Confesso que quando ouvi as declarações do Ministro da Educação sobre os professores perderem a "aura" ao manifestarem-se, também me sobressaltei. A primeira reação foi a mesma de muita gente: "mas que disparate é este?". Mas depois de ler, reler e pensar melhor no assunto, acho que vale a pena olhar para isto de outra maneira.
Vamos lá ver. O que é que Fernando Alexandre quererá ter dito, realmente? Reconheceu que os professores são respeitados, que têm autoridade, que sabem. E depois acrescentou aquela frase infeliz sobre perder a aura nas manifestações. Ora, eu pergunto. Não estará ele simplesmente a constatar o óbvio? Que há uma parte da sociedade portuguesa que, infelizmente, olha de lado para quem se manifesta? Que há gente que acha que protestar é coisa de mal-agradecidos ou preguiçosos?
O problema não é o que o ministro disse. O problema é que ele tem razão quanto ao facto de haver essa perceção. Só que quem está errado não são os professores, é a sociedade, que ainda não percebeu que manifestar-se é um direito fundamental e um dever cívico.
E sabe o que mais me faz pensar? É que as manifestações funcionam! E como funcionam! Vejam o caso da recuperação do tempo de serviço. Estava morto e enterrado com os governos do PS, ninguém queria falar nisso. E de repente, com pressão, com manifestações, com luta, o próprio Governo seguinte acabou por ceder e, inclusive, usou como promessa eleitoral. Se isto não é prova de que sair à rua vale a pena, não sei o que é.
Por isso, dizer que os professores perdem a aura quando se manifestam é quase um elogio, se bem virmos. Quer dizer que estes profissionais, que todos sabemos serem fundamentais, que o ministro reconhece serem fundamentais, arriscam o seu prestígio para lutarem pelo que é justo. Arriscam serem mal vistos, serem criticados, serem gozados nas redes sociais. E mesmo assim vão. Isso não é perder dignidade, é ganhá-la.
Pensem bem! Uma profissão tão nobre como a de professor, pessoas que dedicam a vida a ensinar os filhos dos outros, a formar as futuras gerações, vê-se obrigada a ir para a rua porque ninguém os ouve de outra forma. E quando vão, há quem os critique. Isto diz muito mais da sociedade que os critica do que sobre os professores.
Os pais e encarregados de educação têm de perceber uma coisa muito simples. Ou respeitam os professores, e isso inclui respeitá-los quando reivindicam melhores condições, ou deixam de os ter. Já há falta de professores em várias zonas do país. Acham que isso vai melhorar se continuarmos a desvalorizar quem ensina?
Portanto sim, talvez os professores percam alguma dessa "aura" distante, dessa imagem de figura intocável que alguns ainda guardam. Mas ganham algo muito mais importante: ganham voz, ganham direitos, ganham respeito conquistado na rua. E já agora, provam aos alunos que a cidadania não é só teoria dos manuais, é prática de vida.
Se a aura é ficar calado e aceitar tudo, então que se perca a aura. O que os professores ganham em troca, condições dignas, salários justos, reconhecimento verdadeiro, vale bem mais do que qualquer brilhozinho superficial de respeito forçado.
E o ministro? Acho que ele não quis ofender ninguém. Quis constatar uma realidade triste do nosso país. O problema é que essa realidade existe, e, enquanto existir, continuaremos a precisar de professores nas ruas a lembrar-nos que quem educa os nossos filhos merece mais do que palavras bonitas. Merece ação!