Campos de batalha: é nestes cinco distritos que PS e PSD têm de dar tudo por tudo

17 jan, 07:00
Debate entre António Costa e Rui Rio (CNN/ Armanda Claro)

Nas legislativas, explicam os politólogos, é a dimensão nacional que importa. Ainda assim, a tradição e os protagonistas locais podem condicionar (e muito) o resultado. Nestes cinco distritos pode decidir-se o vencedor da noite de 30 de janeiro.

LISBOA (e o efeito Moedas)

É deste círculo eleitoral que saem 48 dos 230 deputados na Assembleia da República. E, só por isso, pela dimensão, este já seria um campo de batalha decisivo. Nas legislativas de 2019, o PS conseguiu 20 deputados, contra os 12 sociais-democratas. Mas há agora outro elemento a juntar à equação: a vitória do PSD nas últimas autárquicas, contra todas as sondagens. Mas é de esperar que o “efeito Moedas” se replique a 30 de janeiro? Os politólogos antecipam que não. A vitória de Carlos Moedas, dizem, foi fruto de dinâmicas locais – em especial, o descontentamento com as políticas seguidas por Fernando Medina – e não nacionais. “Lisboa continua a ser representativa de algumas atitudes nacionais”, afirma António Costa Pinto. Já Paula do Espírito Santo lembra que o trabalho do PSD na principal autarquia do país é muito recente: “a haver influência, pode ainda não ser notória”. André Azevedo Alves alerta antes para o fenómeno da “desmobilização do eleitorado do PS” em Lisboa: ou seja, se houver um fluxo de eleitores semelhante ao das autárquicas, os sociais-democratas podem voltar a assumir a dianteira, perante a ‘preguiça’ dos socialistas em se deslocarem às mesas de voto – muitas vezes achando que, com base nas sondagens, a eleição está ganha.

Políticas de Fernando Medina, candidato nas listas do PS, ditaram mudança de cor política na capital

PORTO (e a notoriedade de Rio)

A forte ligação de Rui Rio ao Porto pode pesar na decisão do segundo maior círculo eleitoral, que contribui com 40 deputados ao todo. Em 2019, PS e PSD ficaram separados por apenas dois eleitos, com os socialistas à frente. Agora, os politólogos admitem que, além da tradição social-democrata neste distrito, a figura do presidente do PSD poderá ser determinante. “O Porto votará em Rui Rio porque é Rui Rio”, resume António Costa Pinto, lembrando os anos do social-democrata à frente da Câmara do Porto. Mas a notoriedade de Rio tem uma sombra: a autarquia é agora liderada por outro Rui, Moreira, que tem alimentado muitas tensões com Rio e deixado o partido órfão de uma grande figura na cidade: “joga contra o PSD”, reconhece André Azevedo Alves. Ainda assim, com um eleitorado indecisivo ao centro, o rosto familiar de Rio poderá ditar a escolha. “À falta de melhores argumentos, poderá captar algum eleitorado menos identificado ideologicamente com os partidos”, diz Paula do Espírito Santo.

Câmara do Porto foi liderada por Rui Rio entre 2002 e 2013

SETÚBAL (e a ausência de Jerónimo)

Em 2019, o PS venceu neste distrito. Mas falar de Setúbal implica reconhecer a forte tradição do PCP no distrito. Os politólogos ouvidos pela CNN Portugal não acreditam que a ausência parcial de Jerónimo de Sousa, devido a uma cirurgia urgente, possa moldar os resultados comunistas nesta geografia. O problema, explicam, é mais profundo. André Azevedo Alves e Paula do Espírito Santo classificam o eleitorado do PCP como “fiel” mas recordam a sua erosão a cada nova ida às urnas, em linha com o que acontece com os seus congéneres pela Europa fora. Quem fica a ganhar então? A restante esquerda e, em particular, o PS. E não porque tenha a líder parlamentar Ana Catarina Mendes como cabeça de lista, ressalva António Costa Pinto. Neste caso, diz, não é uma questão de protagonismo local.

Jerónimo só deverá voltar à estrada na última semana de campanha (Foto: Lusa/Estela Silva)

AVEIRO (e a ascensão de Pedro Nuno Santos)

Aveiro é um distrito com forte tradição social-democrata – vejam-se nomes como o de Salvador Malheiro ou o de Ribau Esteves no poder local. Mas o PS aposta forte (de novo) com um filho da terra com visibilidade nacional: Pedro Nuno Santos, visto (e demonstrado em sondagens) como o sucessor mais forte de António Costa à frente do PS. Em 2019, os socialistas conquistaram apenas mais um deputado do que o PSD - e querem agora reforçar a distância. O politólogo António Costa Pinto reconhece que o facto de Pedro Nuno Santos ser “um notável conhecido” pode ter impacto nos resultados do distrito no próximo dia 30, até porque o ministro tem estado à frente de dossiês que exigem pulso firme na governação. “As dinâmicas de figura pública acabam por provocar interesse”, acredita Paula do Espírito Santo. Mas o PSD promete dar luta neste que é um campo de batalha decisivo. “Parece-me que o voto em legislativas tende a ser determinado por fatores nacionais. O PSD para ter esperança de vencer [a nível nacional], tem de vencer em Aveiro”, conta André Azevedo Alves.

Pedro Nuno Santos volta a ser cabeça de lista por Aveiro (Foto: Lusa/Miguel A. Lopes)

BRAGA (e a hegemonia permeável)

Em 2019, PS e PSD conseguiram um empate em Braga: oito deputados cada. Ainda assim, os socialistas conseguiram mais votos, confirmando a sua hegemonia neste distrito. Os especialistas reconhecem que Braga é um distrito “permeável” e importante para o resultado final do país. Apesar de reconhecer que “será difícil inverter-se o ciclo de dominância o PS”, Paula do Espírito Santo destaca um perfil de eleitor mais conservador em Braga, num distrito onde a religião é ainda muito influente. E é desse traço, assim como da emergência de uma classe média com crescente poder de compra (e, logo, mais ligada a valores do centro-direita), que o PSD poderá tirar partido. André Azevedo Alves remata que o resultado dos sociais-democratas poderá ser determinado pela forma como os sociais-democratas lidam com os eleitores perdidos pelo CDS-PP, “capitalizando-os” ou deixando-os fugir para o Iniciativa Liberal ou o Chega, ainda mais à direita.

Braga tem-se afirmado como centro urbano (Foto: Lusa / Hugo Delgado)

O perigo dos pequenos, que não convém “subestimar”

Se a disputa tende a ser entre o PS e o PSD, os especialistas deixam o aviso: é preciso não “subestimar” a mossa que os pequenos partidos podem fazer, em especial nos principais centros urbanos.

Em Lisboa, o Livre poderá ser o caminho para um “eleitorado de esquerda, urbano, que não gostou do fim da geringonça”, diz António Costa Pinto. Entre os especialistas, há o consenso de que o Bloco será mais penalizado do que o PCP nas urnas por ter precipitado a queda da geringonça e do próprio Governo do PS.

Já em Setúbal, diz Paula do Espírito Santo, o PAN poderá voltar a tirar vantagem da (longa) queda comunista e eleger – tal como aconteceu em 2019 com Cristina Rodrigues, que acabaria por passar a não inscrita.

Por fim, no Porto, juntam os especialistas, o Iniciativa Liberal poderá recolher frutos do facto de ter alguns dos seus principais nomes a desenvolver atividade política a partir da Invicta.

Cada círculo eleitoral tem um impacto diferente na definição do Parlamento

Os quatro “alinhados”, que ditam tendências

Lisboa, Porto e Braga são o que se podia chamar de distritos “alinhados”: desde 2005, pelo menos, que o partido vencedor nestes distritos corresponde sempre ao partido vencedor a nível nacional.

Também em Santarém se segue esta tendência. Curiosamente, somando o número de deputados eleitos por estes quatro círculos, obtém-se 116 parlamentares – ou seja, mais de metade dos 230 lugares do Parlamento.

A tendência destes distritos “alinhados” verifica-se inclusive quando há alternância a nível nacional. Assim, em 2005 e 2009 deram a vitória ao PS, em 2011 e 2015 à coligação formada pelo PSD e CDS-PP, e em 2019 novamente ao PS.

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