MUNDIAL 2026

Saiba tudo aqui
Mais sobre o Mundial 2026
opinião
Vice Dean e Diretor de Mestrados, Católica Porto Business School

A curiosidade matou o gato. A sua falta mata a escola

12 jun, 11:00
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Há uma ideia simples que deveria estar na essência da escola, do ensino básico ao superior: o seu maior valor não está em ensinar respostas, mas em cultivar a curiosidade e o hábito de perguntar. Num mundo saturado de informação, manuais, modelos e opiniões instantâneas - e cada vez mais refém da performance e do resultado imediato - esta ideia soa quase a heresia. No entanto, hoje, a capacidade de fazer a diferença depende menos do acesso ao conhecimento e mais do modo como se pensa. E pensar começa por perguntar, por ser curioso.

Com a massificação do ensino, os modelos pedagógicos tenderam a privilegiar a reprodução do conhecimento. Dão-se respostas antes mesmo de as perguntas ganharem forma. Ensina-se a resolver problemas antes de se dar tempo para compreender a sua origem, o seu contexto e a lógica que os sustenta. Não surpreende, por isso, que vários estudos apontem para uma diminuição progressiva das perguntas feitas pelos estudantes ao longo do percurso académico. Em nome da eficiência e da aquisição de competências, desvaloriza-se o hábito de questionar.

A curiosidade não é um atributo acessório, nem um traço meramente simpático do processo educativo. A investigação em ciências cognitivas mostra que a curiosidade, quando despertada, amplia a atenção, fortalece a retenção e aprofunda o envolvimento na aprendizagem. Mais ainda, facilita a assimilação de informação colateral, como se o sistema cognitivo se tornasse mais permeável ao conhecimento.

As escolas devem, antes de mais, cultivar uma relação exigente com o conhecimento – uma relação que hoje se encontra sob pressão. Vivemos numa cultura que recompensa a rapidez e penaliza a hesitação. Valoriza-se a resposta pronta, mesmo quando esta substitui a reflexão. A dúvida lê-se como fragilidade, a lentidão como incompetência, a curiosidade como dispersão.

A emergência da IA agudiza este cenário. As suas capacidades são inegáveis. Amplia o acesso à informação, organiza conteúdos, acelera tarefas e facilita a exploração de novos temas. Demonizar a IA seria tão superficial quanto ignorar os seus riscos seria ingénuo. Quando a resposta chega depressa demais, instala-se a ilusão de aprendizagem: trabalhos mais polidos e respostas mais rápidas, mas menor compreensão, menor esforço cognitivo e menor apropriação real do conhecimento. A IA não substitui a dúvida porque não a tem. Cabe à pessoa interrogar, avaliar, decidir e assumir a responsabilidade.

É precisamente neste ponto que os alertas da UNESCO e da OCDE se tornam mais relevantes. Ambas sublinham que a IA só tem valor educativo enquanto se mantém ao serviço de objetivos pedagógicos claros e do juízo humano. O problema não está na ferramenta, mas no modo como esta amplifica a tendência já instalada de substituir o esforço de pensar pela tentação da resposta imediata. A preocupação não é travar a inovação, mas sim evitar que ganhos aparentes de desempenho escondam perdas reais de aprendizagem, autonomia intelectual e pensamento crítico.

Pensar exige esforço. Implica confronto, tentativa e erro, hesitação e revisão. Exige, acima de tudo, humildade perante a incerteza. A curiosidade nasce precisamente nesse espaço entre aquilo que se sabe e aquilo que se reconhece não saber. Por isso, a escola deve ser, antes de mais, um lugar onde se aprende a perguntar. Não porque as respostas não sejam importantes, mas porque respostas sem interrogação tendem a gerar conhecimento superficial. Uma escola exigente ensina a pensar criticamente, a articular saberes, a testar hipóteses e a rever pressupostos. Ensina que uma boa pergunta não atrasa a aprendizagem – aprofunda-a, torna-a mais rigorosa e mais duradoura.

A escola não pode contentar-se em formar pessoas que reproduzem conteúdos, cumprem tarefas e alcançam resultados. Deve formar pessoas intelectualmente inquietas, capazes de fazer perguntas que ainda ninguém fez e de pensar para além do imediato. Pessoas que não vejam o conhecimento como algo fechado, mas como uma busca permanente. Pessoas que preservem a capacidade de se maravilhar perante a descoberta. É dessa capacidade que emergem a autonomia intelectual, o discernimento, a imaginação e o sentido de responsabilidade.

Levar este princípio a sério obriga a escolhas pedagógicas concretas. Obriga a devolver tempo à pergunta antes da resposta. Obriga a avaliar a qualidade do raciocínio, a forma como o problema é formulado, a profundidade da interrogação que o origina e não apenas a exatidão da resposta. Obriga a usar a IA como instrumento de exploração, comparação e revisão – e não como atalho para contornar o esforço cognitivo. Obriga, em suma, a salas de aula em que a curiosidade deixe de ser tolerada como exceção e passe a ser assumida como condição da aprendizagem.

Sem curiosidade, a educação empobrece. Continua a transmitir conteúdos, a certificar competências e a emitir diplomas, mas deixa de estimular o pensamento e de formar inteligência viva.

E é aí que a escola deixa, em silêncio, de o ser.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Colunistas

Mais Colunistas

Mais Lidas