A Hungria mudou, mas pode não ter sido na direção que muitos esperavam. A queda de Orbán encerra um ciclo político que marcou profundamente o país e a União Europeia, mas o que surgirá no seu lugar permanece em aberto. Na noite que marca a maior ida de sempre dos húngaros às urnas, a grande questão não é apenas o que terminou. É antes sobre aquilo que, silenciosamente, pode estar a começar
Os relógios marcavam 21:24 quando Viktor Orbán subiu ao seu palanque em Budapeste - habitualmente montado e decorado de laranja para celebrar mais uma vitória - para, em vez disso, anunciar a derrota. "O resultado destas eleições é doloroso, mas é claro. Já felicitei o partido vencedor". Foi desta forma que acabaram 16 anos de governação, até aqui ininterrupta. Um ciclo político longo, marcado pela concentração de poder, pela reconfiguração das instituições e por uma relação de confronto com Bruxelas.
No entanto, a história desta eleição não se escreve apenas na queda de um líder. Escreve-se também na forma como aconteceu. Estas foram as eleições mais participadas de sempre na Hungria. Logo nas primeiras horas de votação, os números ultrapassavam todos os registos anteriores. Recorde atrás de recorde. Pelas 18:30, as urnas fechavam-se quando 80% já lá tinha ido deixar o boletim.
"Esta eleição foi extrapolada e vai ser vendida como uma grande noite europeia, quando o que fez cair Orbán não foi o problema da Europa, nem da Ucrânia ou da Rússia. É a extrema corrupção. É o cansaço que Orban trouxe para dentro do governo", defende Miguel Baumgartner. Segundo o especialista em Relações Internacionais, a campanha foi dominada por temas internos, nomeadamente denúncias de enriquecimento e percepções de captura do Estado. "As pessoas não estavam a votar por uma Hungria mais europeia. Estavam a votar contra o multimilionário Orbán."
"Acima de tudo, este resultado significa uma coisa: que tudo aquilo que nos andaram a vender durante muito tempo, que a Hungria era uma ditadura e que era um Estado em que a democracia não funcionava, afinal funcionou. E tanto funcionou que houve a possibilidade de alterar o líder do governo sem haver grandes problemas", acrescenta.
Quando Péter Magyar finalmente subiu ao palco, o contraste com a contenção de Orbán era evidente. Perante uma multidão em euforia, começou com uma palavra que rapidamente se tornou símbolo da noite: "Conseguimos". O tom foi de celebração e de rutura. "O Tisza e a Hungria venceram estas eleições - não por uma margem pequena, mas por uma margem muito grande. Juntos, libertámos a Hungria”, afirmou, acrescentando que "a vitória pode não ser visível da Lua, mas é visível em toda a Hungria", numa referência direta ao discurso de vitória de Orbán em 2022.
Com 98% dos votos contados, o partido vencedor conquistava 138 assentos no Parlamento, mais do que o necessário para atingir uma maioria absoluta, contra os 55 que sobraram para o Fidesz de Orbán. Ao partido de extrema-direita Mi Hazánk foram atribuídos seis.
"Hoje fizeram um milagre. Hoje a Hungria fez história", disse, perante uma multidão que respondia com aplausos e cânticos. "Os húngaros disseram não ao engano, à mentira, à manipulação e à traição." Mais do que celebrar uma vitória eleitoral, o líder do Tisza apresentou o resultado como um momento de libertação nacional - algo que rapidamente encontrou eco em várias capitais europeias.
"Não sei se podemos falar numa vitória da Europa"
Ursula von der Leyen foi a primeira a reagir e, através da rede social X, escreveu em húngaro para falar num "coração da Europa a bater mais forte", numa leitura que sugere um reaproximar da Hungria ao projeto europeu. No entanto, essa interpretação está longe de ser consensual. "Há uma derrota clara de Orbán, isso é inequívoco. É derrotado em toda a linha”, considera o especialista em Relações Internacionais Tiago André Lopes. "Mas não sei se podemos falar numa vitória da Europa."
A prudência prende-se, desde logo, com a configuração política que emerge destas eleições. Apesar da derrota do Fidesz, o novo parlamento não representa uma viragem ideológica clara, mas antes uma reorganização dentro do mesmo espectro político. Pela primeira vez, todas as forças com representação parlamentar posicionam-se à direita, deixando de fora qualquer alternativa de esquerda com peso eleitoral. "Estamos perante um parlamento com três partidos e todos à direita - centro-direita, direita e extrema-direita. Não há uma única força à esquerda, nem sequer perto disso", sublinha Tiago André Lopes.
Essa distinção torna-se ainda mais relevante quando se olha para o perfil político de Péter Magyar. Apesar de se apresentar como figura de rutura, o novo líder tem raízes no sistema que agora substitui. "Quem estiver à espera de uma grande alteração na política externa pode ficar desiludido. Magyar vem do Fidesz, conhece o sistema por dentro e, em matérias fundamentais, não há sinais claros de mudança", explica Tiago André Lopes.
Além de o partido ter votado contra o empréstimo de 90 mil milhões de dólares à Ucrânia, o novo primeiro-ministro prometeu no passado convocar um referendo sobre a adesão da Ucrânia à União Europeia.
"Magyar não é nenhum grande amante do projeto europeu e do centralismo europeu como ele existe. Como deputado do Parlamento Europeu, várias vezes se levantou contra a Europa", argumenta Miguel Baumgartner.
Se a mudança ideológica é incerta, a concentração de poder é o seu contrário. O resultado eleitoral deu ao Tisza uma maioria qualificada capaz de alterar a Constituição sem necessidade de consensos alargados, um cenário que levanta preocupações entre analistas.
"Brincar às reformas?"
"Eles têm 70% do parlamento no bolso. Estamos a falar de um partido que praticamente não existia em sede parlamentar e que passa a controlar dois terços do parlamento e a ter poder para poder brincar às reformas constitucionais. Isso dá-lhe poder para fazer tudo sozinho, incluindo reformas constitucionais", alerta Tiago André Lopes. "Isto é perigosíssimo. Nós não sabemos se Magyar não vai ter uma deriva. Ele agora é novidade".
O analista lembra ainda que o partido que Magyar representa apresenta-se a si próprio como "populista, nacionalista e conservador", algo que o faz recuar ao início do século e viajar alguns quilómetros para lembrar Dmitry Medvedev. "Também houve expetativas elevadas em relação a Dmitry Medvedev na Rússia. Era o homem da democracia, era o rosto. Agora é mais radical do que Vladimir Putin em algumas posições. Não estou a dizer que Tisza vai ser isso, mas nós não sabemos.”
Também na relação com a União Europeia se antecipam mudanças mais de estilo do que de substância. "Orbán era conhecido pelo estilo muito acrimonioso, gostava de embater com as estruturas da Europa. Aí de facto Magyar, nesta primeira fase, vai jogar o jogo de outra forma até porque é mais novo, tem menos capacidade e menos prestígio", explica Tiago André Lopes. "A relação vai ser menos tensa, mais diplomática, mas não sei se vai facilitar o processo de decisão e desbloquear várias coisas. Eu acho que nós vamos continuar a ter vetos húngaros em alguns assuntos, como a questão da energia".