"Meteram uma cruz em Beja". PSD vem com cantigas que não convencem ouvidos cansados de promessas

25 jan, 21:50

Foi no pior distrito a nível nacional do PSD que Rui Rio sugeriu a António Costa que perdesse as eleições "com dignidade". Mesmo com a fraca mobilização em Beja, ainda há quem acredite numa viragem à direita

A caravana laranja andou, esta terça-feira, por Beja, onde os sociais-democratas conseguiram 13,29% dos votos em 2019, contra 40,71% do PS. Não admira que não houvesse tambores, que as bandeiras mal se mostrassem e que poucos reagissem aos gritos de vitória que saíam do megafone. À chegada, os fotógrafos oficiais da campanha disseram que tinham de "ser inteligentes" nos ângulos - naturalmente, para apanhar gente no retrato do dia.

Alguns dos apoiantes já anteviam o cenário. “O PSD aqui não tem grande implantação e, portanto, acho que não vai haver uma grande multidão”, antecipou Manuel, um apoiante local. Ainda assim, a fraca mobilização foi suficiente para parar o trânsito e provocar buzinadelas de apoio e de protesto. “Já buzinei ao Rui Rio. Buzino a todos os que não me deixam trabalhar”, explica Sónia Castro, enquanto espera dentro do carro que a comitiva passe rua fora.

No exterior da bolha que envolve Rui Rio e comitiva, os eleitores de esquerda faziam-se ouvir. António José Afonso, de 83 anos, não gostou da governação de José Sócrates nem de Pedro Passos Coelho.

“O Sócrates roubou muito, foi o que roubou mais, mas sempre me aumentou. No final do mês, recebia mais. Era poucochinho, mas recebia. Veio o Passos Coelho, tirou-me [dinheiro] e ainda não mo deram”. Confessa que de futebol percebe pouco "e de política nada”, mas, ainda assim, vota sempre.

PSD em campanha em Évora

"A Cabritinha" do Cabrita

Numa tertúlia com mais dois amigos, Domingos Rodrigues Calhana, de 81 anos, disse que nunca votou PSD porque tem “visto o que eles têm feito” - soando a queixume. José António segue pelo mesmo caminho, mas sem  arruadas: “PSD? Eu não vou”, disse-o, convictamente. Afinal, segundo Jorge Anisseto, “as arruadas do PSD são como outra qualquer” e sobre os políticos não tem memórias boas, queixando-se do abandono da região: “Meteram uma cruz em Beja”.

“A autoestrada está como está, o comboio não há meio de ser eletrificado e construíram um aeroporto que não usam. Mas quando é para terem três deputados vêm cá todos; antes disso, ninguém nos liga nenhuma”, lamentou.

Inês Mota Batista, candidata à Assembleia da República pelo círculo de Beja, deu toda a voz que tinha para puxar pela força laranja. Até criou uma nova versão da popular música "A Cabritinha", de Quim Barreiros.

“Quando eu nasci Costa já era do governo

Fui criado num país enjeitado

Mamei com Sócrates, troikas e centenos

Cresci assim desse jeito num país desgovernado

Hoje crescidos levamos com a geringonça

 

Passo o dia a chorar com as aventuras do Cabrita

Eu não quero andar, no carro do Cabrita

Eu não quero usar, as golas do Cabrita

Eu não quero ser estrangeiro, com o SEF do Cabrita

Dia 30 vamos votar para acabar com a panelinha”

Inês Mota Batista (PSD)

Nem assim o ambiente animou. Mas, no meio do descontentamento e revolta, ainda se encontravam bandeiras de esperança. “Nas sondagens dos meus amigos, temos o PSD a subir. Se os partidos da direita não existissem, o PSD ganhava”, comenta José de Caimoto e Sousa, 71 anos, militante desde que o partido foi fundado, em maio de 1974. Nasceu em Évora mas quando casou foi viver para Beja. Para ele nunca foi difícil ser laranja numa terra cor de rosa - antes vermelha comunista. Mas isso é porque existe “uma espécie de complexo de esquerda” no país que “impede que as pessoas tenham a liberdade a que têm direito”, diz do alto da sua sabedoria de vida.

Fernanda Caimoto foi a primeira mulher militante em Beja e sentiu-se desiludida com a fraca mobilização: “Está muito fraco”. Ainda assim, acredita que o país vai virar, ainda que não avizinhe uma governação nada fácil: “É lamentável que, mais uma vez, vamos ganhar as eleições e fazer o papel de maus. O partido está preparado para governar, mas o país não está preparado para ser governado porque não tem dinheiro. O país está falido. Aguardemos até ao dia 30”.

Rio sugere a Costa que "perca com dignidade"

Apesar da fraca mobilização, foi a António Costa que Rui Rio sugeriu que deveria aproveitar agora para “perder com dignidade”: “Acho que o Dr. António Costa está, efetivamente, na iminência de perder as eleições. E acho que ele, por aquilo que fez na política ao longo de toda a sua vida, que tem uma carreira política muito longa, podia perdê-las com dignidade”.

O presidente do PSD voltou a lamentar que se tenha baixado o nível da campanha e, repetindo que “é lamentável” que o PS continue a deturpar as propostas dos adversários.

"Espero que ele aproveite os últimos dias para, no caso de as perder, que é bem provável, que perca com dignidade. Não ande agora aqui a amedrontar as pessoas, a dizer que eu disse isto quando eu não disse, a dizer que eu menti aqui quando não menti”.

O PSD tentou levar novas cantigas para as ruas alentejanas que não convenceram os ouvidos já cansados de promessas. Faltam, agora, cinco dias para saber se a comitiva laranja vai ou não cantar vitória no próximo domingo.  

Rui Rio em campanha em Beja (PSD)

 

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