Há cada vez mais indisciplina, mais burocracia e menos meios: esmagadora maioria dos professores não recomenda a profissão

25 jul 2025, 11:13
Jovens (Reuters)

“A sensação com que se fica é que a burocracia sufoca os professores, a indisciplina desgasta os professores e a falta de apoios para o exercício da profissão compromete a própria profissão.” Estudo fez o ponto da situação da profissão - e não é animador

Os professores estão cada vez mais preocupados com o comportamento e com a indisciplina dos alunos. A FNE (Federação Nacional da Educação) e a AFIET (Associação para a Formação e Investigação em Educação e Trabalho) realizaram uma consulta aos docentes, que envolveu quase 5 mil profissionais e que revelou isso mesmo.

Questionados sobre se consideram que o grau de indisciplina em sala de aula subiu em relação ao ano anterior, a maioria dos participantes (51%) considera que foi ou superior ou muito superior, 41,9% dizem que foi idêntico e apenas 5,5% consideram que o grau de indisciplina em sala de aula foi inferior ao do ano letivo anterior. Os números revelam um aumento, ainda que ligeiro, em relação à consulta realizada no ano passado e referente ao ano letivo 2023/2024, em que 38,3% dos inquiridos assinalavam que a indisciplina tinha sido superior à do ano de 2022/2023 e 15,2% muito superior. 40% consideravam que se mantinha.

É na faixa etária dos professores com menos de 30 anos que se encontra a percentagem mais baixa dos que afirmam que a indisciplina foi este ano superior ou muito superior (44,7%).

51% dos professores inquiridos consideram que o nível de indisciplina em sala de aula foi ou superior ou muito superior ao do ano letivo passado. (Fonte: FNE e AFIET)

“Há um aspeto importante, no que à indisciplina diz respeito, que tem a ver com a revisão do estatuto do aluno. É muito importante criar regras, mas é importante se as podemos fazer cumprir. É urgente rever o Estatuto do Aluno e responsabilizar alunos e encarregados de educação. Este Estatuto do Aluno já tem 13 anos e em 13 anos mudou muita coisa nas escolas”, destaca Pedro Barreiros, secretário-geral da FNE, em declarações à CNN Portugal.

O responsável sindical sublinha ainda que “ao nível da indisciplina e ao nível da violência é preciso olhar também para a falta de recursos humanos nas escolas - assistentes operacionais e assistentes técnicos”. “Espaços escolares mais vigiados são espaços escolares menos propensos à indisciplina e à violência.”

No que diz respeito às condições de trabalho, os docentes continuam a apontar os trabalhos burocráticos como uma pedra na engrenagem.  A consulta revela que 44,8% dos inquiridos consideram que o tempo que tiveram de utilizar em tarefas burocráticas aumentou. Quase metade (49,2%) considera que se manteve.

44,8% dos docentes consideram que a carga burocrática aumentou. (Fonte: FNE e AFIET)

Para 73,2% dos inquiridos, as tarefas administrativas que tiveram de realizar neste ano letivo foram ou pouco úteis ou mesmo inúteis.

73,2% dos inquiridos consideram as tarefas administrativas que realizaram pouco úteis ou mesmo inúteis.  (Fonte: FNE e AFIET)

A falta de professores continua a ser um problema nas escolas. A maioria (45,3%) considera que, no ano letivo que agora termina, os alunos foram prejudicados por existir insuficiência de docentes.

A maioria dos professores considera que, no ano letivo que agora termina, na sua escola, os alunos foram prejudicados por existir insuficiência de docentes.  (Fonte: FNE e AFIET)

A consulta da FNE e da AFIET revela também que é maioritário (55,7%) o sentimento dos professores sobre a falta de recursos e apoios de que necessitaram para trabalhar com os seus alunos.

Professores queixam-se da falta de apoios e de recursos para trabalhar com os seus alunos. (Fonte: FNE e AFIET)

 

A consulta, a cujos resultados a CNN Portugal teve acesso em primeira mão, dá conta de preocupações antigas, que parecem não abandonar os professores. “Lançámos uma pergunta genérica aos colegas: ‘Quais pensa que devem ser as três principais prioridades das reivindicações sindicais atualmente?’. E conseguimos perceber que há algumas preocupações que se mantêm. Carreira e desenvolvimento, salários desadequados para as tarefas que têm de exercer, a burocracia, o horário de trabalho, a indisciplina, a avaliação de desempenho e respetiva eliminação do regime de quotas, a monodocência, a alteração ao modelo de gestão das escolas”, diz Pedro Barreiros, em declarações à CNN Portugal.

Ainda assim, destaca o secretário-geral da FNE, algumas das reivindicações que existiam “desapareceram ou atenuaram”. A FNE relaciona esses dados com o acordo celebrado com Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), no dia 21 de maio de 2024, para a recuperação integral do tempo de serviço “e com o alento da possibilidade de muitos de nós podermos aceder ao topo de carreira”.

“A sensação com que se fica é que a burocracia sufoca os professores, a indisciplina desgasta os professores e a falta de apoios para o exercício da profissão compromete a própria profissão”, conclui Pedro Barreiros.

De notar que a esmagadora maioria (73%) dos professores continua a não recomendar a profissão aos mais jovens. Ainda assim, verifica-se, ao longo dos últimos anos, uma diminuição do número de docentes que não incentivariam a escolha da profissão.

Diminui o número de docentes que não incentivariam os jovens a seguir a profissão.  (Fonte: FNE e AFIET)

Mas, sublinha Pedro Barreiros, os professores continuam a gostar do que fazem: “76,5% afirmam que a carreira não é atrativa, apesar de se gostarem de serem professores”.

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