Eleições: Lula diz que Brasil “tem uma dívida com o povo pobre”. Bolsonaro denuncia crime de propaganda eleitoral

Agência Lusa , DCT
25 out, 06:16
Eleições presidenciais brasileiras

A segunda volta da eleição brasileira acontece no próximo domingo, 30 de outubro.

O ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse na segunda-feira, em São Paulo, que o país tem uma dívida histórica com África e que, se for eleito, pretende estreitar relacionamento com os países daquele continente.

“Vamos voltar ao território africano. Vamos voltar porque o Brasil tem que compreender que (..) tem uma dívida de 350 anos de escravidão que (...) não vai pagar em dinheiro, (...) vai pagar em solidariedade, em transferência de tecnologia, compartilhando aquilo o que pode para ajudar os africanos”, disse Lula da Silva, ao defender mudanças na política externa do país.

“Eu e o [Fernando] Haddad fomos inaugurar em Moçambique uma universidade aberta, nós fomos inaugurar uma fábrica de remédios retrovirais para combater a Sida. Nós levamos a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] para Gana para ver se (...)transformava a savana africana no cerrado brasileiro [para agricultura], e é plenamente possível. Tudo isto acabou e nós vamos voltar para fazer a mesma coisa com mais eficiência”, acrescentou.

Lula volta a usar 'cartada' das menores venezuelanas

Durante o discurso, Lula da Silva atacou o rival na corrida eleitoral, o Presidente, Jair Bolsonaro, citando três factos que classificou como graves ocorridos no país nos últimos dias.

“Na semana passada um Presidente da República confundiu uma menina venezuelana de 14 anos e tratou como se fosse um objeto sexual”, disparou referindo-se a refugiadas venezuelanas que participavam num projeto social e que Bolsonaro disse acreditar que eram prostitutas.

Lula da Silva afirmou que a segunda coisa grave que aconteceu no Brasil foram manifestações racistas contra o cantor Seu Jorge, durante um show, em Porto Alegre.

“Ele fez um L com a mão e passou a ser chamado de macaco”, acusou, referindo-se ao gesto com as mãos, símbolo da sua campanha.

Por último, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) lembrou o ataque que o ex-deputado Roberto Jefferson, aliado de Bolsonaro preso no domingo depois de atirar sobre agentes da polícia, fez contra a juíza Carmen Lúcia do Supremo Tribunal Federal.

O ato de campanha, chamado “Ato em Defesa da Democracia e do Brasil”, foi organizado no teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

O local escolhido é simbólico para a democracia brasileira já que, em 1977, durante a ditadura militar, aquela universidade foi invadida por militares que detiveram centenas de estudantes que organizavam um congresso e resistiam ao regime.

“Jamais imaginei depois da nossa experiência de Governo que pudéssemos ter o retrocesso que tivemos”, afirmou Lula da Silva.

“Esse país tem uma dívida com o povo pobre, esse país tem uma dívida com o povo negro, esse país tem uma dívida com as mulheres e nós temos que pagar esta divida fazendo política”, acrescentou.

Noutro momento, Lula da Silva disse ter um compromisso com o Brasil e defendeu que se for eleito novamente provará que “é possível fazer política social, que é possível aumentar o salário mínimo sem aumentar a inflação".

"Já provamos que é possível”, acrescentou.

O candidato do PT também pediu que seus apoiantes ajudem a eleger Fernando Haddad, candidato que disputa o governo do estado de São Paulo contra o ex-ministro Tarcísio de Freitas, apoiado pelo Presidente brasileiro.

Antes do discurso do candidatos do PT, apoiantes da sua candidatura, como a senadora e ex-candidata presidencial, Simone Tebet, a ex-ministra e deputada eleita Marina Silva, a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, e líderes de movimentos sociais, falaram ao público.

Segundo as últimas sondagens, o ex-Presidente lidera a corrida eleitoral com cerca de cinco pontos percentuais à frente do atual governante, Jair Bolsonaro, que tenta a reeleição.

Campanha de Bolsonaro denuncia crime de propaganda eleitoral

A campanha do chefe de Estado de estado brasileiro denunciou que teve menos 154 mil espaços de propagada eleitoral na rádio que a campanha de Lula da Silva e o tribunal reagiu dizendo que quer provas.

“Em auditoria realizada após uma denúncia, foi levantado que várias rádios publicaram mais inserções do PT [Partido dos Trabalhadores] do que do Presidente, [Jair] Bolsonaro. De 07 a 21 de outubro, após dupla secagem, foi levantado o número de 154 mil inserções a menos para a campanha do Bolsonaro”, afirmou o ministro das Comunicações do Governo, numa conferência de imprensa agendada à ultima da hora no palácio da Alvorada, em Brasília.

“Isso é uma grave violação do sistema eleitoral. Estamos indignados e estamos tomando as medidas cabíveis junto ao TSE [Tribunal Superior Eleitoral]. Nós, que preservamos a democracia e direito de igualdade, queremos uma campanha limpa e justa”.

Segundo a campanha de Bolsonaro, a maioria desta alegada fraude eleitoral foi registada no Nordeste do país, conjunto de nove estados cuja população apoia na sua esmagadora maioria Lula da Silva na eleição presidencial que ocorre dentro de cinco dias.

TSE pede provas

Em resposta a esta denúncia, o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, declarou que a campanha de Bolsonaro não apresentou quaisquer provas e pediu que as apresente no prazo de 24 horas.

"Tal facto é extremamente grave, pois a coligação requerente aponta uma suposta fraude eleitoral sem base documental alguma, o que, em tese, poderá caracterizar crime eleitoral dos autores, se constatada a motivação de tumultuar o pleito eleitoral na sua última semana", frisou Alexandre de Moraes, citado na imprensa local.

Já na semanada passada, o tribunal tinha decretado que Lula da Silva teria direito a pelo menos 226 direitos de resposta no horário eleitoral do Presidente brasileiro, Bolsonaro, na televisão e rádio.

Esta decisão terá impacto em 50% do tempo dos programas de campanha de Bolsonaro. Estas decisões por parte de juízes do TSE dizem respeito a propagandas políticas feitas pela campanha do atual Presidente brasileiro consideradas falsas e que injuriavam Lula da Silva.

"A maior mentira dessa eleição é dizer que Lula não é ladrão. Votar no Lula é votar em corrupto", este é um dos exemplos, segundo a imprensa local, que o TSE considerou ilícito.

"A propaganda eleitoral impugnada é ilícita, pois atribui ao candidato à conduta de 'corrupto' e 'ladrão', não observando a legislação eleitoral regente e a regra de tratamento fundamentada na garantia constitucional da presunção de inocência ou não culpabilidade", considerou o juiz Paulo de Tarso Sanseverino.

Por outro lado, Bolsonaro conseguiu pelo menos 15 direitos de resposta do tempo de propaganda de Lula por peças que associam o Presidente brasileiro ao canibalismo.

Nessa semana o tribunal aprovou uma resolução com o objetivo de acelerar a retirada de notícias falsas da internet.

Luiz Inácio Lula da Silva venceu a primeira volta das eleições com 48,4% dos votos e Jair Bolsonaro recebeu 43,2%, pelo que os dois candidatos terão de se enfrentar numa segunda volta marcada para 30 de outubro.

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