Fernanda Tadeu: ela é o maior apoio de Costa (e com ele desceu o Chiado, à procura da vitória)

28 jan, 19:45

No último dia de campanha, o decisivo, António Costa joga em casa. E casa significa também Fernanda Tadeu. A mulher que o acompanha desde a juventude, o seu “equilíbrio”. Juntos percorreram uma das últimas etapas desta corrida, o Chiado. Domingo querem celebrar mais uma vitória. Juntos

Vem de casaco amarelo, a cor da luz e da alegria, para o último momento de campanha. De rosa na mão. O povo habitou-se a vê-la mas nem sempre lhe sabe o nome. “É a mulher do Costa”, ouve-se muitas vezes na rua. Ela é Fernanda Tadeu.

Observá-la ao longo das últimas duas semanas ajuda a perceber o papel que tem para o secretário-geral do PS. Na rua, mesmo no meio da multidão, seguem quase sempre de mãos dadas. E mesmo quando o ambiente aquece, desentrelaçam-se os dedos mas não a ligação.

Podia dizer-se que Fernanda Tadeu escolhe criteriosamente onde marcar presença. Se há rua, se há festa, lá está ela. Enquanto o marido se desdobra entre eleitores, é vê-la a dançar, a agitar flores, a soltar gritos de apoio, a conversar, a reconfortar os mais velhos. À noite, nos comícios, é mais raro encontrá-la. Mas nos momentos altos, como o do penúltimo dia no Pavilhão Carlos Lopes, tem sempre lugar marcado.

António Costa e Fernanda Tadeu em Podence (Lusa/Miguel A. Lopes)

Em Portugal, a figura de primeira-dama não tem o peso de outros países, mas ela sabe como vestir-lhe o fato – ou o cachecol, socialista, que envergou numa das arruadas – sem se desligar de si mesma. Numa entrevista recente, insistiu que “ninguém define uma pessoa por ser mulher ou marido de alguém”. “Uma pessoa é um projeto único, é alguém que tem um percurso que é pessoal, que tem objetivos, ambições e metas a transpor”.

Fernanda Tadeu foi educadora de infância, deixou mais cedo a profissão por não quer comprometer a missão por falta de energia. Foi, curiosamente, também na escola que conheceu António Costa: no Liceu Passos Manuel, em Lisboa. Casaram-se em 1987, tiveram dois filhos: Pedro e Catarina. E aprenderam, passo a passo, a fazer o caminho em conjunto.

No meio das multidões da campanha, Fernanda Tadeu vai trocando segredos com o marido. Ele sabe que a opinião dela conta, inclusive para as decisões políticas. E ela nunca se coibiu de lha dar. Assim como o espaço que o marido precisa para o seu papel. Mas, no final, ele lá a procura de novo. Como na visita ao mercado de Matosinhos, de onde Costa sai levado em ombros.

Em Leiria, Fernanda Tadeu esteve em contacto com a população (Lusa/Miguel A. Lopes)

Com os pés na terra, ouve-se chamá-la. “Fernanda, Fernanda”. Estica-lhe a mão e ela volta para junto dele. Discreta, de sorriso no olhar. E modesta. Porque, em Matosinhos, à pergunta da CNN Portugal “É a força do seu marido?”, responde que não. “Não, a força dele é tudo isto”. A campanha, a rua, o partido.

Mas ele, pelo menos, tem uma sensação diferente. Dias antes, em Santarém, um militante diz ao líder do PS que precisa de ter mais calma, de um chá. E Costa aponta para a mulher e resume: “É o meu equilíbrio”.

Na Guarda, a mulher de António Costa alinhou logo numa ginginha para responder ao frio (Lusa/Miguel A. Lopes)

Em casa, numa arruada de obstáculos

Fernanda Tadeu e Lisboa são sinónimos de casa para António Costa. E é em casa que o secretário-geral do PS aposta no último dia de campanha. A tradicional descida do Chiado volta a fazer-se, desta feita numa versão mais curta entre a Rua Nova da Trindade e a Rua do Carmo. Não caiu nenhum, apesar da intensa mancha socialista. Versão mais curta talvez pela má memória de 2019, em que Costa quase chegou a vias de facto com um idoso que o acusava de estar a passar férias enquanto Pedrógão Grande ardia - algo que não aconteceu, de facto.

Mesmo em casa, e rodeado de rostos próximos do partido, o caminho não deixa de ser uma corrida de obstáculos – como a própria campanha, feita quase sempre em empate técnico com o PSD. "Cheira bem, cheira a Lisboa", toca a banda. Na capital, o fantasma das sondagens é trazido pelas últimas autárquicas, com o nome de Carlos Moedas. Ninguém por aqui quer repetir o cenário. Mas segue-se. Há esplanadas, pilaretes e vendedores ambulantes que se recusam a levantar os seus pertences do chão. E a bolha socialista não vê outro remédio que não seja adaptar-se. “À esquerda há espaço”, ouve-se.

Esta foi a mancha socialista no Chiado, no último dia de campanha (Lusa/Miguel A. Lopes)

Numa baixa lisboeta entregue praticamente aos turistas, não faltam “selfies”, a fazer lembrar outro protagonista político: Marcelo Rebelo de Sousa. E, no momento das perguntas, o nome lá entra na arruada. Costa é questionado se Marcelo irá escolher o partido mais votado para formar Governo. E responde apenas: “O senhor Presidente da República decidirá”.

Também há tempo para falar de Rui Rio, o “adversário muito empolgado e a decretar por antecipação os resultados, a distribuir as pastas entre ele e os outros partidos, a escolher ministros”. O atual primeiro-ministro prefere esperar por domingo, pelo voto, perante a incerteza dos resultados. Já ele deixou de pedir maioria absoluta, diz, porque essa é "a vontade dos portugueses".

"Selfies" não faltaram na última arruada. Fernanda Tadeu seguiu ao lado de Costa (Lusa/Miguel A. Lopes)

As idosas escolhidas a dedo para Costa

A meio do percurso, junto aos Armazéns do Chiado, há uma outra caravana. Do ADN - Alternativa Democrática Nacional. Não são mais do que 20, todos sem máscara, a comprovar o negacionismo do partido. Uma das mulheres grita “Liberdade sim, ditadura não”. E os socialistas que descem a rua antes de Costa vão tentando abafar o confronto, gritando ainda mais alto. A polícia forma então um cordão de segurança, para que a grande arruada passe sem qualquer problema.

“What’s his name?”, perguntam quatro jovens estrangeiros, enquanto a banda toca o “Mestre da Culinária”. Receitas de governação só depois de dia 30, porque ainda há muito eleitor em banho-maria, que é preciso conquistar. Enquanto isso, um dos jovens socialistas vai escolhendo a dedo idosas nos passeios. “Quer dar-lhe um abraço? Então venha comigo”. E elas lá vão furando a bolha, na esperança de à noite se verem nas televisões.

Nem uma hora passa e a arruada chega ao fim. Costa sai prometendo um “combate sem tréguas pela precariedade e pela habitação acessível”. Apanha o carro, rumo ao Porto, para o derradeiro momento de campanha: o comício no Pavilhão Rosa Mota.

António Costa no Pavilhão Rosa Mota, no Porto (Lusa / Miguel A. Lopes)

O derradeiro momento. Costa quer trabalhar já na segunda

À noite, um momento de reconciliação. Francisco Assis sobe ao palco, matando as “saudades” dos comícios socialistas. Ele, que foi crítico da geringonça erguida por Costa, vem agora pôr as diferenças de lado. “António Costa, é sabido que tivemos as nossas divergências. Mas onde é que eu haveria de estar senão aqui? Por muito significativas que tenham sido as nossas divergências, são muitíssimo maiores as nossas convergências”. Até porque o antigo eurodeputado está convicto de que o “prestígio único” de Costa a nível europeu irá facilitar a desejada recuperação nos próximos anos.

Com as feridas saradas e a força do apoio, o secretário-geral do PS sobe ao palco. Para o último momento da campanha, depois de duas semanas na estrada. Aqui chega “com a consciência tranquila” e pronto para continuar o trabalho no Governo. “Saio desta campanha eleitoral revigorado, com energia, para na próxima segunda-feira recomeçar de novo o trabalho que quiseram interromper”.

Francisco Assis e António Costa fazem as 'pazes' no último dia de campanha (Lusa/Miguel A. Lopes)

Domingo, insiste, é o dia de “pôr termo a esta irresponsável crise política que foi aberta” e iniciar novos diálogos. À esquerda, fica o aviso de que “é preciso dizer não, quando querem dar um passo maior do que a perna”. À direita, uma nova colagem do PSD ao Chega: “Que ninguém seja ingénuo. Como não há almoços grátis, não há viabilizações grátis”.

E eis que surge o derradeiro apelo ao voto. “Porque cada voto que seja desperdiçado, é um voto que não dá força para continuarmos a avançar. E o caminho é para a frente, para a frente, para a frente, para a frente Portugal”. Agora, sim, está mesmo nas mãos dos portugueses.

Uma vez mais, Fernanda Tadeu esteve ao lado do marido, para o derradeiro momento da campanha (Lusa/Miguel A. Lopes)

 

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