opinião

Quanto vale Ventura e quanto vale o Chega

30 set 2025, 08:00

Um dado curioso sobre estas autárquicas: nenhum dos líderes dos três maiores partidos portugueses arrisca colocar metas muito ambiciosas. Como se, fazê-lo, fosse assinar uma espécie de sentença de morte política. Como nem Luís Montenegro, nem José Luís Carneiro e muito menos André Ventura pretendem abandonar o posto no próximo dia 12, estão todos a gerir expectativas. 

No caso do PSD, a estratégia é clara: impedir que um mau resultado nestas autárquicas contagie politicamente o Governo. Montenegro sabe que há-de ganhar nuns municípios e perder noutros, mas, até agora, nunca colocou como objetivo ganhar em número de câmaras — e, com isso, vencer a Associação Nacional de Municípios —, parecendo ter descido a fasquia a mínimos olímpicos. Segundo o Observador, os sociais democratas ficam felizes se conseguirem manter Lisboa, Cascais, Aveiro e Braga e se conseguirem vencer o Porto, Sintra e Gaia. 

Até dia 12 Luís Montenegro vai manter o fato de primeiro-ministro e meter a carne toda no assador, distribuindo dinheiro pelo maior número de pessoas. E, se tudo correr como planeado, a apresentação do Orçamento do Estado, marcada para dois dias antes das eleições, há-de fechar com chave de ouro esta estratégia. 

O desafio de José Luís Carneiro é mais complexo. Se, por um lado, todos os candidatos do PS foram escolhas do seu antecessor, Pedro Nuno Santos — e isso lhe pode servir de salvo conduto —, por outro, o secretário-geral do PS precisa de ganhar tempo para se afirmar. A fasquia do PS está alta: o partido lidera 147 municípios, preside à Associação Nacional de Municípios, mas tem quase 50 autarcas em fim de mandato. O que significa que tem muito mais a perder. Manter a liderança da Associação Nacional de Municípios pode ser o quanto baste para Carneiro se aguentar. 

Mas há uma leitura nacional muito relevante a fazer na noite de 12 de outubro. A de perceber quanto vale realmente o Chega, por comparação com André Ventura. 

Com a cara nos cartazes dos 308 municípios, apesar de não ser candidato a nenhum, André Ventura pode ter nestas eleições resposta para uma das perguntas que mais vezes lhe fizeram: o Chega é um partido de um homem só? 

O histórico recente tem mostrado que sim. Sempre que André Ventura não se candidata —em autárquicas, mas também nas Europeias —, a votação do partido cai significativamente. Ou, vendo de outra perspetiva, o ciclo de crescimento do Chega parece ser interrompido. 

À falta de 308 Venturas, André decidiu nestas eleições candidatar mais de metade da sua bancada parlamentar. Cada um leva para o seu município uma espécie de manual do Chega para totós e vai debitando o que o líder debitaria se fosse ele o candidato: vamos limpar o concelho, fora com os imigrantes, vamos acabar com a corrupção… pronto, todos conhecem a lenga-lenga de cor. 

Uma coisa é certa: seja qual for o resultado do Chega nestas eleições, André Ventura poderá sempre cantar vitória. Com uma representatividade autárquica quase irrelevante, qualquer subida, qualquer junta de freguesia ou pequeno município que o partido de Ventura vença representará sempre um crescimento digno de registo. E, convenhamos, não será difícil crescer dos 200 mil votos que teve em 2021. 

A grande pergunta é: quanto da base eleitoral que votou no Chega nas legislativas deste ano vai repetir o seu voto nestas autárquicas? Do quase milhão e meio de eleitores, quantos vão agora confiar nos candidatos do Chega, sendo que nenhum se chama André Ventura? 

A resposta a esta pergunta vai permitir-nos perceber, na noite de 12 de outubro, se o regime está mesmo a mudar. Se a tendência que se tem verificado nas últimas legislativas, de uma perda acelerada da base eleitoral do PS, do PSD e da CDU a favor do Chega, se confirmar, isso significa que a criatura ameaça mesmo tornar-se maior que o criador. 

Para já, nem Ventura parece muito convencido disso. E também ele  já começou a moderar as expectativas. Das 30 câmaras municipais que tinha inicialmente como meta, diz agora que os números são isso mesmo: números. E quem diz 30, pode dizer 20. Ou menos.  

Estas eleições autárquicas são muito mais importantes do que parecem à primeira vista. Elas vão funcionar como uma espécie de teste do algodão à resiliência dos partidos democráticos e, em consequência disso, são também um importante teste ao regime. 

Colunistas

Mais Colunistas