Nem Lula nem Bolsonaro. Para os empresários portugueses no Brasil não importa quem ganha (só o que faz à burocracia)

2 out, 08:00
Bolsonaro ou Lula da Silva: quem será o próximo presidente do Brasil?

Lula da Silva traz a imagem internacional positiva que favorece os negócios. Bolsonaro tem a vontade de avançar com mudanças legislativas na área do trabalho. Com uma perspetiva de vitória do trabalhista, os empresários estão a posicionar-se do lado de Lula. Entre os portugueses com investimentos no Brasil, não se teme nem a mudança nem a continuidade. O que se quer mesmo é menos burocracia

“Tente evitar temas como política, religião e situações problemáticas sobre o Brasil”. O conselho surge num guia para a internacionalização da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP). E, talvez por isso, nas vésperas das eleições, poucos são os empresários que querem falar sobre o tema.

Empresas como EDP, Mota-Engil ou Delta, com forte presença no Brasil, quando contactadas pela CNN Portugal, optaram por não comentar. “A nossa mensagem é de investimento e de nota positiva para a estabilidade que tem existido no setor”, reagiu a Galp.

Mas o clima, entre os empresários nacionais com investimentos no Brasil, não é de preocupação. Ganhe quem ganhar, Lula da Silva ou Bolsonaro, acredita-se que o caminho futuro não será atribulado em Terras de Vera Cruz.

“Estruturalmente, a preocupação não é muito grande. A história mostra que, depois de passado o tumulto das eleições, a vida continua. O que sempre aconteceu, depois de um ato eleitoral, foi as coisas entrarem nos eixos”, assegura José Manuel Diogo, diretor da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira, ressalvando que a escala do investimento português no Brasil é “irrelevante”.

A principal vontade é de que o Brasil se torne mais simples ao nível da burocracia e do ordenamento fiscal. “É o sétimo país mais complicado do mundo em termos fiscais. As empresas gastam 2,5 dias por mês em burocracia”, concretiza o porta-voz.

E qual seria a solução ideal saída das eleições deste domingo: Lula da Silva ou Bolsonaro? “O que era bom é que continuassem as reformas que Bolsonaro tentou implementar, com um presidente com a imagem internacional como a de Lula. Como é impossível ter o melhor dos dois mundos, o que queremos é que ninguém atrapalhe muito e emerjam novos líderes”, termina José Manuel Diogo.

O Brasil continua a despertar interesse das empresas portuguesas, presentes em áreas de negócios como o turismo, a construção, a energia ou o agroalimentar. Segundo o INE, o Brasil foi o 13º cliente das exportações portuguesas de bens em 2021, com um peso de 1,1%. O Brasil ocupa a 8º posição ao nível das importações. A balança comercial é desfavorável a Portugal, com um défice de 1837 milhões em 2021.

Veja-se então o que, na visão do setor empresarial, separa os dois principais candidatos.

Lula: maturidade e dificuldades de compromisso

“Temos um candidato Lula que está mais maduro, que tem ido buscar para o seu gabinete quadros que credibilizam o próprio país. Lula, politicamente, é muito mais experimentado. Tem uma capacidade de resposta ao mundo empresarial e da economia que não se teria posto em candidaturas anteriores”, justifica António Trindade, presidente do grupo hoteleiro português PortoBay, com presença no Brasil.

Volte-se a 2002, na primeira eleição de Lula da Silva como presidente. Perante os receios de uma governação à esquerda, distante dos valores dos empresários que tipicamente se posicionam à direita, Lula assinou a “Carta ao Povo Brasileiro”, anunciando bases liberais e que respeitaria os contratos nacionais e internacionais. Mas, no mandato seguinte, começou a dar sinais de maior viragem à esquerda, deixando os empresários preocupados.

Nesta campanha, explica Gabriel Lima, jornalista e investigador de Ciência Política na Universidade de Lisboa, o candidato do Partido Trabalhista tem “evitado posicionar-se” em público sobre compromissos no que à economia diz respeito, recordando sempre a postura sensata do passado, num equilíbrio entre um modelo estatizante e os princípios liberais.

Nas últimas semanas, com as sondagens a darem primazia a Lula, explica o investigador natural de São Paulo, o setor empresarial foi-se posicionando do lado do trabalhista. Trata-se de um certo pragmatismo, habitual de quem se preocupa com os negócios, de se antecipar e estar do lado do poder. “Diante do facto de que é inevitável uma vitória de Lula, os empresários vão-se posicionando”, explica.

E concretiza: “o cenário preferido seria o do primeiro governo de Lula, fiscalmente responsável e pró-‘business’”.

Bolsonaro: a imagem internacional e as promessas não cumpridas

“O que tem de preocupar é o posicionamento de Bolsonaro no contexto global e a sua política classista”, argumenta António Trindade, quando questionado sobre os benefícios de uma política de continuidade se existisse uma reeleição de Jair Bolsonaro.

As declarações polémicas do atual presidente brasileiro, em especial no que respeita à proteção ambiental e à conservação da Amazónia, têm funcionado como um elemento que afasta potenciais investidores no país. “Resolvidos os problemas da credibilidade internacional do país, o Brasil tem toda a capacidade para cativar apetites de investimento”, argumenta o hoteleiro.

Quando Bolsonaro chegou ao poder, explica José Manuel Diogo, diretor da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira, havia a expectativa de que avançasse com mudanças que tornassem a legislação do trabalho mais amiga dos empresários. “Os empresários achavam que Bolsonaro ia ser uma lufada de ar fresco”, mas as cedências ao centro, para se manter no poder, impediram de levar mais longe algumas vontades, explica.

Gabriel Lima refere que Bolsonaro “nunca foi liberal”, encontrando esse traço em Paulo Guedes, atual ministro da Economia. Contudo, acrescenta, as suas principais medidas foram sendo bloqueadas pelo próprio Bolsonaro, deixando o setor empresarial descontente.

Relacionados

Brasil

Mais Brasil

Patrocinados