A quatro mandatos de se confirmar ou não o fim do PS num dos dois primeiros lugares em Portugal - o que vamos ficar a saber no próximo dia 28, aquando do apuramento dos círculos eleitorais da emigração - importa saber o que significa para o partido deixar de ser líder da oposição
"Pedro Nuno Santos deixa o PS, quase de certeza, num terceiro lugar” na Assembleia da República, vaticina à CNN Portugal o politólogo José Filipe Pinto, tendo em conta que “é muito provável que os votos da diáspora sejam favoráveis ao Chega”. Confirmando-se esse cenário, o PS, que fica “numa situação muito complicada”, vai ser, ainda assim, “o único partido que vai continuar a ter grande capacidade de influenciar as políticas do Governo”.
Do ponto de vista formal, pouco se altera: na prática, a segunda força política tem o privilégio de ser a primeira a intervir logo após o Governo nos debates parlamentares e nas reuniões com o Presidente da República, segundo Fernando Negrão. Para o antigo líder parlamentar do PS, “a grande mais-valia de ser o primeiro partido da oposição” é mesmo o facto de se assumir como “líder da opinião pública” e a perceção de que “está mais perto do poder”.
É no campo da perceção que José Filipe Pinto afirma que o terceiro lugar do PS nestas eleições “implica o descrédito de Pedro Nuno Santos” e a “condenação da sua linha mais radical, mais esquerdista dentro do PS, que era muito próxima do Bloco de Esquerda”. Pedro Nuno Santos acabou por assumir a responsabilidade pelos resultados, despedindo-se dos militantes como um “até breve” - “à boa maneira de Pedro Santana Lopes”, compara o politólogo.
Ainda assim, continua José Filipe Pinto, “o único partido que vai continuar a ter grande capacidade de influenciar as políticas do Governo é o PS”. Isto porque os socialistas não têm agora “outra alternativa” senão viabilizar o programa de Governo da AD, mas para isso podem exigir como contrapartida garantir que seja ouvido “sempre que haja negociações sobre as grandes linhas do programa”. O Chega só o faria com a contrapartida de integrar o Governo, e, segundo José Filipe Pinto, está claro que Luís Montenegro vai “manter o não é não” a André Ventura - apesar de a sua resposta na noite eleitoral sobre este ponto ter deixado margens para dúvidas.
"Todos perdem, todos, todos, todos"
De resto, prossegue o politólogo, “todos os outros partidos perdem” capacidade de influência, tendo em conta o número de deputados que elegem, sobretudo à esquerda, onde houve “uma grande transferência de votos do Bloco para o Livre”. Apesar de não haver “uma grande diferença” em termos ideológicos entre estes dois partidos, a verdade é que “o Livre soube capitalizar” nestas eleições, apostando num “discurso mais moderado, menos crítico da União Europeia e com uma atitude mais moderada relativamente à Ucrânia.”
A “hecatombe” do Bloco de Esquerda, que perdeu o grupo parlamentar, ficando reduzido a uma deputada, deve-se ao “retrocesso” do partido, assume José Filipe Pinto, sublinhando que “o regresso às origens” do Bloco, que chamou para as listas três grandes figuras do partido, “mostrou-se contraproducente”.
“Mariana Mortágua não prestou um bom serviço ao partido nem à democracia, as bandeiras que levantou não colhem junto do eleitorado português”, afirma o politólogo.
O PCP, por sua vez, “conseguiu não passar à indigência”, complementa o politólogo, apontando que o partido de Paulo Raimundo continua a ter um grupo parlamentar, apesar de ter perdido um deputado.
“O PCP tem um ativo que o Bloco de Esquerda e o Livre não têm, que é a luta contra o antigo regime. Só que quem se lembra dessa luta é uma geração que está a desaparecer em função da idade. Apesar de o PCP fazer questão de apresentar muitos jovens na sede de campanha do partido, é um partido envelhecido e não soube envelhecer”, diz José Filipe Pinto, que considera que Paulo Raimundo ainda conseguiu “minimizar os danos” do destino já vaticinado pelo politólogo.“É evidente que os portugueses não se reveem num partido marxista-leninista.”
