opinião
Jornalista. Diretor executivo CNN Portugal

Aqui chegados, 1+1 = duodécimos, 2+2 = eleições

19 jun, 15:57
O deputado e presidente do Chega, André Ventura (C), sorri durante o debate parlamentar na Assembleia da República, em Lisboa, 19 de junho de 2026. TIAGO PETINGA/LUSA
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Ninguém quer eleições antecipadas mas o processo que as desencadeará já está em marcha. Do código do trabalho resulta um vencedor: o que chorou nas bancadas no momento do chumbo. O líder da CGTP pode enviar uma mensagem ao do Chega: “Obrigadinho, André”. Resposta: "Foi um prazer"

O governo quis tanto dar a mão do Chega que acabou por levar com os pés. Ficou sozinho no altar, com um chumbo e más sondagens. Mas a derrota não se atém ao código do trabalho: falha também a estratégia de vivência parlamentar e de sobrevivência política do PSD: Montenegro queria reformar com o Chega e aprovar orçamentos com o PS; possivelmente, não conseguirá nem uma coisa nem a outra. Aqui chegado, o país pode encaminhar-se para um de dois cenários em janeiro: governar em duodécimos ou… eleições antecipadas.

Para a futura crise política, o que nasceu primeiro não foi o ovo nem foi a galinha, foi “o ovo no cu da galinha”. Perdoe-se o plebeísmo, mas o ditado popular aplica-se na perfeição: o PSD contou com a aprovação do Código do Trabalho pelo Chega, como aliás a imprensa política amplificou. Mas André Ventura jogou e gozou, e como não vende fiado nem compra à vista, é um tático imprevisível que decide em função da popularidade.

O que sobra do processo político do código do trabalho é um grande e longo desgaste do governo, que para mais acaba colado ao Chega a troco de nada. Montenegro segue para o congresso do PSD deste fim de semana entre a inércia e a fúria de nada conseguir fazer, num processo em que só há um vencedor.

E não, não é António José Seguro (já lá vamos), é Tiago Oliveira, secretário-geral da CGTP, que chorou na bancada fazendo sua a vitória decidida pelo PS e… pelo Chega.

O secretário-geral da CGTP-Intersindical, Tiago Oliveira (ao centro), aplaude emocionado ao chumbo da proposta do Governo de revisão da legislação laboral, na Assembleia da República, em Lisboa, 19 de junho de 2026. Tiago Petinga/Lusa 

A ironia é que a vitória da esquerda (e do Presidente da República) só existe por ação do Chega.

Seguro ganha algum sossego, porque não passará pela embaraçante neutralização de vetar primeiro e ser “vetado” depois na reconfirmação do Código do Trabalho na Assembleia da República. Mas ou a situação política muda muito ou daqui a poucos meses Seguro terá de lidar com uma crise: a do chumbo do Orçamento do Estado.

Ao alargar descaradas pontes com o Chega, como fez agora, o governo gastou pontos com o PS. Montenegro tem destratado José Luís Carneiro e assumido uma agenda reformista em grande parte contra o PS, isto é, contra a sua governação anterior. Vai o PS aprovar o Orçamento do Estado? Dificilmente? Vai o Chega? Impossível prever.

As forças que ditarão a próxima crise política já estão, pois, em movimento. E governo e Presidente da República poderão preferir governar em 2027 com orçamento em duodécimos e evitar eleições que “ninguém quer”.

Fica já dito: não é drama nenhum governar um ano em duodécimos. Para o ministro das Finanças até é um sossego, o seu Orçamento de 2026 adapta-se a 2027 e assim nem tem de aturar pressões internas. Mas tal impede grandes opções políticas. E dificilmente é suportável mais do que um ano, até devido ao calendário dos financiamentos comunitários. Fica já dito: seria um drama governar três anos em duodécimos.

“Ninguém quer eleições” porque o povo não quer eleições, o país está saturado de eleições, é uma imaturidade política estar sempre em eleições. António José Seguro certamente não quer eleições, mas analisemos a frio os incentivos aos demais: André Ventura gosta mais de eleições que do Benfica, cresce a cada uma; José Luís Carneiro pode sentir-se embalado pelas sondagens e sentir pressa por causa dos candidatos a candidatos que já emergem no PS; e Montenegro e vários dos seus ministros podem preferir arriscar tudo, pedindo que os votos destruam o bloqueio parlamentar e lhes deem o poder de uma maioria. Montenegro tem capital de queixa, está paralisado no Parlamento. Iríamos de deixar o Luís trabalhar para deixar o Luís reformar.

Certo?

Não se trata de um palpite, mas da leitura dos incentivos em marcha. “Ninguém quer eleições”, e todos repetirão que não querem eleições, mas a vida política está a desenhar-se enquanto falamos. Como estamos, o Luís trabalhar, trabalha, mas não governa. Este Código do Trabalho teve o seu empenho direto e a mobilização total da ministra mais determinada e ideológica do governo.

Tanto trabalho para nada.

Manuel de Almeida / Lusa 

 

 

 

 

 

 

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