No domingo vai falar-se muito deste número. Voto do "inconformismo e protesto" pode bater recordes eleitorais

3 fev, 07:00
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De acordo com os dados da Tracking Poll da CNN Portugal, os votos branco e nulos podem bater um novo recorde numas presidenciais e ultrapassar os 6,19% da reeleição de Aníbal Cavaco Silva

Ao sétimo dia tracking poll da CNN Portugal para a 2.ª volta das eleições presidenciais há uma tendência a saltar à vista: o número de votos em branco ou nulos continua a aumentar e já atingiu os 9,9%. Se os mesmos 5.769.394 eleitores que votaram na 1.ª volta regressarem novamente às urnas, estaremos a falar de 571.170 eleitores que, na escolha entre André Ventura e António José Seguro, preferem levantar o boletim, dobrá-lo e inseri-lo na urna sem qualquer tipo de escolha.

A confirmar-se a projeção da Pitagórica para a CNN Portugal, este valor será o maior de sempre na história da democracia em Portugal, superando o recorde de 6,19% de votos em branco e nulos na reeleição de Aníbal Cavaco Silva em 2011, correspondente a 277.865 eleitores, sendo que ainda é  necessário ter em conta que então havia 9.656.797 eleitores inscritos em Portugal e agora esse número fixa-se nos 11.039.672. Ou seja, mesmo que a percentagem seja semelhante a essa, o número absoluto de eleitores a votar em branco ou a absterem-se será provavelmente maior.

O voto em branco "é muito singular": "É o voto do inconformismo e protesto"

"Este é um sinal evidente de um ato eleitoral que tem uma característica nova nos últimos 40 anos", começa por explicar a politóloga Paula do Espírito Santo, lembrando que o país chega à 2.ª volta destas presidenciais com grande parte do eleitorado a ter "de se redirecionar para as candidaturas existentes" depois de os candidatos em que votaram na 1.ª volta já não estarem na corrida a Belém.

A analista política lembra que o voto em branco "é um voto muito singular", porque o ato de alguém "sair de casa para ir dobrar um boletim em branco é significativo do ponto de vista sociológico". "Podemos interpretá-lo de várias maneiras, mas é sempre um voto de inconformismo ou até de protesto dentro daquilo que são as circunstâncias da escolha", esclarece Paula do Espírito Santo, considerando que o voto em branco pode ser visto como " uma expressão de não convicção dentro das escolhas existentes".

Pedro Silveira, por seu lado, prefere para tirar conclusões rígidas para já da tendência de aumento dos votos brancos expressada pela tracking poll da CNN Portugal: "Precisávamos de dados mais finos para isso". O politólogo defende que, para se efetuar este tipo de análise, são necessários "estudos pós-eleitorais que, de facto, consigam captar as razões pelas quais as pessoas que pensavam ir votar, ou que votaram na primeira volta, ou que normalmente votam em eleições presenciais, desta vez, votaram branco e nulo e perceber quais foram as razões". "Só assim é que se conseguiria ter uma interpretação clara sobre isto", remata.

O politólogo defende que partir da tracking poll para se retirar "uma tendência eventual sobre votos nulos e brancos é muito difícil". "Dar este salto para o 'parece haver maior insatisfação' mesmo depois de já termos os resultados eleitorais, fazer essa extrapolação, é arriscado e, apenas com a tracking poll, ainda é muitíssimo mais, pode-se eventualmente ir por aí, mas com muitas, muitas cautelas", alerta.

Qual a diferença entre os votos em branco e a abstenção numas presidenciais?

Em termos de efeitos práticos, "os efeitos não são nenhuns" quer dos votos em branco quer da abstenção numa eleição como as presidenciais, em que se escolhe um de dois nomes através de uma votação direta. Paula do Espírito Santo lembra que, neste tipo de eleição, "a única coisa que conta são os votos expressos".

Isto, porque, tal como explica Pedro Silveira, nas eleições presidenciais "os votos brancos e nulos não contam". "São retirados e é por isso que, no domingo, vamos ter um resultado eleitoral que será 60%-40%, ou 70%-30%, ou 45%-55%, apesar de haver muita gente que vai votar em branco ou nulo", diz. "Em termos práticos, não são relevantes para a contabilização. Em termos simbólicos, o voto em branco no fundo são pessoas que, apesar de tudo, estão a expressar uma insatisfação em relação às opções, enquanto que a abstenção é um conjunto muito indiferenciado de situações, são pessoas que têm direito a votar, mas que não o exercem por razões muito diversas", afirma Pedro Silveira.  

De um ponto de vista puramente simbólico e sociológico, por outro lado, a abstenção pode ser "interpretada, por um lado, em termos de oposição, mas também poderá ser um reflexo de alienamento ou desinteresse pelo ato eleitoral". Paula do Espírito Santo realça ainda que esta "perspetiva de haver um ganhador à partida" criada pelas sondagens pode criar "uma racionalização do ato de votar e considerar-se que não vale a pena a deslocação para votar, uma vez que esse candidato já tem a vitória assegurada".

No caso, e de acordo com as várias sondagens que vão saindo, incluindo a tracking poll, esse candidato é António José Seguro. De resto, o último dia da sondagem diária mostra isso mesmo: André Ventura pode beneficiar do aumento de votos brancos e nulos.

"A abstenção tem várias possibilidades dentro de si, por exemplo, a oposição ao próprio sistema, o desinteresse, o alienamento, ou até o desconhecimento daquilo que está em causa das eleições em si, dos próprios candidatos e o não atribuir importância ao ato eleitoral por si próprio. Dentro da abstenção, há muitas possibilidades de interpretação do comportamento", resume Paula do Espírito Santo.

Quem sai beneficiado com o aumento dos votos em branco?

Paula do Espírito Santo diz que "tem ouvido algumas interpretações que apontam no sentido de André Ventura ser o candidato que mais ganha", mas confessa que "tem muitas dúvidas" que isso se verifique. "Nunca podemos identificar o voto em branco ou a abstenção como estando direcionados num sentido único", explica a politóloga, justificando que "não vão reforçar nenhum dos candidatos".

"Certamente que aquele que vai à frente vai deixar de ter, pelo menos, uma expressão maior do que aquela que teria, mas creio que não se consegue identificar um ganhador ou perdedor em fundo do voto em branco", explica. "Apenas sabemos que, neste caso, a proporção de votantes acaba por ser menor e o que realmente mesmo conta são os votos expressos", acrescenta Paula do Espírito Santo.

O politólogo Pedro Silveira acredita que esta é mais uma questão de resposta difícil, porque, mesmo que a tendência demonstrada pela tracking poll se venha a confirmar, "não sabemos qual é a razão". "Sem saber a razão sobre porque é que haverá mais pessoas a votar em branco não podemos saber quem é que beneficia", diz, lembrando que estes dados "não nos permitem fazer uma análise muito sólida".

"Se esta tendência continuar, se se verificar um aumento de votos brancos e nulos e se eles vierem, como dizem os dados da tracking poll, essencialmente de eleitores que votaram em candidatos que não estão na 2.ª volta, o que isso significa, mais interessante do que virem da esquerda ou da direita, é que essas pessoas não deixaram de ir votar, ou seja, essas pessoas não vão para a abstenção e isso, em si mesmo, é relativamente interessante", explica Pedro Silveira, lembrando que isso mostraria que "temos pessoas que claramente não se reveem em nenhum candidato e votam branco e nulo, mas não querem estar na abstenção e recusam-se a não votar.

"De alguma maneira querem expressar claramente que não se reveem em nenhum dos candidatos, mas não ficando na piscina difusa da abstenção, onde estão os descontentes ou os que ficaram à lareira ou os que estão completamente alienados do que passa no mundo", refere

O mau tempo e as ondas de choque de uma ciclogénese explosiva

À tendência detetada pela tracking poll da CNN Portugal alia-se ainda o mau tempo que se vai fazer sentir nos próximos dias e cresce a dúvida sobre se este anormal volume de votos em branco e nulos se poderá transformar em abstenção. Paula do Espírito Santo diz que, a experiência acumulada nas eleições anteriores reflete que "todos os fenómenos atmosféricos têm sempre influência dentro de uma margem da população que entende o voto, não só como um direito, mas sobretudo como um dever", explicando que, em regra geral, "os mais velhos tendem a considerar o voto como um direito porque tiveram de lutar para o conquistar e os mais novos, os mais convictos, consideram-no um direito, mas, particularmente, um dever".

"Pode haver dentro de uma fatia menor do eleitorado uma influência sobre a deslocação ao campo de voto. A deslocação não é completamente indiferente, neste caso, ao tempo e à intempérie, ou calor excessivo, ou haver outras opções que podem também motivar a adesão, até mesmo o próprio futebol, tudo isso poderá influenciar aí das urnas. Sobretudo nestes casos em que há um vencedor esperado, de acordo com as sondagens", diz Paula do Espírito Santo.

Pedro Silveira reconhece que há estudos que demonstram que as condições meteorológicas podem ter "um pequeno impacto" na adesão às urnas. Contudo, o politólogo lembra que esta "é uma eleição muito particular que muitos eleitores estão a ver como uma espécie de salvaguarda do regime democrático". "O facto de haver um candidato populista torna a eleição muito polarizadora e isso pode tender a que mais pessoas vão votar", acredita.

No entanto, ambos os politólogos olham para as inscrições para voto antecipado, que superaram os números da primeira volta eleitoral, como um bom presságio para a adesão dos eleitores nacionais nesta 2.ª volta das presidenciais. 

Quanto à da passagem da ciclogénese explosiva pela zona centro do país, o fenómeno "tem significado e pode desmobilizar" o eleitorado da região. Paula do Espírito Santo lembra que as pessoas da região "estão com outras prioridades", sendo que isso poderá ser um elemento potenciador dos níveis de abstenção. "Mas não num sentido de protesto; se desmobilizar deverá ser por haver outras urgências e questões para resolver" após o sucedido.

Pedro Silveira entende que este comportamento "é difícil de prever", porque, face ao rasto de devastação provocado pela tempestade Kristin, "necessariamente vai haver pessoas cuja prioridade, naquele momento, não é ir votar". "A questão será qual a magnitude na região e quão grande será esse impacto é difícil de prever", culmina o politólogo.

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