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Diretor de Informação da TVI

Um país que não anda, arrasta-se

21 jan, 08:04

Da série “Eu não quero este país”, e a propósito dos (poucos) temas políticos que têm marcado esta campanha, não deixa de ser deprimente continuarmos com as mesmas discussões, durante anos – por vezes décadas –, gastando milhões aos contribuintes e sem nunca sairmos do mesmo sítio. 

Tomemos como primeiro exemplo o novo aeroporto de Lisboa, uma necessidade identificada há mais de 50 anos, tantos quantas as voltas que a terra já deu ao sol. Alarga-se a Portela ou vamos para a OTA? A Portela já não tem espaço e a OTA não é propriamente o melhor sítio para aterrarem aviões. O melhor mesmo é atravessar a ponte e construir o dito na margem sul. E, já agora, constrói-se mais uma ponte, que faz sempre falta. Mas onde na margem sul? Em Alcochete? Ou no Montijo? No Montijo é chato, parece que anda por lá uma passarada e o terreno é pantanoso. Vamos então para Alcochete, mas o problema é o mesmo. Raio dos pássaros que não nos deixam fazer um aeroporto novo! “E Sintra?”, gritam alguns. “E Monte Real”, gritam outros. “Porque não Beja?”, grita o PAN. Assim como assim, já tem um aeroporto e as moscas que por lá andam até nem se incomodam muito que ali aterrem uns aviões. 

Onde está mesmo o novo aeroporto? Nos intermináveis estudos sobre a sua localização e nos milhões gastos em consultoras e empresas de arquitetura, que vão lucrando dinheiro fácil pago pelos contribuintes.

Eis-nos em 2022. Sem novo aeroporto e ainda a discutir uma decisão que já esteve tomada várias vezes, mas não acontece jamais. E quem fala de aeroporto pode também falar da ferrovia. Não há político em campanha que não vá dar a sua voltinha de comboio. Não é o futuro, é o presente. Mas em Portugal são poucos, lentos e não respondem às necessidades de uma população que continua escolher andar de carro, em vez de ficar a ver passar os comboios a abarrotar de gente.

Já se prometeu tudo e cumpriu-se sempre o seu contrário. Dos primeiros-ministros que nos prometeram a alta velocidade aos que tiraram o pé do acelerador e ficaram-se pela velocidade alta, duas décadas depois continuamos a discutir a ferrovia, a cada campanha, como se fosse sempre a primeira vez.

Outro tema recorrente é o da saúde. Um médico de família para cada português, o fim das listas de espera e condições dignas para quem tem o infortúnio de acabar numa cama de hospital. É correr os programas de todos os partidos ou ligar a televisão às oito da noite, que as promessas vão-se repetindo a cada eleição, como se os partidos estivessem sempre a inventar a roda e fôssemos todos desmemoriados.

Sobre a nossa incrível capacidade em arrastar problemas, não nos podemos esquecer dos bancos. Os que foram nacionalizados ou os que foram “resolvidos” pelo Estado, que deixam faturas perpétuas aos desgraçados que as vão pagando com os seus impostos enquanto os políticos se vão entretendo a atirar culpas de uns para os outros. Isto para já não falar da justiça, que precisa de mais anos para julgar os eventuais culpados do que os anos de vida que lhes sobram.

O que nos leva à reforma da justiça, implorada por todos os que dela fazem parte e por mais uns quantos que dela são vítimas, mas que continua a ser “debatida” a cada campanha, a cada eleição. 

Ou à reforma administrativa do país — chamem-lhe regionalização ou descentralização, como preferirem —, que continua a esbarrar na falta de coragem política para a fazer.

Fôssemos nós tão eficazes a resolver problemas como somos a discuti-los e, seguramente, não estaríamos onde estamos. 

Alguém me dizia esta semana que a única forma de fazer reformas em Portugal é dando uma maioria absoluta a um partido. O argumento pode até parecer sólido se pensarmos apenas no alcatrão que Cavaco Silva espalhou pelo país ou nas eólicas que agora fazem parte da nossa paisagem, com os cumprimentos de José Sócrates. Mas, em tudo o resto, de que adianta uma maioria absoluta que – admitamos – reforme a justiça, a saúde e tudo o mais que seja preciso reformar, se na alternância política, própria da democracia, a primeira “reforma” do partido que se segue é desfazer tudo o que foi feito antes? Para que quer António Costa uma maioria absoluta nestas eleições, se o seu programa de governo é um orçamento chumbado da esquerda à direita e onde não consta uma única reforma?

Ganhe quem ganhar as eleições do próximo dia 30 de janeiro, se os partidos – os que tiverem esse sentido de responsabilidade – não conseguirem encontrar uma plataforma mínima de entendimento sobre o que há anos é urgente resolver no país, vamos continuar a arrastarmo-nos. E, garanto, nas próximas eleições legislativas, vamos estar a discutir exatamente os mesmos problemas.

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