Fundos da União Europeia ajudaram a financiar milhares de projetos na Hungria, mas muitos são criticados como inúteis, inacabados ou exemplos de má gestão e possível corrupção. Com parte dos financiamentos agora bloqueados por preocupações com o Estado de direito, o tema tornou-se central nas eleições
A placa anuncia com orgulho que a rotunda perto de Zalaegerszeg, no oeste da Hungria, foi construída com 500 milhões de forints (cerca de 1,3 milhões de euros) provenientes de fundos da União Europeia.
A rotunda foi construída para servir um terminal de contentores numa nova linha ferroviária que ajudaria a proporcionar a esta parte sem saída para o mar da Europa Central um melhor acesso ao mar. Em vez de terem de passar por Budapeste, a capital da Hungria, as mercadorias que chegassem da costa do Adriático transitariam rapidamente pelo oeste do país até à Eslováquia, à República Checa, à Polónia e mais além.
Mas há um problema. Anos depois de a rotunda ter sido construída, ainda não existe qualquer linha ferroviária. Em vez disso, a rotunda permanece inutilizada num campo, à espera que o governo húngaro construa a ferrovia que a tornaria útil.
Os críticos do primeiro-ministro Viktor Orbán dizem que projetos de construção financiados pela UE como este são um monumento ao sistema económico que o seu governo construiu ao longo dos seus 16 anos no poder. O sucesso eleitoral de Orbán, afirmam, tem combinado uma demonização incessante da UE - retratando-a como uma força decadente, liberal e corruptora na Hungria - enquanto aceita, de bom grado, grandes quantidades de dinheiro proveniente da mesma.
Grande parte desse dinheiro veio de iniciativas destinadas a ajudar os membros mais pobres e mais recentes do bloco - muitos dos quais fizeram parte do Pacto de Varsóvia - a aproximarem-se dos seus vizinhos mais ricos no Ocidente. Mas, antes da eleição parlamentar decisiva no domingo, os opositores perguntam o que é que a Hungria tem para mostrar com todo este investimento, apontando para uma série de projetos que consideram de vaidade, e construções inacabadas ou desnecessárias.
"Orbán foi o maior rent-seeker da União Europeia na década de 2010. Foi uma estratégia consciente", afirma à CNN Krisztián Orbán (sem relação familiar), fundador da Oriens, uma empresa de investimento na região. Destaca também o sucesso do governo em captar os fundos atribuídos, em comparação com os seus vizinhos, acrescentando que Orbán "foi capaz de trazer uma quantidade enorme de dinheiro da UE".
A rotunda perto de Zalaegerszeg, inicialmente reportada pelo site de investigação húngaro Atlatszo, é um dos dezenas de milhares de projetos na Hungria que receberam financiamento da UE desde que Viktor Orbán chegou ao poder. Tibor Navracsis, ministro do desenvolvimento regional, disse no ano passado ao parlamento húngaro que a UE financiou 52 mil projetos no país durante o período orçamental de 2014-2020.
István János Tóth, diretor do Centro de Investigação da Corrupção de Budapeste, que é natural de Zalaegerszeg, considera que a rotunda é um exemplo claro de um "elefante branco" - um projeto de construção dispendioso, tanto na construção como frequentemente na manutenção, mas que oferece pouco valor.
"Sem os fundos europeus, Orbán não teria conseguido estabelecer este tipo de sistema", afirma em declarações à CNN.
A organização de monitorização da corrupção Transparency International classificou a Hungria como o país mais corrupto da UE. A CNN pediu comentários ao ministério dos Negócios Estrangeiros da Hungria e ao gabinete do primeiro-ministro. O governo húngaro costuma negar as acusações de corrupção ou acusar os seus opositores de serem corruptos.
As obras da rotunda começaram durante o atual período orçamental da UE, que decorre até 2027. Após adquirir um terreno, a Metrans - uma empresa de logística que opera na região - planeava construir um terminal de contentores ligado à nova ferrovia, também prevista para construção.
Numa cerimónia em 2021, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria, Péter Szijjártó, lançou a primeira pedra do novo terminal. Até ao final de 2023, o município local - com a ajuda de fundos da UE - tinha construído a rotunda que iria apoiar a logística em torno do terminal, esclarece à CNN Zoltán Balaicz, presidente da câmara de Zalaegerszeg.
Mas quando a CNN visitou o local em abril, não havia sinais de que a construção da ferrovia planeada tivesse começado. Balaicz afirma que o projeto ainda se encontrava na fase de concurso público. Quem vencer o contrato terá mais de dois anos para construir a linha, segundo o Atlatszo, o que significa que a ferrovia - se for construída - poderá não estar pronta até 2029.
A rotunda perto de Zalaegerszeg não é o único projeto inacabado ou pouco útil na Hungria a ter recebido fundos da UE. David Pressman, antigo embaixador dos EUA na Hungria, disse durante o seu mandato que os projetos de construção nem sempre correspondiam ao que prometiam.
"Que vista extraordinária de outro dos ‘passadiços florestais’ financiados pela UE na Hungria, em Hatvan", escreveu nas redes sociais em 2024, quando publicou fotografias suas num passadiço - sem floresta à vista.
Outros exemplos, reportados pelos media húngaros, incluem uma "torre de observação" destinada a oferecer vistas aos turistas, mas que tem menos de um metro de altura.
Os críticos dizem que a Hungria está repleta de projetos deste tipo, frequentemente financiados pela mesma instituição que Orbán critica.
"Em vez de enfrentar uma economia que se desmoronou, Orbán aponta para forças externas hostis… que supostamente ameaçam os húngaros e a identidade húngara", afirma Pressman.
"É muito mais fácil para o líder do país classificado como o mais corrupto da União Europeia falar de ‘lutas civilizacionais’ do que explicar a riqueza extraordinária que a sua família acumulou enquanto o seu povo e a sua economia sofrem", continua.
Alegações de "interferência"
A questão dos fundos da UE está a desempenhar um papel significativo na campanha para as eleições parlamentares de domingo.
Desde 2022, a Comissão Europeia tem retido fundos à Hungria devido a preocupações com o retrocesso democrático e a independência judicial. No ano passado, cerca de 18 mil milhões de euros permaneciam bloqueados - representando cerca de 10% do PIB do país. No final do ano passado, membros do Parlamento Europeu voltaram a levantar preocupações sobre violações do Estado de direito na Hungria, bem como corrupção e "má utilização de fundos da UE".
Krisztián Orbán afirma que o fluxo de fundos da UE durante a primeira década do mandato de Orbán significou que "ele conseguiu escapar a muitas coisas, incluindo corrupção, incluindo negligência dos serviços públicos, porque conseguiu garantir melhorias constantes nas condições de vida de pessoas que não estavam habituadas a isso". Agora que esses fundos estão bloqueados, esse equilíbrio está a desfazer-se, considera o economista.
Orbán e os seus aliados, incluindo o vice-presidente dos EUA JD Vance, que viajou esta semana para Budapeste para apoiar o primeiro-ministro, acusaram a UE de interferir nas eleições húngaras devido à retenção de fundos. A Comissão mantém que os Estados-membros da UE devem respeitar o Estado de direito para receber financiamento.
Péter Magyar, líder do partido da oposição Tisza, prometeu desbloquear os pagamentos da UE ao responder às preocupações do bloco sobre o retrocesso democrático na Hungria. Tem feito uma campanha intensa contra a corrupção, acusando Orbán e os seus aliados de se enriquecerem enquanto o país empobreceu. Ainda assim, Magyar enfrentaria um desafio significativo para cumprir as exigências da UE e desbloquear parte dos fundos antes do prazo de 31 de agosto.
O partido Tisza tem mantido uma vantagem de dois dígitos sobre o partido Fidesz de Orbán na maioria das sondagens há mais de um ano. Embora uma vitória de Magyar significasse o fim daquilo que o especialista em corrupção Tóth descreve como a abordagem de Orbán de "morder a mão que o alimenta" em relação à UE, a Hungria continuará a precisar de ajuda financeira de Bruxelas - incluindo em Zalaegerszeg.
Balaicz, o presidente da câmara, afirma que, assim que o governo húngaro construir a ferrovia planeada, o município poderá então construir uma segunda rotunda para apoiar a logística em torno do terminal de contentores. Isso custará mais 954 milhões de forints (cerca de 2,5 milhões de euros), também provenientes de um fundo da UE.