A hipocrisia política na gestão das escolas ou como a cor do poder determina as certezas de alguns
Há um espetáculo recorrente na política portuguesa que já ninguém devia suportar com indiferença. Chama-se mudança de opinião por conveniência, e é tão previsível quanto desolador. O mesmo partido que governa com determinado modelo durante anos, que o impôs, que o defendeu com unhas e dentes, que nunca o alterou quando podia, mal perde o poder, descobre subitamente as virtudes da reforma. É a hipocrisia elevada a método.
O caso mais recente é o do Partido Socialista e o modelo de gestão das escolas públicas. Em setembro de 2025, o PS anunciou que defende a eleição das direções escolares em lista pela comunidade escolar, preocupado com a "contaminação partidária" que o modelo actual alimenta. A proposta é razoável. O problema não é o que se diz! É quando e porquê se diz.
Foi um governo socialista que, em 2008, impôs o modelo que agora tanto incomoda o PS. O Decreto-Lei n.º 75/2008, aprovado sob a tutela de José Sócrates, concentrou o poder nas mãos de um diretor unipessoal escolhido por um Conselho Geral de composição heterogénea e de legitimidade democrática frágil. Seguiram-se anos de governação do PSD/CDS, depois voltaram os socialistas, e o modelo ficou. Entre 2015 e 2024, o PS esteve no governo, primeiro em maioria relativa, a famosa geringonça, depois em maioria absoluta. Teve todas as condições políticas para reformar o modelo que agora critica. Não o fez.
Ora, como bem documenta Paulo Prudêncio no seu artigo "Esgotou-se o tempo da inércia dissimulada em negociações lentas e intermináveis", publicado no Público a 22 de maio de 2026, o diagnóstico sobre os malefícios deste modelo está feito há muito. Os estudos acumularam-se durante década e meia. A evidência de que o sistema alimenta megalómanos e pequenos tiranetes, que degrada a representatividade democrática nas escolas, está amplamente documentada. Não era preciso esperar pela oposição para o saber.
Ao longo dos últimos anos, tenho defendido no Observador e na CNN Portugal a necessidade de um modelo de gestão mais democrático para as escolas públicas. Fi-lo quando governava o PS. Fi-lo quando governava o PSD. E continuo a fazê-lo agora, com os mesmos argumentos, mesmo sendo diretor. A eleição dos diretores pelos pares promove a participação ativa dos professores na escolha dos seus líderes, cria um ambiente de confiança e responsabilidade partilhada, e é quase um imperativo numa sociedade democrática. Não o digo para me elogiar. Digo-o porque é precisamente essa estabilidade de posição que me permite, com alguma legitimidade, questionar quem só descobriu estas virtudes depois de deixar o poder. A convicção não deveria depender do cargo que se ocupa.
O mesmo não pode dizer-se de muitos atores políticos que, ao longo dos anos, transformaram as suas convicções em acessórios de moda. Vestem-nas quando combinam com a estação e guardam-nas quando não servem.
Seria injusto, e intelectualmente desonesto, circunscrever esta crítica ao PS. A hipocrisia política na educação é uma doença sem partido. O PSD também governou, e governa, e também não reformou o modelo. O CDS apoiou reformas que hoje critica. Partidos de esquerda, que apoiaram o PS na Geringonça, que fazem da democratização da escola uma bandeira identitária raramente foram além da retórica quando estiveram no poder. A patologia é sistémica. No modelo de gestão das escolas nenhum partido quer genuinamente desmantelar enquanto está no poder.
Há uma distinção fundamental que a política portuguesa parece ter perdido. Mudar de opinião é não apenas saudável como necessário. É, inclusive, sinal de inteligência e de honestidade intelectual quando acompanhada por nova evidência, por acréscimo de conhecimento, ou por uma mudança genuína das premissas que sustentavam a posição anterior. O problema não é a mudança. O problema é quando a mudança de posição coincide sistematicamente com a mudança de lugar, do governo para a oposição, da maioria para a minoria, sem que nada de substancial tenha mudado no diagnóstico do problema.
No caso da gestão escolar, o diagnóstico é o mesmo desde 2008. Os dados são os mesmos. A evidência empírica é a mesma, aliás mais robusta ainda. O que mudou foi apenas que o PS saiu do poder. E isso, convenhamos, não é uma razão epistemológica para mudar de convicção, é uma razão política para fingir que se mudou.
Esta forma de fazer política tem um custo que vai muito além do debate educativo. Corroi a credibilidade das instituições. Ensina aos cidadãos, e em particular aos mais jovens, que as ideias são descartáveis, que os princípios são negociáveis, e que a política é essencialmente um teatro de conveniências. É precisamente esta perceção que alimenta o cinismo crescente face à classe política e que, em última análise, enfraquece a democracia que as escolas deviam estar a formar.
A reforma do modelo de gestão das escolas é necessária e urgente. Todos aqueles que têm defendido eleições diretas, órgãos colegiais, limitação de mandatos e mais democracia na escola, têm razão. Cada um à sua maneira, cada um no seu ângulo. O que não pode é ser o PS a liderar essa bandeira como se nunca tivesse tido dezassete anos para a desfraldar.
A hipocrisia política tem muitos donos. A escola, porém, só tem uma geração de alunos que não pode esperar pela próxima legislatura.
