O dia vermelho de Rui Rio: entre Setúbal e Castelo Branco, será que sai a sorte grande?

19 jan, 00:52

Não foi um dia fácil para Rui Rio. Durante todo o dia caminhou por locais onde não é maioritariamente bem-vindo. Por isso, a mobilização foi menor, não houve buzinões de apoio e a bandeiras andaram a meia haste. Ainda assim, decidiu pedir “a sorte grande”

Setúbal e Castelo Branco. Dois territórios vermelhos e dominados pela esquerda, CDU e PS, respetivamente. Foi nestes terrenos pantanosos que Rui Rio andou nesta terça-feira, mas sem atropelos nem enchetes porque não foi grande a mobilização de apoiantes.

Nas arruadas das duas cidades, a bolha de segurança não foi sequer necessária. Rio tinha consigo dois seguranças que nem sempre estavam ao seu lado, seguiam uns passos mais atrás, descontraídos, mas atentos. Não havia motivos para alarme, porque, mesmo nas ruelas de Setúbal, entre comitiva, comunicação social e apoiantes, havia muito espaço para se circular. Cenário que se repetiu em Castelo Branco, sendo que, como as ruas eram mais largas e espaçosas, o cenário parecia menos composto. Bandeiras? Eram pouco mais de 30. E a JSD com sérias dificuldades em distribuir panfletos.

Rui Rio em campanha (PSD/João Pedro Domingos)
Rui Rio em campanha (PSD/João Pedro Domingos)

Mas não é para menos, Setúbal é o segundo pior distrito dos sociais-democratas. Nas legislativas de 2019, conseguiram 14,39% dos votos, com o PS a conquistar 38,58%. Para além disso, alberga quatro dos piores concelhos do PSD: Moita (9,15%); Alcácer do Sal (9,42%); Barreiro (10,22%); e Sines (22,23%). Para além disto, Setúbal conta ainda com a pior freguesia do continente para o partido laranja: dos 256 habitantes de São Martinho, apenas cinco votaram PSD em 2019. Este é dos distritos mais difíceis para o partido.

Volta e meia nas esplanadas da capital do choco frito ouviam-se frases atiradas ao ar, como “são um bando de tachistas”, “todos juntos não fazem um”. O desinteresse estava representado num bloco de bandeirolas abandonadas. O hino da campanha laranja tocou aqui menos vezes e as palavras de apoio a Rio eram tiradas à pressão. Até foi preciso pedir em voz de comando umas “bandeiras no ar”. Não fossem as letras garrafais das bandeiras e mostrarem o “PSD/PPD”, talvez se tivesse confundido a arruada de Setúbal com uma outra qualquer de um partido pequeno.

Nas ruas, se houve quem dissesse que “é preciso mudar”, também houve quem dissesse que “não fazem falta nenhuma”. Entre a JSD havia sempre mais esperança, falavam em “muita recetividade”, mas mais por parte das pessoas que votaram PS nas últimas legislativas.

“Aquelas que votaram PS podem fazer a diferença aqui em Setúbal”, disse o líder da JSD de Sintra enquanto tentava distribuir panfletos e lápis de carvão. O recado era sempre o mesmo: “Não vote com esse lápis no dia 30. Vá votar, mas com caneta”.

“Vê-se nos rostos das pessoas a recetividade”, garantia. E, de facto, cada vez que Rui Rio saía de uma loja ou de um café, lá dentro ficavam sorrisos, tapados pelas máscaras, mas percetíveis no olhar. Houve até quem esticasse dois dedos ao ar e fizesse o gesto do PSD.

Rui Rio em campanha (PSD/João Pedro Domingos)
Rui Rio em campanha (PSD/João Pedro Domingos)

Foi também com um sorriso que Rio entrou numa casa da sorte e lançou a frase desta arruada: “Se o PSD ganhar as eleições sai a sorte grande a Portugal”.

Seguia-se Castelo Branco, um distrito dominado pelo Partido Socialista. Nas últimas eleições conseguiram 40,88% dos votos, enquanto que o PSD se ficou pelos 26,33%. No entanto, há um pormenor curioso. Este distrito alberga a quarta freguesia mais social-democrata do país: Álvaro, no concelho de Oleiros. Aqui, em 2019, o PSD teve 73,85% das intenções de voto.

Foi essa simpatia pelo PSD que Rui Rio tentou passar nos estabelecimentos comerciais por onde entrou e pelas três ou quatro pessoas que foram cumprimentá-lo na rua. Mas a tarefa não era fácil. Assim que as equipas de televisão chegaram ao local da arruada houve um casal que perguntou – “Quem é que vai estar por aqui?” – respondemos que se tratava do presidente do PSD e a reação foi de desinteresse: “Ah…” e seguiram.

O ambiente só animou quando o social-democrata chegou à praça central e decidiu falar com quem estava nas esplanadas. Ao se aperceberem do movimento, apareceram três apoiantes de Rio para dar um bocadinho de gás à arruada: “Boa Sorte! Tudo de bom!”, “Tudo por si, hoje e sempre!”, “Muita força!”. Uma das apoiantes era Maria Trindade, reformada, que começou por dizer que a família toda votava no partido laranja: “Eu, o meu marido, as minhas filhas, as minhas netas... Vota tudo PSD!”. Uma das netas, que estuda Gestão numa faculdade em Lisboa, até faz parte das listas de Castelo Branco: “É a número dois”, atirou, orgulhosa, ela que, em chão socialista, diz que em tempos chegou a ser discriminada no trabalho por “votar diferente”.

“Mas é isso que é importante, é a diferença. Isto tem que mudar. Os socialistas têm de sair se não isto não muda. É a última oportunidade”. E é esta a sensação que se tem vivido nesta campanha junto dos militantes. A grande maioria acredita que esta é mesmo a última oportunidade para mudar o rumo do país.

Depois de alguns minutos à conversa com Maria Trindade – enquanto Rio tomava um café com a cabeça de lista Cláudia André e mais uns membros da comitiva - surge o marido. Um senhor pouco falador, mas que a primeira pergunta que fez foi: “Como andam as sondagens? O que é que saiu hoje? Ouvi dizer que o Rio está com uma distância de dez pontos para o Costa”. O tom era desanimador. Não se via a mobilização de Barcelos, Braga ou Lisboa. Mas ficaram contentes por saber que noutras cidades a imagem estava mais preenchida, mais laranja, mais efusiva.

Rui Rio em campanha (PSD/João Pedro Domingos)
Rui Rio em campanha (PSD/João Pedro Domingos)

 “Pode ser que seja como o Moedas”, rematou Maria Trindade, que, mesmo assim, confessou que Rui Rio é o seu candidato preferido de sempre. Porquê? “Porque fala a verdade, não tem medo de dizer as coisas. É puro e natural”. Pelos vistos, o trunfo Moedas não é utilizado apenas por Rui Rio nesta campanha legislativa.

O desafio estava terminado. Setúbal e Castelo Branco estão fechados. Quarta-feira o dia é passado no distrito de Guarda, o quinto mais forte do PSD a contar com a Madeira. E que tem outro dado curioso: a freguesia do empate. Chama-se Tamanhos e fica no concelho de Francoso. O nome explica-se com o facto de em 2019 PS e PSD terem empatado com 35,90% dos votos e o CDS-PP e o Bloco de Esquerda com 9,40%.

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