opinião
Padre do Opus Dei nos Colégios Fomento e na Paróquia de Ramalde (Porto)

Podemos falar de pornografia?

23 jul 2025, 14:59

Foi numa tarde de verão há uns anos, ainda antes de ser padre. “Qual é o mal da pornografia?” perguntou-me o José, de 18 anos, num daqueles desabafos que me deixaram em silêncio. “Não faço mal a ninguém”. A conversa foi dura, sincera, amenizada por uma cerveja ao som de “Love of my life” dos Queen. Ali percebi que o tema é sério, que tenho que ouvir, não julgar, acompanhar, não fugir às perguntas difíceis. 

E levou-me a estudar mais. O projecto FND reúne +100 estudos científicos (peer-reviewed) que mostram que o consumo frequente de pornografia não é neutro.

  • Um dos estudos mais citados é o de Kühn e Gallinat (2014), publicado na JAMA Psychiatry, que mostra que o consumo frequente de pornografia está associado a redução de matéria cinzenta no córtex pré-frontal, a área do cérebro responsável por decisões, autocontrolo e empatia.
     
  • Outro estudo, liderado por Bonilla-Zorita (2023) publicado na JAMA Pediatrics, revela que mais de 50% dos adolescentes relataram ter sido expostos a pornografia sem intenção, muitas vezes antes dos 12 anos. E que essa exposição precoce se associa a comportamentos sexuais de risco, menor autoestima e distorção da imagem corporal.
     
  • Além disso, Wright et al. (2017), num estudo com mais de 3.000 participantes, concluíram que o consumo regular de pornografia está correlacionado com menor satisfação sexual, menor intimidade emocional e aumento de comportamentos infiéis.
     
  • E Park et al. (2016), num artigo de revisão publicado na Behavioral Sciences, sugerem que o consumo prolongado de pornografia pode estar associado a casos de disfunção sexual induzida por estímulos visuais artificiais, ou seja, perda de resposta sexual a estímulos reais.

A pornografia é como uma droga. Difícil de largar, mais fácil de esconder, mais acessível e barata do que qualquer outra. Acompanho pessoas que estão reféns deste hábito. Homens brilhantes, mulheres generosas, pais e mães dedicados que vivem o drama silencioso da dependência. Não querem continuar, mas não sabem como parar. E isso destrói carreiras, desgasta casamentos, deteriora relações, corrompe vocações.

Quantos “Josés” andam por aí a pedir ajuda em silêncio? E quantos não se apercebem que precisam de ajuda? Quantos filhos e filhas vivem expostos a esta armadilha? Como podemos ajudar?

Sou padre, não sou psicólogo nem médico. Mas sei que os pais e educadores têm um papel insubstituível na prevenção. E conversar aberta e claramente sobre o tema, mesmo sendo difícil, é uma das melhores formas de prevenção. Deixo 6 sugestões para essas conversas com os filhos, amigos ou até irmãos mais novos:

1. Fale com o seu filho nestas férias.
Não espere que o seu filho tropece num vídeo para iniciar o diálogo. Às vezes, é melhor o pai falar com o filho e a mãe falar com a filha. Fale sobre o tema com a naturalidade com que se fala sobre redes sociais ou sobre amizades e temas do quotidiano. Pode iniciar com algo simples como: "Sabes que na internet há coisas que parecem ser sobre amor mas não são? Se alguma vez vires algo que te deixa desconfortável, podes sempre falar comigo."

2. Use linguagem adequada à idade.
Com crianças pré-adolescentes e crianças com idade superior a 6 anos, numa atitude de prevenção, fale sobre o valor do corpo. Por exemplo: "O nosso corpo é bonito e merece respeito. Às vezes há vídeos que mostram as pessoas de formas que não são boas ou verdadeiras."

Com adolescentes, pode ser mais direto: "Já ouviste falar de pornografia? Sabes que é algo que aparece muito na internet? O que é que tu achas sobre isso?”.

3. Fale sobre o impacto da pornografia.
Explique que não se trata só de “ver imagens”. Leve a que sejam percecionados os efeitos reais: "Há muitos estudos que revelam que o consumo de pornografia destrói o nosso cérebro e o nosso corpo como uma droga. Faz-nos pensar que amor é apenas prazer. E com o tempo, é mais difícil gostar verdadeiramente de alguém. Tu gostavas que o teu/tua namorado(a) soubesse que vês essas coisas?"

4. Esteja preparado para ouvir.
Se o seu filho reconhecer que viu pornografia, não o julgue. Ouça. Agradeça a confiança. Depois, fale sobre o que fazer a seguir. Pode dizer: "Fico contente por me contares. Que impacto teve para ti? Vamos pensar juntos se isso é mesmo bom. Não estás sozinho."

5. Estabeleça limites.
Não se trata de controlar tudo, mas de ajudar a criar hábitos saudáveis. Combine regras claras: horários para ecrãs, definir horas de deitar, telemóveis fora dos quartos à noite, momentos offline em família. Arranje jogos e diversões que substituam a dependência do telemóvel. Seja criativo e o primeiro a impor-se limites.

6. Reforce que há sempre uma saída.
Muitos adolescentes sentem vergonha ou acham que já “não têm solução”. A adição à pornografia pode ser acompanhada por psicólogos, psiquiatras e terapeutas especializados. Também a APP Fortify e o programa Reboot. Diga-lhes, com clareza: "Se viste algo que te marcou, se estás perturbado com isto, há pessoas que podem ajudar-te. E é possível recomeçar. Sempre."

Felizmente, há recursos em português, gratuitos e adaptados à nossa realidade. O site www.daoclique.pt é uma dessas ferramentas valiosas. Lá os jovens encontram a possibilidade de um apoio real. 

A pornografia aparentemente inofensiva, apresenta-se como um entretenimento, mas o impacto está à vista: jovens deprimidos, casais separados, vidas feridas. Está na hora de acordarmos. Talvez nestas férias, entre banhos de sol e gelados, valha a pena ter uma conversa diferente. Sem medo. Sem vergonha. Vai falar com o seu filho nestas férias sobre este tema? Custa tocar na ferida. Mas como dizia a minha avó: o que arde, cura.

E para quem pensa que já é tarde, recordo que o José pediu ajuda. Ele, que pensava que não fazia mal a ninguém, fez muito mal a si próprio. Custou-lhe muito. Libertou-se. Os anos passaram e hoje está casado e é pai de uma criança.

É possível sair. Há esperança. Deus também ajuda. Mas temos que saber pedir. Podemos e devemos falar sobre a pornografia. É a falar que as pessoas se entendem.

Quando ouço “Love of My Life”, lembro-me muitas vezes do José. E penso em tantos outros que querem voltar a amar com liberdade, com ternura, com entrega verdadeira. Porque o amor não é um instinto. É uma decisão no tempo. Uma vocação. E como diz a música dos Queen: “When I grow older, I will be there at your side, to remind you how I still love you…”.

Colunistas

Mais Colunistas