Quase metade dos portugueses só compreendem textos simples e a culpa é da Educação. "O sistema precisa de ser varrido de alto abaixo"

15 dez 2024, 08:00
Matemática

Um estudo da OCDE coloca Portugal nos últimos lugares em termos de literacia, numeracia e resolução adaptativa de problemas. São resultados pouco animadores, que três especialistas ouvidos pela CNN Portugal justificam com a baixa escolaridade da população portuguesa, mas também com a qualidade do ensino em Portugal

Cerca de 40% dos adultos que vivem em Portugal só conseguem compreender textos simples e fazer contas básicas. Piores do que nós, só os chilenos. É o que indica o Inquérito às Competências dos Adultos levado a cabo pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), cujos resultados foram divulgados esta semana e em que Portugal participou pela primeira vez. O estudo avalia as competências da população em literacia, numeracia e resolução adaptativa de problemas e, numa comparação entre 31 países, Portugal é o penúltimo da tabela.

Os resultados não surpreendem, mas preocupam três especialistas ouvidos pela CNN Portugal, que apontam o dedo às políticas educativas adotadas nos últimos anos. “Não fiquei surpreendido com os dados, mas como português não posso ficar satisfeito e como presidente do CNE também não!”, alerta Domingos Fernandes, professor catedrático no ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa) e presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE).

“Não podemos gerir a Educação atrás da espuma dos dias, temos de ir às questões de fundo. E as questões de fundo passam pela qualidade da educação, pela qualidade do ensino e pela qualidade da aprendizagem. Muito dificilmente sairemos desta situação. Muito dificilmente daremos qualificações às pessoas sem instituições de qualidade”, sublinha.

Carlos Ceia, também professor catedrático mas da Universidade Nova de Lisboa, assina por baixo: “O sistema precisa de ser varrido de alto abaixo. Desde o 1.º ciclo à educação para adultos. De uma forma estratégica. Caso contrário, vamos andar sempre com pensos rápidos aqui e acolá para ver se resolvemos as reivindicações desta ou daquela classe profissional.”

Domingos Fernandes sublinha o impacto que estes resultados podem ter na sociedade: “Estas pessoas que têm fraca literacia, fraca numeracia e fraca resolução adaptativa de problemas têm muita dificuldade em ajuizar em relação às questões que as rodeiam. Nomeadamente, o facto de terem dificuldade em tomar decisões relativas ao futuro do país, em quem votam nas eleições, por exemplo. Isto é muito grave até do ponto de vista do país, do ponto de vista da sociedade.”

A qualidade do ensino

Carlos Ceia lamenta a gestão que tem sido feita das políticas educativas em Portugal. “Ficámos obcecados por transformar o ensino, do ponto de vista global, em aprendizagens essenciais que não nos ajudam em nada. Temos um sistema de avaliação externa que não funciona, aprendizagens essenciais sem utilidade e esquecemo-nos de coisas tão básicas como ensinar a estudar, ensinar a pensar, ensinar a ler”, considera o especialista.

Para João Marôco, investigador do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), “o que os dados nos dizem (não só os deste estudo, mas os do TIMSS e os do PISA também) é que, até 2015, os nossos jovens estavam a evoluir positivamente. A partir de 2015, Portugal parou de evoluir e veio por aí abaixo”. “Acho que não é preciso reinventar a roda. É só olhar para aquilo que Portugal fez entre 2000 e 2015, uma altura em que Portugal evoluiu, e reverter as políticas adotadas depois de 2015. Em 2015, os alunos tiveram resultados melhores do que os finlandeses, já que gostamos tanto de nos comparar com a Finlândia em termos de educação. Em 2019, caíram abruptamente e passaram para baixo da Finlândia”, acrescenta.

“O que se pode fazer a partir daqui é repensar totalmente o sistema de avaliação que adotamos desde 2016, que passou do sistema de conteúdos para o sistema das competências”, corrobora Carlos Ceia.

Domingos Fernandes defende que se debate pouco a qualidade do ensino em Portugal e a inovação na Educação. “Há uma questão da qualidade do ensino que as políticas públicas não têm colocado em ênfase. A ênfase na qualidade tem de ser posta em cima da mesa. Tem de ser atacada pelas universidades, pelos politécnicos. É incontornável a qualidade da formação dos nossos professores. É incontornável os professores terem carreiras valorizadas. Os professores devem ser valorizados. A educação é fundamental para o futuro do país. Ou a agarramos com todas as nossas forças ou dificilmente seremos capazes de sair do estado em que estamos”, sublinha.

“O conhecimento pedagógico e científico dos professores é fundamental. Só assim podemos inovar. A inovação é fundamental para mobilizar os alunos para o bem inestimável que é aprender. Não se pode inovar estando uma hora e meia a falar e os alunos não fazerem nada tem de haver um envolvimento dos alunos na aprendizagem”, acrescenta.

Domingos Fernandes sublinha que os dados ainda não foram analisados ao pormenor pelo Conselho Nacional de Educação, mas alerta que “temos largos milhões de pessoas com mais de 30 anos, cuja escolaridade máxima é o 9.º”. “Antes de 1986, a escolaridade obrigatória era de seis anos. Passou para nove e, só a partir de 2009, é que passou para 12 anos. Se recuarmos até aos anos 90 do século passado, podemos imaginar que milhares de portugueses não têm mais do que o 9.º ano. Se recuarmos ainda mais, temos portugueses ainda mais velhos cuja escolaridade máxima é o 6.º ano. Além disso, o abandono da escola era significativo. Nos anos 90 tínhamos 50% de abandono. Portanto, nem toda a gente completava sequer o 9.º ano”, analisa o presidente do CNE.

“No caso português, cerca de 46,1% dos respondentes têm um nível secundário inferior, ou seja, até ao 9.º ano de escolaridade. Se for comparar com a Finlândia, por exemplo, só cerca de 7,4% estão nessas condições. Na amostra portuguesa com formação superior estão 27% e na Finlândia 49,8%. Por aqui, podemos concluir que o nível de escolaridade média da nossa população é inferior ao nível de escolaridade média dos países da OCDE. As amostras dos vários países são diferentes, porque as escolaridades das populações são diferentes”, sublinha João Marôco, especialista em estatística.

Mas as questões metodológicas não justificam tudo. “O nível de conhecimento com educação terciária (ensino superior) é menor do que o nível de conhecimento das pessoas da Finlândia com educação secundária. Ter um diploma superior não é sinónimo de ter conhecimento. Estou a comparar com a Finlândia, porque Portugal gosta muito de se comparar com a Finlândia. Mas se formos comparar com a Alemanha ou a Chéquia é igual”, diz João Marôco.

“Os únicos que estão acima da média da OCDE são os que têm diploma do ensino superior e os pais também têm. Estamos perante um país ainda extremamente desigual”, assinala Domingos Fernandes.

A resistência em aprender

Carlos Ceia acrescenta que a questão das políticas educativas falhadas não é um exclusivo da educação obrigatória. “Nos últimos 20 ou 25 anos tivemos uma série de políticas que falharam na educação de adultos, numa tentativa de recuperar décadas de atraso na alfabetização. Com o Novas Oportunidades ou o Qualifica. Gastámos imenso dinheiro nessas formações. Ajudámos muita gente a ter adultação literária, mas aquilo que realmente se ensinou e o que realmente foi apreendido, quando vamos comparar com o que se faz noutros países, daria algo como o que aconteceu agora. Nos últimos dez ou 15 anos não fizemos muito para proteger o ensino ao longo da vida”, avalia.

E os problemas podem estar também na disponibilidade dos portugueses para aprender. Há uma grande resistência para aprender ao longo da vida, por comparação com os outros países. Muitos ainda pensam ‘sei o que sei e recuso-me a sair da minha zona de conforto e voltar à escola’. Tem a ver com a valorização que a população dá à Educação. Na Finlândia as profissões mais valorizadas são médico, padre e professor”, volta a comparar João Marôco.

Contrastando com o otimismo de Domingos Fernandes, que prevê que os resultados num futuro estudo sejam “necessariamente diferentes para melhor, porque, da próxima vez, vamos encontrar uma percentagem mais significativa de pessoas com o ensino secundário terminado”, temos o pessimismo de Carlos Ceia.

“Nada disto se resolve para amanhã. É necessário uma espécie de pacto para a educação, em que todos, pais, alunos, professores e decisores políticos nos comprometemos a fazer o que for possível para mudar hábitos”, diz utopicamente Carlos Ceia.

O especialista olha para as novas gerações e alerta que “perderam hábitos de leitura, hábitos de escrita”. “Escreve-se de forma abreviada e até encriptada. Comunicamos muito rapidamente, sem pensar no que escrevemos ou no que dizemos”, aponta.

E, quanto às políticas educativas, Ceia deposita algumas esperanças no atual Governo, mas alerta que “já perdeu um ano à procura de soluções estratégias” e, enquanto isso, a falta de professores, por exemplo, continua a ser um problema e assim vai continuar. E dá um exemplo: “Os cursos de formação de professores estão todos suspensos há dois anos, porque não conseguimos fazer a acreditação.”

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