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Comentadora CNN

Dois “Brasis” e os desafios do novo governo eleito

5 nov, 12:27

Dentro e fora do país, Lula e a sua equipe terão a missão de resgatar o diálogo entre partidos e políticos de ideologias diferentes. É algo que o Brasil e os brasileiros precisam com urgência

“Só existe um Brasil”, disse Lula da Silva, em seu discurso após a confirmação da vitória nas urnas na noite de domingo. Mas, enquanto parte dos brasileiros comemorava a vitória, outros estavam nas ruas por outro motivo: protestar pelo resultado, lançar teorias da conspiração, trancar rodovias e pedir um golpe militar.

As horas e dias seguintes à derrota de Jair Messias Bolsonaro dão o tom dos desafios que o Brasil e o novo governo enfrentará. Lula, por mais habilidade política que tenha e forte apoio de aliados de várias áreas, está diante do mandato mais desafiante da sua trajetória enquanto político. Também é o mandato em que um eleitorado muito diverso depositou total confiança ao petista, mesmo quem não gosta do partido, da esquerda ou do próprio Lula. Isso tem um peso.

Os obstáculos são muitos, dentro e fora do país. Durante toda a campanha, Lula utilizou a metáfora da “picanha e cerveja” no final de semana para os brasileiros e a missão de acabar com a fome no país. É algo que já conseguiu em outros mandatos. No entanto, o petista vai assumir em um cenário completamente diferente daquele de quando tomou posse em 2003. O número de brasileiros que passam fome, cerca de 33 milhões, é semelhante. Porém, a conjuntura internacional, a inflação e as consequências da guerra na Ucrânia não ajudam.

Além disso, ainda não está claro de quanto será o rombo nas contas públicas deixado por Bolsonaro. Na campanha eleitoral deste ano, o presidente gastou, pelo menos, 21 bilhões de reais, o equivalente a 4,2 mil milhões de euros, do orçamento público para auxílios sociais. Ou seja, utilizou toda a máquina do estado para tentar a reeleição.

Por falar em máquina pública, o novo governo terá que “desbolsonarizar” órgãos do governo, como a própria Polícia Rodoviária Federal (PRF). Encontrar recursos no orçamento para o auxílio de 600 reais, prometidos na campanha e  retomar programas como o Farmácia Popular.

Todas essas ações políticas, que precisam de decisões o quanto antes, também dependem de como Lula vai articular todos os partidos e apoiantes que o ajudaram na eleição. São muitos atores políticos que vão “disputar” o comando dos ministérios do país, especialmente dos mais cobiçados, como Fazenda e Educação.

Ao longo da campanha e no discurso de posse, o presidente eleito afirmou que “não será um governo do PT”, mas, quando o assunto é divisão do poder, o PT e nenhum outro partido brasileiro dão bons exemplos. Aliás, parte da esquerda pode ficar decepcionada com a participação de outros partidos de centro e de direita no novo governo, enquanto os bolsonaristas insistem que quem venceu foi o “comunismo”.

A melhor lógica é que quem vai comandar o país são pessoas comprometidas, que devem dar o seu melhor para melhorar o Brasil. Será também uma grande lição do quanto a democracia, que estava em risco, sai fortalecida com a união dos partidos moderados e que se afastam dos extremos. 

Política externa e meio ambiente 

No cenário internacional, o Ministério das Relações Exteriores terá a missão de resgatar o protagonismo que o Brasil já teve. No atual mandato, o Itamaraty teve sua política externa baseada no conservadorismo e isolou o país dos demais líderes mundiais. Apesar de ser um desafio, não deverá ser o maior, uma vez que Lula já foi felicitado por líderes mundiais da esquerda até mesmo à extrema-direita. Em alguns postos do Itamaraty na Europa, o clima é de otimismo, conforme apurei com alguns representantes diplomáticos.

Um dos temas mais importantes para voltar ao cenário internacional é a agenda climática. Não é à toa que, muitos líderes que cumprimentaram Lula pela eleição, como o chanceler alemão Olaf Scholz, citaram a retomada das discussões sobre o clima. Um dos primeiros avanços nesse sentido será a possível participação do petista na COP27, que ocorre no Egito neste mês.

Nos últimos quatro anos, o Brasil teve inexpressiva participação na discussão climática. Pelo contrário, ficou com a imagem de governo que não se preocupa com o meio ambiente e a Amazônia. Com um ex-ministro do Meio Ambiente investigado por crimes ambientais e autor da frase “passar a boiada”, o governo de extrema-direita emitiu ao menos 400 “canetadas” relacionadas ao meio ambiente, de acordo com levantamento do jornal Folha de São Paulo.

Para a maior parte dos líderes da Europa, a forma como Bolsonaro conduziu a política ambiental foi um impasse para o avanço do acordo com o Mercosul. Com um novo governo eleito, existe a expectativa de retomada das negociações para fechar o acordo, que beneficiará ambos os lados do oceano.

Assim como no exterior, Lula e sua equipe terão a missão de resgatar, dentro do país, o diálogo entre partidos e políticos de ideologias diferentes. A frente democrática criada em apoio ao presidente eleito, que foi decisiva para a vitória, é um indicativo de que a volta da civilidade na política é possível. É algo que o Brasil e os brasileiros precisam com urgência, depois de quatros anos praticamente sem diálogo entre a presidência e os governadores não aliados. 

A meu ver, o mais difícil dos desafios deverá ser o movimento bolsonarista. São mais de 50 milhões de brasileiros insatisfeitos com o resultado do pleito, agindo como uma seita. São pessoas que se sentem tão autorizadas por Bolsonaro que fazem saudações nazistas, um crime previsto em lei no Brasil.

O país não pode se habituar a esse tipo de situação, apesar de ter sido alimentada durante quatro anos. Esse é um grande desafio para as novas lideranças eleitas. Também é preciso lembrar da organização desses grupos e do culto às armas promovido por Bolsonaro, não só no discurso, mas nas ações políticas que ampliaram o acesso dos chamados “cidadãos de bem” a terem armas.

Os últimos números dão conta de 1 milhão de armas nas mãos de civis, o triplo, se comparado com 2018, ano em que o líder da extrema-direita foi eleito. São eleitores que se reveem nos valores de Bolsonaro, como a paixão pelas armas de fogo, violência contra as mulheres, o ódio contra a comunidade LGBTI+ e fake news.

Bolsonaro sai derrotado das urnas, mas com mais votos do que teve há quatro anos. Além disso, continua com grande capital político, uma família que transformou a política em um grande negócio e as bancadas no Congresso Nacional e Senado Federal. Em quatro anos o bolsonarismo não vai acabar.

Talvez, ainda sejam necessárias gerações e gerações para que acabe, ou, pelo menos, reveja seus conceitos, principalmente o da democracia e da cidadania. Por falar nisso, outro desafio será destruir o conceito de  “cidadãos de bem”, que são os apoiadores de Bolsonaro, como se todos os demais, que não se sentem representados pelo presidente, não fossem bons cidadãos.

Ainda no campo simbólico dos desafios que o novo governo terá, a cerca de 20 dias da tão esperada Copa do Mundo, será preciso ressignificar a bandeira verde e amarela, sequestrada pelo movimento bolsonarista. O vibrante hino nacional e a linda bandeira do Brasil, com o lema de “Ordem e Progresso”, são de todos os brasileiros, não só daqueles que insistem em não querer a ordem democrática. Aliás, como a democracia é bela e poderosa. Aqui, cabe o trecho da canção de Gonzaguinha: “é bonita, é bonita e é bonita”.

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