Se os salários têm subido em Portugal, porque sentimos que o dinheiro dá para cada vez menos? Há pelo menos seis explicações

4 out 2025, 08:30
Carteira vazia (Pexels)

Uma coisa são as estatísticas, outra é a vida das pessoas. Explicamos por que sentimos que nos resta mês no fim do salário - mesmo que os números insistam que há cada vez mais salário

(CNN Autárquicas 2025) - Multiplicam-se as boas notícias sobre os indicadores económicos. Os portugueses é que parecem não as sentir no bolso. Queixamo-nos de que o salário não chega ao fim do mês, de que vivemos cada vez mais apertados, de que somos forçados a abdicar do essencial.

Parece paradoxal quando o Instituto Nacional de Estatística mostra que, ano após ano, o salário médio real está a aumentar. Em 2024, a subida foi de 3,8%, um ritmo superior ao do ano anterior. O salário real é aquele já tem em conta os efeitos da inflação, permitindo-nos perceber se o nosso poder de compra aumentou mesmo.

Só que uma coisa são as estatísticas, outra é a vida das pessoas. Três economistas ajudam-nos a perceber por que nos sentimos cada vez mais asfixiados - e por que, mesmo com aumentos nos salários, há cada vez mais famílias da classe média a não conseguir cumprir os seus compromissos e a pedir ajuda a bancos alimentares.

Razão 1. A subida é média. Nem todos sentem da mesma forma

O indicador tido em conta é o salário médio. E, como em qualquer média, há os extremos. Em Portugal, a maior parte da população tem salários próximos do mínimo. Por isso, mesmo com aumentos, o efeito real no orçamento é pequeno.

Como avisa o economista Filipe Grilo, da Porto Business School, “a média em si é já um problema”. Em Portugal, diz, o salário médio tem aumentado à custa das sucessivas subidas no salário mínimo.

“O salário mínimo cresce bastante, mas como os outros não crescem, isso significa que a média só é influenciada por isso. Quem ganha poder de compra é quem tem menor salário. Daí esta perceção de dificuldade mais acentuada da classe média, que, apesar de ter o salário a aumentar, não é ao nível a que vê nas notícias”.

Cenário também destacado pelo economista João Rodrigues dos Santos, da Universidade Europeia: “O salário mínimo e médio têm vindo a aproximar-se. Estamos a contribuir para agravar os problemas que têm vindo a afetar o país”.

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Razão 2. Nem tudo o que pesa no orçamento familiar entra nos cálculos da inflação

Na hora de calcular o salário real, tem-se em conta o Índice de Preços no Consumidor, que mede a inflação média de uma cesta de bens. Contudo, há despesas que não são tidas em conta - ou que pesam mais do que a média nos orçamentos de muitas famílias.

O exemplo mais recorrente dado pelos economistas ouvidos pela CNN Portugal é o da prestação da casa. Num país tipicamente de proprietários, esse encargo não entra para o cálculo da inflação. Na prática, com as fortes subidas dos últimos tempos, este encargo acabou por “engolir” muito daquele que foi o aumento do salário real.

“Há um aumento visível de preços que são importantes para as pessoas, como a habitação e a alimentação, que sobem acima do nível médio da inflação. As pessoas sentem”, aponta Filipe Santos, economista e diretor da Católica-Lisbon.

“Os custos associados à habitação subiram muito. Mesmo com o mais recente abrandamento da inflação, os aumentos anteriores deixaram rasto. Em Portugal, a realidade do preço das casas é muito desfasada do rendimento”, resume João Rodrigues dos Santos.

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Razão 3. Quanto mais ganhamos, mais impostos pagamos

Quando os salários aumentam, aumentam também os impostos que incidem sobre eles. “Destaco as elevadas taxas marginais de IRS que incidem sobre os rendimentos das pessoas. Muito do que as famílias recebem a mais acaba ‘comido’ pelos impostos. É um problema crónico da economia portuguesa”, aponta Filipe Santos.

E há mudanças recentes na lógica do IRS que poderão alimentar ainda mais a sensação de que temos menos dinheiro. Os portugueses estavam habituados a pagar mais a cada mês para depois receber, no ano seguinte, um reembolso. Só que, agora, recebem mais a cada mês. E, na hora do ajuste de contas, podem mesmo ter de pagar ao Estado. Num país de reduzida literacia financeira, o dinheiro extra mensal acaba absorvido pelas despesas quotidianas. Deixa de haver um ‘bónus’ - que era como o reembolso do IRS era encarado por muitas famílias - que costumava ser usado para cobrir emergências ou encargos como o IMI.

“Como estávamos mais habituados a receber o reembolso, quando dispersamos o valor ao longo do ano, se calhar ficamos com a impressão de que temos menos dinheiro”, reconhece Filipe Grilo.

“A narrativa que se gerou vai nesse sentido. Há um alívio fiscal, que não é tão significativo como parece. É um efeito muito reduzido - diria nulo até. Uma solução só teria impacto com uma redução do número de escalões de IRS”, junta João Rodrigues dos Santos.

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Razão 4. Quando o Estado falha, pagamos nós

Não há dia em que as notícias não nos deem conta das falhas do Estado. É na saúde, é na educação, é na justiça. E, quando falha a resposta pública, as famílias têm de retirar dos próprios bolsos para encontrar soluções que os seus impostos já deveriam cobrir.

"Como o Estado tem estado a falhar em serviços básicos, como a saúde ou a educação, esta classe média tem comprado serviços que antes não comprava, como seguros de saúde ou creches privadas”, simplifica Filipe Grilo.

João Rodrigues dos Santos lembra que “a pressão que se coloca hoje às famílias é diferente de outrora”. Gastamos para ter acesso aos melhores medicamentos, para que os nossos filhos tenham acesso às melhores oportunidades, para estarmos culturalmente ao nível daqueles com que nos queremos comparar.

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Razão 5. Ao poupamos para um mundo incerto, abdicamos do que precisamos (ou daquilo que nos traz felicidade)

Mesmo com tanta queixa de que o salário não chega até ao fim do mês, a verdade é que a taxa de poupança tem vindo a aumentar. Em 2024, subiu para os 12,5%, aproximando-se da média europeia.

Parece paradoxal. E é. Como é que poupamos mais, se sentimos que temos menos dinheiro? “Há um sentimento global de incerteza. Tarifas, guerras, setores afetados. As pessoas têm tendência a gastar menos e a poupar. E, como querem poupar, acabam por sentir que não têm dinheiro para tudo o que gostariam de fazer”, resume Filipe Santos. Abdicamos do essencial - ou daquilo que nos traz alguma felicidade.

É aquilo que João Rodrigues dos Santos descreve como o “paradoxo do afogamento”. Com o receio em relação ao futuro, poupa-se, “agravando o problema no presente”. É possível que, com um consumo menor, haja um abrandamento da atividade económica. Logo, menos necessidade de emprego, menores rendimentos.

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Razão 6. Quando olhamos para outros países, sentimos a diferença. O problema é quando a nossa vida é feita com o padrão deles

É inevitável que façamos comparações com o custo de vida de outros países. E, quando o fazemos no contexto da União Europeia, chegamos quase sempre à mesma conclusão: os nossos salários são baixos.

Nos últimos anos essa perceção tornou-se ainda mais clara com o turismo em Portugal. Os negócios começaram a ter o rendimento dos turistas como referência. E nós, com os nossos salários, não conseguimos lá chegar. Um simples lanche fora de casa pode tornar-se uma despesa demasiado pesada para muitas famílias.

“Qualquer um de nós que vai de férias a zonas de praia em Portugal percebe que os preços não estão ajustados aos bolsos dos portugueses. Isso acaba por ter um impacto nefasto na qualidade de vida das pessoas”, conclui João Rodrigues dos Santos.

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