A descoberta, gravada para o documentário "Ghost Elephants" de Werner Herzog, tornou-se um impulso para proteger a região de Lisima lya Mwono e a sua biodiversidade
O povo Nkangala, do sudeste de Angola, tem uma história de origem: um dia, um pequeno elefante afastou-se da manada e dirigiu-se ao rio Quembo. À beira da água, começou a remover a própria pele. Um caçador que observava ajudou o elefante e, da criatura, surgiu uma mulher. Os dois uniram-se e, a partir deles, nasceram os Nkangala.
Eles vêem-se como filhos dos elefantes e, hoje, consideram-se guardiões do animal sagrado. Mas durante décadas os Nkangala têm estado a proteger fantasmas.
Uma guerra civil de 27 anos, que começou em 1975, tornou impossível a exploração das remotas terras altas de Angola - já de si uma paisagem quase impenetrável e em grande parte desabitada, com o tamanho de Inglaterra. Também a tornou o lugar perfeito para o maior animal terrestre do mundo se esconder.
O explorador sul-africano Steve Boyes sonhou durante muito tempo com esta manada. Há cerca de uma década começou a aventurar-se pela região, instalando 180 armadilhas fotográficas, sensores de movimento, acústicos e térmicos, e sobrevoando a área de helicóptero. Nenhum elefante apareceu. Tornaram-se uma obsessão para Boyes - um mistério fascinante que o puxava para o deserto, mesmo quando parte de si questionava se seria um mistério que talvez devesse permanecer por resolver.
"É quase como a perseguição da baleia branca de 'Moby Dick'", afirma o aclamado realizador alemão Werner Herzog, que fez de Boyes e da sua presa o tema do seu mais recente filme. O documentário "Ghost Elephants" acompanha a expedição de 2024 de Boyes para encontrar a mítica manada de Angola. O cineasta, no seu estilo inconfundível, narra a história do explorador e de uma equipa de rastreadores mestres KhoiSan de Angola e da Namíbia, que conseguiram aquilo que a tecnologia não conseguiu.
"Normalmente", disse Herzog, nos documentários de natureza "uma equipa encontra uma nova espécie ou tem sucesso. Há celebrações e lágrimas. No meu filme não. Eu digo uma coisa que nunca se ouve: agora Steve Boyes tem de viver com o seu sucesso."
Depois de anos a perseguir fantasmas, Boyes alcançou finalmente os elefantes. Agora, a sua missão é protegê-los.
Prova de um gigante
O filme de Herzog começa no Smithsonian’s National Museum of Natural History, em Washington, DC. Aí, Boyes encontra "Henry", os restos mortais de um elefante macho com 13 pés de altura e 11 toneladas, o maior alguma vez registado. O animal foi abatido por um caçador de origem húngara em Angola em 1955, e Boyes acredita que poderá ser um antepassado da atual população "fantasma".
O explorador já tinha passado muitos meses a percorrer as terras altas de Angola e o vasto planalto composto por zonas húmidas, turfeiras e florestas. O planalto é conhecido na língua local Luchazi como "Lisima lya Mwono", a Fonte da Vida, e é dali que o rio Okavango corre para sul. Os helicópteros não conseguem aterrar naquele terreno e os carros só conseguem ir até certo ponto, conta Boyes à CNN. Até as motas têm limitações e precisam de ser transportadas através dos rios. Em partes das margens ainda existem campos de minas ativos.
"Havia uma sensação estranha naquele lugar. Simplesmente não há nada, nem pessoas", explica Boyes. "Encontrava pegadas de elefante e corria atrás delas o máximo que podia e depois… nada."
Ele e a sua equipa documentaram 275 novas espécies e novas populações de chitas, leopardos e leões, mas não encontraram elefantes. Depois, ao fim de sete anos a estudar a zona, uma armadilha fotográfica captou imagens noturnas de uma fêmea de elefante. Prova. Os esforços intensificaram-se.
A expedição de 2024 tentou ver os elefantes a olho nu e recolher amostras para saber mais sobre a genética da população isolada e perceber se Henry estava relacionado.
Boyes e a etnobióloga angolana Kerllen Costa recrutaram três rastreadores que vivem na Namíbia: Xui, Xui Dawid e Kobus. Herzog juntou-se inicialmente ao acampamento como conselheiro da equipa de filmagem, "mas no primeiro ou segundo dia de filmagens tornou-se óbvio que tinha de intervir", considera. "Estava a construir a história paralela, mais profunda, separada - sobre sonhos, fantasmas e os espíritos dos elefantes."
O realizador mostra membros da comunidade a dançar até Kobus entrar em transe, sentindo o espírito de um elefante entrar no seu corpo, refletindo aquilo a que Herzog chamou a "viagem interior" do filme.
Já em Angola, o grupo acrescentou mais rastreadores angolanos e ligou-se a líderes de reinos Luchazi nas margens das terras altas, incluindo os Nkangala, que lhes deram permissão para entrar no território com a condição de levarem uma equipa de caçadores do rei.
Depois de meses nas terras altas, a expedição parecia caminhar para o fracasso. "Eu já tinha desistido completamente", admite Boyes.
A audição apurada dos elefantes obrigava a equipa a trabalhar em silêncio, o que tornava o planeamento difícil. Uma vez, conta Boyes, deu uma instrução em voz alta e os outros membros da equipa proibiram-no de participar no rastreio durante dois dias. "Fui acampar longe do acampamento sozinho e fiquei a amuar".
Com apenas alguns dias restantes, ao amanhecer Xui seguiu pegadas deixadas pelos caçadores do rei durante a noite. Boyes foi atrás. Duas horas depois, estavam frente a frente com um macho.
"Xui caminhou diretamente até aquele elefante", lembra Boyes. "Estou convencido de que ele sabia. Eu não fazia ideia. Estava apenas a fazer a minha última caminhada, derrotado, à espera que o Werner ficasse satisfeito com um filme sem provas."
Em vez disso, o telemóvel de Boyes gravou um elefante com cerca de 12 pés de altura, estima ele - "provavelmente dois pés mais alto do que qualquer outro elefante que já vi e três toneladas mais pesado." Era enorme, mas também visivelmente diferente do elefante africano médio, com presas curtas e pernas mais longas. Com base nas marcas nas árvores onde se esfregava e nas próprias observações de Boyes, acredita que este macho pode ser o maior mamífero terrestre vivo.
O elefante fugiu quando uma flecha personalizada, concebida para recolher material genético, foi disparada contra ele. A equipa de Boyes perseguiu o animal a pé durante cinco horas antes de ficar sem água e ser obrigada a regressar.
O explorador voltou ao acampamento - e de Angola - com amostras que ajudarão a desvendar os segredos do macho, de Henry e dos elefantes-fantasma de Angola. Podem também tornar-se uma ferramenta vital para a sobrevivência da manada.
Da descoberta à proteção
A descoberta emocional e extenuante pode já ter ficado para trás, mas Boyes continua a sua busca, tendo regressado às acidentadas terras altas de Angola duas vezes desde o primeiro avistamento do macho em 2024.
Nessas expedições posteriores, a equipa recolheu mais ADN de outras manadas de elefantes-fantasma: "Encontrámos uma manada reprodutora com cinco crias e recolhemos amostras de cada um dos excrementos para perceber quem são os pais", conta Boyes.
As análises de ADN da expedição filmada em 2024 mostram, até agora, que os elefantes-fantasma são distintos de todas as outras populações sequenciadas.
"A linhagem matrilinear dos elefantes-fantasma é completamente única", afirma Boyes, "não se repete em mais lado nenhum de África e demonstra que estes animais têm estado isolados com o povo Nkangala nesses vales há muito tempo."
Mas reconstruir a história completa de Henry tem sido difícil. As primeiras amostras de ADN retiradas do crânio de Henry forneceram dados insuficientes para respostas definitivas sobre a sua ascendência, segundo explica Boyes à CNN. Ele espera que novas amostras resolvam eventualmente o mistério.
Embora ainda haja muito por revelar sobre os elefantes-fantasma através da genética, a sua localização exata permanecerá secreta, afirma Herzog. O filme mostra de forma vívida como a paisagem é remota e dura - e como estes gigantes são inacessíveis.
Para além da procura incessante pelos elefantes esquivos, há outro fantasma que Boyes persegue. "Chamo-lhe o nosso unicórnio - um rinoceronte-negro extinto (o rinoceronte de Chobe) que desapareceu no Botsuana, na Namíbia e em Angola", conta Boyes. "Estava sobretudo no Delta do Okavango no início dos anos 80, precisamente quando a caça furtiva estava no seu pior."
Caçadores relataram ter visto estes rinocerontes a oeste da zona onde vivem os elefantes-fantasma, na mesma vasta região selvagem que Boyes agora explora. Mas com o passar dos anos esses relatos tornam-se cada vez mais distantes e o rasto esfria. "Também fizemos muitas buscas por estes animais".
Lisima lya Mwono exerce também um apelo quase etéreo para Boyes - uma oportunidade de sentir a Terra na sua forma mais crua e intocada. "É a experiência de voltar atrás no tempo e tudo estar perfeito outra vez… lugares tão pouco criados pelo homem, apenas criados pelos elefantes", afirma Boyes. "É uma paisagem de sonho e nunca me canso dela."
Foi dessa devoção ao lugar que nasceu a Fundação Lisima, uma organização sem fins lucrativos que descreve como o seu compromisso de longo prazo com a paisagem e com as pessoas que ali vivem.
O modo de vida africano é viver com a vida selvagem, segundo Boyes - e a conservação deve seguir esse princípio, trabalhando em parceria com as comunidades locais e líderes tradicionais, que são os guardiões desta paisagem.
Em Janeiro de 2026, Lisima lya Mwono foi designada como a primeira Zona Húmida de Importância Internacional de Angola ao abrigo da Convenção de Ramsar - um tratado ambiental global dedicado à proteção das zonas húmidas. A designação reconhece a importância da região para sustentar os sistemas de água e a biodiversidade em toda a bacia do Okavango.
A descoberta dos elefantes-fantasma tornou-se uma força motriz para proteger a terra mística onde habitam: "Esse é o impacto deste filme", afirma Boyes, "que este lugar será uma das maiores - senão a maior - paisagens protegidas do planeta."