos". Mas, diz Seguro: "A maioria que me elegeu extingue-se esta noite".
"Sou o Presidente de todos, de todos os portugueses. O presidente de todos os portugueses para mudarmos Portugal. Dos que votaram em mim, dos que fizeram outra opção, dos que ainda não votaram e dos que optaram por não votar. A todos saúdo por igual como presidente eleito da República Portuguesa."
Seguro promete ser o Presidente de todos os portugueses e até do seu adversário. "A partir desta noite deixámos de ser adversários e temos agora o dever partilhado de trabalhar para um Portugal mais desenvolvido e mais justo", referiu.
Seguro aproveitou para lembrar a obra deixada por Marcelo Rebelo de Sousa, Cavaco Silva, Jorge Sampaio, Mário Soares e Ramalho Eanes, porque "cada um no seu tempo e no seu estilo serviu o nosso país”. Garante o "mesmo compromisso", "livre e sem amarras".
"A minha liberdade é a garantia da minha independência. Tratando por igual todos os partidos políticos e parceiros sociais. Em Belém, os interesses ficam à porta, a transparência e a ética são inegociáveis."
Seguro aproveitou ainda o momento para esclarecer que não será por si que "a legislatura será interrompida" e para reconhecer que "não esperava uma vitória com esta grandeza", mas que apesar disso a "recebe com muita honra".
Face ao passado ligado ao PS, Seguro demarca-se de uma vez por todas: "A vida do PS é com o líder do PS. Tenho muito orgulho no meu passado, mas não tenho nem terei atividade partidária". Afirmou-se "europeísta convicto" e ainda partilhou uma tese teórica sobre a governação de uma país: "Ou a política serve para resolver os problemas das pessoas ou não serve para rigorosamente nada".
"Hoje celebramos, amanhã, trabalhamos", foi assim que António José Seguro se despediu e abandonou o palco do auditório do Centro Cultural das Caldas Rainha, o seu quartel-general durante nestes últimos meses. Esta segunda-feira vai encontrar-se com Marcelo Rebelo de Sousa, em Belém, pelas 16:00. Tome posse a 9 de março.