Andrew Tate, antigo lutador de kickboxing, e suspeito de vários crimes, entre os quais tráfico humano, é uma celebridade na internet, onde se assume como misógino e espalha discurso de ódio contra as mulheres. Muitos adolescentes crescem a ouvir esse discurso e o que está a acontecer "lá fora" também "está a acontecer aqui"
A 23 de maio de 2014, Elliot Rodger, de 22 anos, matou seis pessoas na cidade de Isla Vista, na Califórnia. Num blogue que alimentava descrevia-se como um "cavalheiro sofisticado e educado". Frequentava a Universidade da Califórnia e considerava-se um solitário. “Há muitas pessoas detestáveis que arruinaram toda a minha experiência naquele lugar”, escreveu. Numa publicação no seu blogue, a 16 de abril, Elliot dizia que "estar solitário num lugar bonito como Santa Barbara" era uma "experiência horrível".
Antes de matar seis pessoas, publicou um vídeo no YouTube, onde anunciou uma "vingança contra a humanidade". No vídeo de sete minutos, dizia que "as raparigas nunca se sentiram atraídas por ele" e que, por isso, ele iria "punir" todas elas. “Tenho 22 anos e ainda sou virgem. Nunca sequer beijei uma miúda. (…) Tem sido muito torturante. (…) Não sei o que vocês não veem em mim. Eu sou o rapaz perfeito e, ainda assim, vocês só olham para esses homens detestáveis em vez de mim, o cavalheiro supremo", afirmou.
Depois de esfaquear até a morte três pessoas no seu apartamento, saiu à rua e atirou indiscriminadamente, fazendo mais três vítimas, antes de se suicidar.
Elliot Rodger era um incel (um termo que vem da junção das palavras em inglês involuntary celibate – celibatário involuntário). Trata-se de uma espécie de subcultura constituída sobretudo por homens, frustrados pela sua incapacidade de desenvolver uma vida sexual.
A Anti-Defamation League (Liga Antidifamação, na tradução) dos Estados Unidos, que trabalha para combater o ódio e o extremismo, define os incels como “homens heterossexuais que culpam as mulheres e a sociedade pela sua falta de sucesso romântico”. Mas também pode ser usado como um termo pejorativo para descrever alguém que tem pontos de vista ou comportamentos misóginos.
"Existe nos adolescentes do mundo inteiro"
“A masculinidade tóxica é uma situação global. Existe nos adolescentes do mundo inteiro. Em Portugal, não usamos o termo incel, mas existe”, diz à CNN Portugal a psicóloga Tânia Gaspar.
O assunto está na ordem do dia, por causa da série da Netflix “Adolescência”. Jamie Miller, de 13 anos, mata uma colega de escola, alegadamente porque a jovem não quis namorar com ele.
A pergunta impõe-se: como pode um jovem de 13 anos achar que nenhuma rapariga quer ou quererá namorar com ele?
“Como é óbvio, não é normal, mas pode acontecer. Não é normal uma criança de 13 anos pensar que nunca vai conseguir arranjar uma namorada, pelo amor de Deus, não é? Mas quando é doutrinada neste sentido, sim”, sublinha à CNN Portugal Cristiane Miranda, cofundadora do projeto “Agarrados à Net”.
“Um jovem de 12 anos começa a mudar o corpo, começa a não se sentir bem com o seu próprio corpo, começa a interessar-se pelas meninas, mas as meninas não estão nada interessadas. Começa a sentir-se um bocadinho mal, e vem alguém que diz ‘a culpa é toda delas, porque elas é que não te ligam nenhuma’, ‘tu não tens problema nenhum, elas é que não prestam para nada’. Começam a doutriná-lo”, acrescenta Tito de Morais, o outro fundador do projeto.
O fenómeno Andew Tate
As redes sociais estão repletas de grupos e de influenciadores que defendem a misoginia (aversão ou desprezo pelos indivíduos do sexo feminino; preconceito contra as mulheres) e a masculinidade tóxica. Andrew Tate é talvez o mais popular de todos. O antigo lutador de kickboxing tornou-se num influencer conhecido entre os mais jovens, autointitulando-se como "misógino". Foi recentemente acusado pela ex-namorada de agressão física e sexual, durante uma viagem aos Estados Unidos. Enfrenta também processos judiciais na Roménia e no Reino Unido por alegada violação e tráfico de seres humanos. Tem milhares de seguidores nas redes sociais.
“Há cerca de um ano e meio, quase dois anos, numa formação que tivemos no Porto, onde estávamos a falar de Andrew Tate, uma mãe levantou a mão e perguntou-nos se podia dar o seu exemplo. Ela contou-nos que, quando deu por ela, o filho estava completamente doutrinado. Um jovem de 13 ou 14 anos completamente doutrinado pelo Andrew Tate e que a tratava a ela própria pessimamente, seguindo a doutrina misógina. Não é novidade. No Porto. Não estamos aqui a dizer que isto acontece lá fora. Não, isto está a acontecer aqui, só que isto não está a ser noticiado, isto não está a ser falado”, defendem Cristiane Miranda e Tito de Morais.
Os dois especialistas lembram que, no Reino Unido, produziram-se “guias de orientação sobre como é que os professores deviam lidar com os alunos que estão doutrinados por estas teorias misóginas e racistas”. “Eu não tenho dúvida, porque quando nós perguntamos quem conhece o Andrew Tate, aos miúdos, nas formações, eles dizem-nos que sim, que o conhecem, que é um lutador de MMA. Mas não falam do resto”, conta Tito de Morais.
“Essa é a mensagem que passa cá para fora, mas se eles o conhecem e o seguem, pelo menos já viram conteúdos dele. E nós não podemos esperar que aconteçam casos cá em Portugal. Não estou a dizer que haja uma relação direta com isso, mas, por exemplo, este caso agora de três jovens influencers que violaram uma jovem em Loures. Vamos andar permanentemente atrás do prejuízo?, questiona Cristiane Miranda.
O perigo à espreita no WhatsApp
Os fundadores do projeto Agarrados à Net lembram que a questão da masculinidade tóxica e dos adolescentes não se resume a seguirem influencers que defendem valores misóginos. O perigo também espreita em redes sociais como o WhatsApp. “Existem grupos dedicados exclusivamente a partilhar fotografias de mulheres em atos sexuais e jovens adultos que combinam encontros com mulheres através de aplicações de encontros, que as filmam com o único intuito de gravarem os atos sexuais para depois exibirem como troféus em grupos de WhatsApp ou Telegram. E isso também não é novidade”, diz Tito de Morais.
Vanessa Ribeiro, 35 anos, ilustradora, mãe de três filhos, confessa que a série lhe acertou como “um murro no estômago”. Ela que tem uma filha de 17 anos, confessa que desconhecia todos os códigos associados aos emojis que são retratados na série e também desconhecia a “comunidade incel”. “Deveria ser um assunto de adultos e não de jovens de 13 anos”, sublinha.
Andew Tate não é exemplo único. No final do ano passado, um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Brasil, analisou mais de 76 mil vídeos publicados online. E concluiu que o discurso misógino se tornou um negócio lucrativo para vários influencers. Os investigadores do NetLab concluíram que os 76,3 mil vídeos, juntos, totalizam quase 4 mil milhões de visualizações e 23 milhões de comentários.
