El Niño já chegou e está a intensificar-se rapidamente

CNN , Andrew Freedman
12 jun, 11:58
O retângulo indica a área do Oceano Pacífico onde as temperaturas da superfície do mar estão a ser monitorizadas para a formação do El Niño. CNN Weather
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Como o El Niño envolve a transferência de uma enorme quantidade de energia térmica do oceano para a atmosfera, este fenómeno também tem implicações para o clima global. Ao somar-se à tendência de aquecimento provocada pelas emissões de combustíveis fósseis, praticamente garante que 2027 ultrapassará 2024 como o ano mais quente alguma vez registado no planeta

O El Niño começou oficialmente e prevê-se que evolua para um fenómeno muito forte, ou mesmo um “Super El Niño”, provocando alterações significativas nos padrões meteorológicos globais e contribuindo para um clima ainda mais quente, segundo um novo relatório divulgado esta quinta-feira pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).

O El Niño é um padrão climático periódico no Oceano Pacífico tropical que altera os ventos e se caracteriza por águas invulgarmente quentes no Pacífico central e oriental. Estas mudanças nos ventos e nas temperaturas oceânicas têm efeitos em cadeia nos padrões meteorológicos em todo o mundo.

O Centro de Previsão Climática da NOAA atribui a este El Niño uma probabilidade de 63% de se tornar um fenómeno “muito forte” (conhecido informalmente como Super El Niño) e de vir a integrar o grupo dos “maiores eventos de El Niño registados desde 1950”. Como sinal da confiança nesta previsão, o centro atribui uma probabilidade de 100% de o fenómeno se manter durante o outono e uma probabilidade extremamente elevada de persistir também durante o inverno.

Para ser considerado um Super El Niño, as temperaturas das águas do Pacífico tropical têm de ultrapassar em mais de dois graus a média habitual. Alguns modelos computacionais considerados fiáveis sugerem que esse limiar poderá ser largamente excedido.

Nos últimos meses, grandes volumes de água invulgarmente quente deslocaram-se do Pacífico ocidental para o Pacífico tropical oriental, impulsionados por alterações nos ventos. Esta massa de água quente viajou entre cerca de 180 e 300 metros abaixo da superfície do oceano e está agora a começar a emergir milhares de quilómetros mais a leste, mais perto da América do Sul. Dinâmicas semelhantes foram observadas durante episódios intensos de El Niño no passado.

Os eventos de Super El Niño são relativamente raros. Os mais recentes ocorreram em 2015-2016, 1997-1998 e 1982-1983.

Como o El Niño envolve a transferência de uma enorme quantidade de energia térmica do oceano para a atmosfera, este fenómeno também tem implicações para o clima global. Ao somar-se à tendência de aquecimento provocada pelas emissões de combustíveis fósseis, praticamente garante que 2027 ultrapassará 2024 como o ano mais quente alguma vez registado no planeta.

Como o El Niño o pode afetar

O El Niño aumenta a probabilidade de ocorrência de determinados fenómenos meteorológicos e climáticos extremos, incluindo ondas de calor, cheias e secas, dependendo da região. Nos Estados Unidos, os seus impactos são mais evidentes durante os meses de inverno.

Furacões: embora o El Niño possa intensificar a época de furacões no Pacífico central e oriental, tende a reduzir o número de furacões no Atlântico. Quanto mais forte for o fenómeno, maior a probabilidade de estes efeitos se verificarem.

As ligações entre o El Niño e a época de furacões poderão representar riscos para o sudoeste dos Estados Unidos e para o Havai, dependendo da trajetória individual das tempestades.

Inverno nos Estados Unidos: normalmente registam-se temperaturas acima da média no norte dos Estados Unidos, oeste do Canadá e Alasca, embora isso não exclua períodos ocasionais de frio.

Já o sul dos Estados Unidos tende a ser mais húmido e mais fresco, devido a uma corrente de jato mais ativa que conduz mais tempestades para essa região.

A Califórnia poderá enfrentar episódios mais frequentes de rios atmosféricos, à medida que correntes carregadas de humidade atingem a costa. No entanto, é difícil prever que zonas do estado serão mais afetadas.

Cheias, calor e secas: algumas regiões, como a Austrália e a Indonésia, são particularmente vulneráveis a secas e ondas de calor durante os episódios de El Niño, o que pode aumentar o risco de incêndios florestais e de problemas no abastecimento de água.

Durante o verão, as chuvas das monções tendem a diminuir na Índia e no Sudeste Asiático, havendo já sinais de que esse processo está a começar. A redução da precipitação pode agravar episódios de calor extremo.

As Caraíbas também enfrentam frequentemente condições de seca durante o El Niño. Invernos quentes e secos são comuns em partes do sul e leste da Ásia. As condições de seca podem agravar-se no sudeste de África durante o verão do hemisfério sul, entre dezembro e fevereiro. Em contrapartida, regiões próximas do Corno de África podem registar chuvas intensas e inundações entre outubro e janeiro.

Parte do sudeste da América do Sul tende a receber mais precipitação durante anos de El Niño, enquanto o sudeste do Brasil costuma registar temperaturas acima do normal. Uma vasta área do norte da América do Sul, estendendo-se a partes da América Central, tende a ser mais seca do que a média entre julho e dezembro. Já o noroeste da América do Sul, incluindo o Peru, é particularmente propenso a chuvas intensas entre janeiro e maio devido à proximidade de águas oceânicas excecionalmente quentes.

Oceanos: os eventos de El Niño podem provocar ondas de calor marinhas generalizadas e fenómenos de branqueamento dos corais, dada a sensibilidade destes organismos às temperaturas elevadas da água. As próprias ondas de calor marinhas também podem influenciar os padrões meteorológicos regionais.

Impacto económico: estudos demonstram que episódios fortes de El Niño podem reduzir o crescimento económico dos países devido aos prejuízos causados por desastres naturais, interrupções no abastecimento alimentar e outros efeitos associados.

Mas nem tudo segue um guião previsível: mesmo os episódios mais intensos de El Niño não produzem exatamente os mesmos impactos e haverá inevitavelmente surpresas.

Existe ainda um grau adicional de incerteza em relação aos efeitos deste Super El Niño, porque ocorre num momento em que o planeta já está significativamente mais quente do que a média devido ao aquecimento global provocado pelas emissões de combustíveis fósseis. Por isso, subsistem dúvidas sobre a forma como esse contexto poderá amplificar os fenómenos meteorológicos extremos associados ao El Niño.

Em suma, nunca houve um El Niño — muito menos um Super El Niño — num planeta com uma temperatura média de fundo tão elevada como a atual.

*O meteorologista da CNN Chris Dolce contribuiu para este artigo

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