Nemesio chegou ao local a 20 de fevereiro com uma das suas companheiras, conduzidos por um contacto ligado à mulher. Foi graças à localização desta companheira que acabou apanhado pelas autoridades
“Onde está 'El Mencho'?” foi a pergunta que as autoridades mexicanas fizeram ano após ano até ao passado domingo. Nemesio Oseguera Cervantes, o nome verdadeiro do narcotraficante, passou décadas escondido nas sombras, tornando-se praticamente intocável, tal era a proteção que continha à sua volta.
Sempre discreto e afastado de locais públicos, "El Mencho" nunca permitiu que surgissem fotos recentes suas. As poucas imagens que circulavam entre as autoridades mostravam-no barbeado e com um ar surpreendentemente jovem. Mas no dia 22 de fevereiro, tudo mudou: décadas de fuga chegaram ao fim.
O narcotraficante de quase 60 anos foi morto numa operação do Exército mexicano. Mas, ao contrário do que se esperava, Oseguera não estava em refúgios inacessíveis e distantes, mas sim muito mais perto do que se podia imaginar: em Tapalpa, um destino de ecoturismo com cabanas. O local contém trilhos e um campo de golfe, ficando a cerca de 130 quilómetros, ou seja, a apenas duas horas de carro, de Guadalajara.
O esconderijo (quase) perfeito
As cabanas que serviram de palco para a batalha final de "El Mencho" ficam no sopé das montanhas, rodeadas por florestas, trilhos para caminhadas, dezenas de pequenos hotéis, um campo de golfe e a poucos minutos de distância de um lago artificial. O local é frequentemente utilizado por turistas para acampar, fazer churrascos ou até mesmo disfrutar da natureza.
Uma década antes, o Departamento do Tesouro dos EUA já tinha identificado a região como vinculada a mecanismos de lavagem de dinheiro do (CJNG) e de Los Cuinis, através de negócios de aluguer de cabanas.
Segundo o secretário da Defesa Nacional, Ricardo Trevilla, as secretas mexicanas rastrearam a companheira de "El Mencho" no momento em que a mesma se iria encontrar com o líder do cartel. O casal chegou ao ponto de encontro no dia 20 de fevereiro, sexta-feira.
No momento da captura, o líder do CJNG estava acompanhado por apenas uma dúzia de guarda-costas. Essa fração mínima de segurança representou a oportunidade que as autoridades esperavam há décadas: capturá-lo sem provocar muitas baixas.
Durante a operação, "El Mencho" tentou refugiar-se entre as árvores que cercavam a propriedade e escondeu-se na vegetação rasteira. No entanto, acabou apanhado pelos agentes de segurança que encontraram o criminoso gravemente ferido, acompanhado por dois guarda-costas. Nemesio Oseguera morreu durante o transporte aéreo para o hospital.
Tapalpa em choque com a operação
Mas o local escolhido pelo narcotraficante foi uma surpresa até para os responsáveis regionais. O prefeito da cidade, Antonio Morales, referiu não ter conhecimento da presença de "El Mencho" em Tapalpa. “Começámos a ouvir sobrevoos de helicópteros e explosões às oito da manhã”, relatou ao Grupo Fórmula, referindo-se ao dia da captura.
Por outro lado, os seis hotéis localizados a poucos metros de distância onde o criminoso foi morto afirmaram não ter ouvido nada no dia do episódio. No local, moradores e visitantes aguardam agora notícias sobre como o CJNG se reestruturará e quem se seguirá a "El Mencho" como chefe da organização criminosa.
CIA envolvida na operação
Mas as surpresas não se ficam por aí. Segundo o The Washington Post, a captura de Nemesio Oseguera Cervantes foi conseguida graças à ajuda da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA), que forneceu informações cruciais que ajudaram a localizar o chefe do cartel mais procurado do México, em Tapalpa.
De acordo com fontes familiarizadas com a operação, os dados da CIA foram “fundamentais para a captura” de Oseguera. Os detalhes precisos sobre a origem das informações não foram revelados, mas incluem uma combinação de informantes humanos, imagens aéreas e comunicações intercetadas.
Durante o governo Trump, os Estados Unidos intensificaram o compartilhamento de informações com o México e pressionaram as autoridades mexicanas a agir rapidamente com base nesses dados. Já durante o governo Biden, a CIA passou a realizar voos secretos com drones sobre o México para localizar laboratórios de produção de fentanil e líderes de cartéis.
Ainda segundo um funcionário mexicano, a cooperação com a CIA demonstrou que o governo conseguiu agir “de forma rápida e eficaz” com base nas informações vindas do exterior. Apesar disso, as autoridades mexicanas têm resistido à ideia de operações conjuntas com os EUA, argumentando que as suas próprias forças possuem capacidade técnica suficiente para executar missões complexas contra líderes de cartéis.