Turquia
Finalizado
3 - 1
Geórgia

Da "ignorância económica" ao "aproveitar os fundos enquanto existem". Foi Cotrim contra todos: e todos a defender uma Europa que (ainda) não existe

17 mai, 22:39

Apesar das ligeiras divergências temáticas, a esquerda esteve alinhada sobre o caminho que deseja para o bloco europeu. Neste debate, no extremo oposto, esteve, naturalmente, João Cotrim de Figueiredo. Aproveitou todas as oportunidades para descredibilizar Catarina Martins, Francisco Paupério e João Oliveira. Afinal, o liberal também quer uma União Europeia melhor. Numa coisa estão todos de acordo: como está é que não pode continuar

Ao fim do mês, o que todos querem – sejam de esquerda ou de direita - é salário. E daí a importância do tema que mais animou o terceiro debate para as eleições europeias.

A história começa assim. Era uma vez um candidato do Livre a defender um salário mínimo obrigatório. É obrigatório, mas não de igual para todos os europeus. “Seria calculado de acordo com cada país e as especificidades de cada país”. Em Portugal, a proposta é de “80% do salário mínimo espanhol”.

Apesar de poder parecer uma aliada natural, Catarina Martins afastou-se de proposta, porque tem “muitas dúvidas”. Esse salário mínimo, disse, está a ser debatido como uma “percentagem do salário médio”. O que, a aplicar em Portugal, só iria baixar os valores de referência. “Cuidado”, aconselhou, sem deixar de classificar a proposta do Livre como “frágil”.

Para Portugal não ficar na cauda da Europa no aumento dos salários, argumentou a bloquista, é preciso “investimento público em setores estratégicos”. O comunista João Oliveira complementou com a necessidade de reforçar a contratação coletiva e lamentou que os salários estejam, a nível europeu, a ser nivelados “por baixo”. “Os trabalhadores portugueses são prejudicados pela atual diretiva, nivela por baixo”, reforçou.

Quem assistiu a isto tudo e não gostou foi João Cotrim de Figueiredo. Para o liberal, “a única forma de aumentar salários de uma forma sustentada é ter uma economia que cresça e que crie empregos cada vez com conteúdo de qualificação mais elevado”. E isso implica que a Europa deixe de ser a “campeã da burocracia” e volte a ser a “campeã da inovação”.

Cotrim havia também de se enervar quando viu os rivais da esquerda a atacar os lucros das grandes empresas e dos milionários a operar na Europa. “O problema é a criação de riqueza”, insistiu. Para ouvir Catarina Martins a vincar as “enormes dificuldades” num dos “espaços mais ricos do mundo”. E João Oliveira a sacar os lucros dos bancos nos primeiros três meses do ano: “560 mil euros por hora”. "Populismo de esquerda", fechou Cotrim.

A saída do euro: um caminho solitário para os comunistas (e prova de “ignorância económica”)

Na hora de falar sobre a possível saída de Portugal do euro, foi o comunista João Oliveira quem ficou sozinho. Sem tecer um calendário, defendeu que Portugal “se deve preparar para se libertar das políticas” da moeda única que são “um obstáculo” à melhoria da vida dos portugueses. A acontecer, a saída devia ser “articulada” com outros países”.

Também Catarina Martins defendeu a necessidade de o país “fazer alianças para defender a sua economia, os salários e os serviços públicos”, mas apontou que o caminho “não é Portugal sair do euro”. Pela boca da bloquista, numa citação, o ex-primeiro-ministro António Costa entrou no debate: “o euro foi uma prenda à Alemanha”.

Para defender a continuação no euro, Paupério lembrou que o Livre é “convictamente europeísta”. Admitiu que, com a moeda única, Portugal “não foi beneficiado em tudo”. Houve vantagens, vincou. Quais? “Saneamento básico para toda a gente”. João Oliveira não se conteve na reação, entre o espanto e a indignação.

Uma vez mais, quem assistiu a tudo foi Cotrim de Figueiredo. E atirou aos comunistas: “assumam que não querem estar na União Europeia”, porque “argumentar que fora do euro permite ter taxas de juro mais baixas roça a ignorância económica”.

Escrutinar o BCE: e uma crítica à “literacia financeira” da esquerda

Se o Banco Central Europeu (BCE) fosse uma donzela cuja honra precisava de ser defendida, Cotrim de Figueiredo foi o seu cavaleiro andante neste debate. Isto porque a esquerda acenou com várias propostas para o banco central.

Como o BCE “faz o que quer” e manda “para o lixo” relatórios do Parlamento Europeu, Catarina Martins pediu um escrutínio democrático da instituição, para evitar uma “política que sucessivamente salva bancos, contra os direitos das famílias”. Paupério veio depois reforçar a ideia, sugerindo que, no início de cada mandato, como acontece aos comissários europeus, o BCE dê explicações aos eurodeputados. João Oliveira acabou a recuperar a proposta de “controlo nacional dos bancos centrais”. “Se nós tivéssemos na nossa mão a política monetária, o nosso banco central tinha tomado as decisões de aumentar as taxas de juro como aumentou o BCE? Não”, concretizou.

Na resposta, uma vez mais, Cotrim desalinhou: ao perderem a independência, os bancos centrais “ficam nas mãos das vontades eleitorais”; “só têm utilidade se forem independentes”; “era o fim da União Europeia como a conhecemos”.

A discussão do tema acabou com um desabafo, bem em jeito de crítica aos rivais: “percebo porque nenhum dos partidos aqui representado votou a favor da nossa proposta de literacia financeira. Se houvesse literacia, nenhuma pessoa percebia as propostas”.

Fundos para todos: é para reforçar, até acabar

Se a União Europeia se alargar, haverá impactos na distribuição de fundos. E Portugal pode ser um dos países prejudicados. Como lidar com este cenário? Mais uma vez, foi Cotrim de Figueiredo a desalinhar dos colegas de debate.

“Mais tarde ou mais cedo, vamos ter de viver sem fundos, é bom que nos preparemos, isso significa aproveitar os fundos enquanto eles ainda existem”, atirou o liberal.

Os colegas sintonizaram na necessidade de reforçar apoios com a abertura do bloco a leste. “Não há mais Europa sem mais orçamento. Quem achar isso, só vai ter um problema maior”, avisou Catarina Martins. João Oliveira lembrou que o orçamento comunitário tem de ser “naturalmente reforçado”, até porque “os fundos [para Portugal] não chegam sequer para compensar os prejuízos que temos” por fazer parte da União.

Paupério vincou a necessidade de uma nova distribuição dos fundos na agricultura, apostando nos “pequenos e médio agricultores”, também como forma de proteger o ambiente.

Política

Mais Política

Patrocinados