"Bolsonaro armou a população de uma maneira inédita e a possibilidade de que aconteçam tragédias é real" (entrevista)

29 set, 16:19
Ruas de Brasília enchem-se de apoiantes de Jair Bolsonaro

A confirmarem-se as sondagens, que indicam a vitória de Lula da Silva, o jornalista Fernando de Barros e Silva não descarta a possibilidade de um ataque semelhante à invasão do Capitólio, nos Estados Unidos

Fernando de Barros e Silva é um jornalista brasileiro e diretor de redação da revista Piauí. Nos seus artigos de opinião, o jornalista lamenta que o Brasil tenha chegado a uma "situação terminal", que poderá tornar-se ainda pior caso o presidente Jair Bolsonaro seja reeleito para um segundo mandato. Por outro lado, a confirmarem-se as sondagens, que indicam a vitória de Lula da Silva, o jornalista não descarta a possibilidade de um ataque semelhante à invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, algo que tem sido apontado por alguns analistas políticos.

No início do ano, escreveu um artigo no qual designava a situação do Brasil como uma "situação terminal", e defendia a necessidade de "salvar as instituições da destruição". No seu entender, como é que o Brasil chegou a uma situação destas?

Começou em 2013, quando as manifestações contra o preço das passagens em São Paulo se transformou numa manifestação contra o governo de Dilma Rousseff. Em 2014, aquando da reeleição de Dilma (PT), o Aécio Neves, então candidato à presidência pelo PSDB, foi à Justiça eleitoral contestar o resultado da eleição. Essa contestação, à luz do que aconteceu posteriormente, foi um gesto inaugural da perda de rumo da nossa deterioração institucional. De 2014 a 2016, foram divulgadas as denúncias e evidências de corrupção no âmbito da Operação Lava Jato, seguiu-se o impeachment de Dilma que desembocou na prisão do Lula em 2018, impossibilitando a sua candidatura à presidência. Quando Lula foi preso, era o candidato favorito para ganhar as eleições. Isso resultou na eleição de Bolsonaro, que se vendeu como um outsider da política, um sujeito que questionava o sistema quando ele não era exatamente isso. Ele sempre foi um político de extrema-direita ligado à questão policial e aproveitou uma brecha na credibilidade da política para se projetar como salvador da Pátria, com um discurso messiânico, muito ligado à religião, a valores tradicionais. A eleição de Bolsonaro revelou um país muito violento, conservador e autoritário.

Considera que estas eleições presidenciais serão decisivas para salvar o Brasil desta "situação terminal", como assim a designa?

A eleição do próximo domingo é bastante decisiva. Existe a expectativa de que o Lula vença, talvez no primeiro turno. Isso faria uma enorme diferença, porque eu receio um segundo turno contra Bolsonaro. Serão quatro semanas entre o primeiro e o segundo turno, e se Bolsonaro for para o segundo turno, mesmo que ele não ganhe, vai ter uma chance imensa de tumultuar muito o país com consequências imprevisíveis.

Está a falar de um possível ataque semelhante à invasão do Capitólio, nos Estados Unidos?

Sim, eu acho que isso é uma possibilidade. Todas as indicações são de que isso pode acontecer. Espero que não aconteça, mas olhando friamente, é cada vez mais provável que isso aconteça. Eu acho que os comandantes das Forças Armadas não embarcarão numa coisa dessas, mas hoje em dia já não dá para ter certezas. O exército do Brasil não é o exército norte-americano. Diante de um episódio como aquele que ocorreu no Capitólio, não sabemos se as instituições terão força para reagir, sobretudo as instituições que devem cuidar da segurança. 

Mesmo que o Lula ganhe no primeiro turno, essa tensão que existe no Brasil não vai dissipar-se do dia para a noite, mas é muito diferente ter Bolsonaro a chegar ao segundo turno com cerca de 40% dos votos. Na melhor das hipóteses, ele sai derrotado no fim de outubro como líder da oposição, líder de extrema-direita legitimado por 40% dos votos. Por isso, eu acho que o país está diante de uma escolha que vai muito além do Governo dos próximos quatro anos. É realmente uma das escolhas mais importantes da história do Brasil em muito tempo.

Apoiantes de Trump invadem Capitólio, em janeiro de 2021 (Jim Lo Scalzo/EPA)

Há mesmo quem diga que estas são as eleições mais decisivas desde que o Brasil é uma democracia.

Concordo inteiramente, é isso mesmo que está em jogo. Hoje sabemos que é no segundo mandato que os governantes autoritários aceleram as mudanças, estrangulam o judiciário, fazem chantagem contra órgãos de imprensa, contra as universidades, asfixiam essas instituições. Estamos diante desse risco.

Considera que uma eventual segunda volta será mais favorável a Bolsonaro?

A segunda volta dá a possibilidade de tumultuar o processo e eventualmente vencer. Bolsonaro não é favorito, não o foi em nenhum momento, mas não sabemos como vai ser numa segunda volta. Esta extrema-direita brasileira é violenta. Bolsonaro armou a população civil de uma maneira inédita, há muita gente armada e a possibilidade de que aconteçam tragédias é real. Por isso, derrotar Bolsonaro na primeira volta seria um sinal eloquente de que 'basta', de que a democracia não vai ceder. Não tenho a ilusão de que ele não vai tentar tumultuar de qualquer maneira. Se ele perder na primeira volta, vai tumultuar na mesma, mas é diferente se estiver a disputar a eleição. 

Além disso, o vencedor da eleição só assume a presidência no primeiro dia de janeiro de 2023, portanto, vamos ter três meses - se a eleição se decidir na primeira volta - ou dois meses - se for no final de outubro - de muitas indefinições durante esse intervalo de final de mandato e em que o presidente eleito ainda não tomou posse. Aliás, foi nesse período que [Donald] Trump mobilizou a franja mais fanática dos seus seguidores. Algo nesse sentido vai ser tentado também no Brasil - espero que sem êxito.

Aliás, Donald Trump já levantava suspeitas em relação ao voto eletrónico meses antes das presidenciais de 2020, algo que Bolsonaro também tem vindo a fazer nos últimos meses.

Exatamente, e mesmo que ele [Bolsonaro] ganhe na segunda volta, ele vai dizer que ganhou na primeira, que foi roubado. Esse é o ADN dele, ele vive de fomentar esses delírios.

Em 2018, quando venceu Fernando Haddad na segunda volta, aconteceu precisamente isso. Bolsonaro utilizou esse mesmo argumento.

E não tem menor lastro da realidade. O Brasil tem muitos problemas, e muito graves, mas o sistema eleitoral não é um deles. As urnas eletrónicas nunca registaram problemas relevantes, elas são bastante confiáveis, isso já foi provado ao longo de muitas eleições. O Bolsonaro bate num problema inexistente para criar um problema real no Brasil, que é transformar uma discussão que não tem fundamento numa coisa que divide a sociedade.

Sente que, por força dessa divisão na sociedade, os brasileiros estão cada vez mais relutantes em mostrar publicamente qual o seu candidato favorito a vencer as eleições?

Existe sim essa autocensura. Se compararmos com eleições anteriores, por exemplo dos anos 90, era comum as pessoas saírem às ruas, tinham muitas bandeiras, colavam adesivos nos carros,... Hoje em dia vemos muito menos, porque as pessoas têm medo de serem agredidas, como já aconteceu, invariavelmente por setores de Bolsonaro, que são como que incentivados ou legitimados pela figura do presidente a fazer isso.

Esse medo foi inclusive medido por uma sondagem recente realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que é uma Organização Não-Governamental muito séria, e eles identificaram um medo inédito das pessoas em relação a manifestar a sua preferência política.

Não obstante, nos últimos dias estamos a sentir um aumento da esperança das pessoas que apoiam Lula, [pois] a perspetiva de que ele vença no primeiro turno é hoje maior do que há uma semana. Não sabemos se isso vai acontecer ou não, eu acho que até ao último momento vamos ficar nessa dúvida. Existe uma série de circunstâncias: a abstenção, o medo, a intimidação das pessoas, imprevistos de última hora, coisas que vão decidir para um lado ou para o outro. Mas existe no Brasil um sentimento - uma euforia quase - e uma expectativa de que o Lula possa vencer no primeiro turno.

Fernando de Barros e Silva diz que os brasileiros têm "medo" de manifestar a sua preferência política (Ernesto Benavides via Getty Images)

Tem uma posição muito clara em relação à chamada terceira via. Num artigo que escreveu recentemente, diz que esta alternativa "não passa de uma fantasia das elites". O que é que quer dizer com isso?

Porque não tem apoio popular. O PSDB sempre foi o partido de oposição do PT desde 1994 e isso acabou quando Bolsonaro foi eleito. A terceira via foi uma tentativa legítima de se construir uma alternativa política mais conservadora para evitar o regresso do Lula, que sempre foi muito forte. No momento em que Lula se reabilitou politicamente, houve preocupação de encontrar um nome mais consensual do que Bolsonaro, e durante muito tempo muitos acreditavam que esse nome seria Sergio Moro. Eu mesmo acreditei que Sergio Moro pudesse ter um desempenho melhor do que acabou por ter, porque ele encarnava um sentimento de combate à corrupção, era visto como um moralizador da política, estatuto que ele ganhou aquando da Lava Jato. Isso não aconteceu.

O facto é que a gente tem hoje uma direita no Brasil que é popular. Bolsonaro tem 30% dos votos apesar de ter feito o governo mais desastroso e trágico da história do Brasil, e cujas consequências o povo brasileiro vai sentir durante muito tempo, e isso vale para tudo - para a Amazónia, retrocessos na área da educação, na cultura, ambiente, etc. Estamos a ter uma espécie de desconstrução das conquistas da Nova República, que surgiram a partir da Constituição de 1988. Por isso é que eu acho que um eventual segundo mandato de Bolsonaro seria a ruína para o Brasil.

Além de Sergio Moro, outros nomes foram apontados como uma terceira via, como Simone Tebet e Ciro Gomes, mas as sondagens mostram que nenhum destes nomes se conseguiu posicionar como uma alternativa aos dois candidatos favoritos.

O PSDB não conseguiu nem viabilizar um candidato. Em relação à Simone Tebet, do MDB, as pessoas sabem que não vai dar em nada. Para ela, [esta corrida à presidência] pode ser interessante, pois vai sair da campanha com um nome mais conhecido no Brasil inteiro, podemos prepará-la para eleições futuras, mas ela não tem a menor chance.

O Ciro Gomes é um caso à parte, nem ele se identifica como terceira via. Ele foi durante muito tempo ministro do Lula e agora está a equiparar o Lula e o Bolsonaro como se fossem males equivalentes para o Brasil. O Ciro Gomes está numa campanha completamente desmiolada, a meu ver. Perdeu completamente o discernimento.

Recentemente, ele criticou a campanha do voto útil promovida por Lula da Silva, classificando-a de "fascismo de esquerda". 

Sim. Ciro Gomes não conseguiu nem fazer aliança com outro partido: ele é o candidato do PDT,  a vice dele é uma vice do PDT. O Ciro Gomes tem um perfil um pouco autoritário. Não como o Bolsonaro, mas tem uma atitude autoritária. Ele está a fazer uma campanha que parte de um equívoco de compreensão do que está em jogo nesse momento.

Ainda assim, tanto Simone Tebet como Ciro Gomes têm sido os favoritos do público nos debates televisivos.

A distância [nas intenções de voto] é tão grande, que não faz diferença. Esses debates são pouco vistos, na verdade, e acabam por ter pouco impacto. Hoje em dia, as redes sociais e outros fatores pesam muito mais [na escolha do eleitor].

Será por isso que Lula não terá ajustado a agenda de modo a conseguir participar neste segundo debate televisivo?

Eu preferiria que ele participasse nos debates, mas o que aconteceu foi um cálculo pragmático. Ele pôs na balança benefícios e perdas numa altura em que ele está prestes a ganhar à primeira volta, ele sabia que ia ser alvo de todos os candidatos, principalmente do Ciro e do Bolsonaro, que haveria ali uma espécie de junção de forças para atacá-lo, e que, não estando presente, mesmo que fosse criticado, as críticas cairiam um pouco no vazio.

Eu gosto sempre quando os candidatos participam, mas o facto é que a presença do Bolsonaro envenena tudo. Bolsonaro não é um democrata.

Os candidatos à presidência do Brasil num debate televisivo que ficou marcado pela ausência de Lula da Silva (Miguel Schincariol/GettyImages)

Portanto, considera que Lula não perdeu nada em não ter participado neste debate?

Não. Em termos de votos, não perdeu nada.

Como é que avalia a campanha eleitoral destas presidenciais? A ideia que passa é que acabou por ficar mais marcada por acusações entre os candidatos do que propriamente pelo debate dos problemas do país e apresentação de propostas para os resolver. Concorda com esta análise?

Isso é verdade, mas a questão principal desta eleição é a civilização contra a barbárie, a democracia contra o governo autoritário. Em relação a programas específicos, dificuldades do Governo, que projetos vai pôr em prática, etc., concordo que isso é pouco debatido. Mas a defesa da democracia está no centro da discussão e eu acho que isso é importante.

Uma parte da resposta a essa pergunta são as alianças que o Lula tem vindo a fazer - escolheu como vice Gerald Alckmin, que foi governador do São Paulo e era do PSDB, aproximou-se do Henrique Meirelles, que foi presidente do Banco Central no governo do Lula e é uma figura que tem respeito no mercado financeiro. Esse gesto do Lula já começa a definir o perfil do governo dele. O problema é que vai ter de conviver com uma extrema-direita ativa na sociedade e com condições económicas que não são favoráveis.

A confirmarem-se as sondagens, se Lula vencer as eleições, à primeira ou segunda volta, o que é certo é que o país que vai ter nas mãos será completamente diferente daquele que deixou em 2011.

Vai ser um governo bastante complicado. Não conseguimos nem projetar o que será essa semana, quanto mais daqui um mês. Este é um momento tão delicado no Brasil que eu acho que não teria outra pessoa mais adequada para assumir esse papel.

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